O contador de causos

O contador de causos

Meu tio Gonzaga puxava os cabelos de todas as suas sobrinhas. Todas mesmo, sem preconceitos, as filhas dos seus irmãos e as das cunhadas, desde as mais velhas até as mais novas, um puxador de cabelos profissional! Bem, só pra deixar claro e não fazer parecer que tô enaltecendo uma prática ruim, não é que ele puxaaaaaaava, pra machucar, de verdade. Era uma brincadeira, onde ameaçava essa prática e concretizava cheio de delicadeza, pra receber umas risadas infantis de volta. Umas, como minha irmã, fugiam, tentando impedir, já sabendo que aconteceria de todo jeito, outras até ofereciam a cabeça para receber o cafuné-puxada quando ele não buscava por isso. Te garanto que se você conversar com qualquer uma delas sobre ele, é uma das primeiras coisas que será mencionada, fazia parte de um ritual familiar sagrado, assim…

Até o dia que eu nasci.

Quando ele me viu a primeira vez, ainda recém nascida, a primogênita do seu irmãozinho caçula, não deixou de reparar que eu tinha a carinha triste. A boquinha virada pra baixo, de palhaço Pierrot, sabe, como se estivesse sempre prestes a chorar (o que, ao longo dos anos, virou meio que verdade). Fui crescendo devagarzinho, a gente se encontrava todo domingo na casa da vovó, pelo menos, e o sentimento era o mesmo: essa menina tem o rosto muito triste! Por isso, nunca teve coragem de “puxar” meus cabelos. Não conseguia fazer hora com a cara de expressão tão séria. Não poderia, de forma alguma, arriscar transformar aquela expressão em tristeza de verdade. E foi assim que minha grande lembrança de infância com tio Gonzaga se tornou bem única, diferente das outras.

Senti que faria sentido narrar um dos causos que compartilhamos, porque ele era o grande contador de causos da família, publicou quatro livros de coletâneas deles entre 2004 e 2017, inclusive. Quando eu estava no processo de financiamento coletivo para publicar Wish You Were Here, me ligou feliz e orgulhoso, afinal éramos os escritores da família, querendo ajudar no processo, e ajudou DEMAIS. Nos últimos anos nos vimos pouco, ele em Brasília, eu em Beagá, uma pandemia no meio desse caminho, mas eu sabia que ele estava lá, e ele que essa “menininha” estava aqui, sempre, ou quase… Porque aí, terça-feira, tudo mudou.

Meio controverso, seu Luiz Gonzaga Viana Lage, que você tenha feito bem triste, e feito chorar, a sobrinha que evitou ver nessa situação por tanto tempo. Talvez eu deva assumir o posto de contadora de causos (?), mas jamais chegarei ao seu nível de humor e sagacidade, afinal, não sou um palhacinho sorridente. Sou de boquinha virada pra baixo, mas disposta a mudar isso diante das boas lembranças. Obrigada, obrigada por tudo, e descanse em paz…

Close nas quarta capas de exemplares das coletâneas de causos de Luiz Gonzaga Viana Lage espalhados sobre uma superfície marrom felpuda. As capas em tons de vermelho e bege trazem fotografias do autor sorrindo, além de trechos de texto e imagens antigas de família.

Notas de pesar: SICOOB | Diário do Aço | Sistema Ocemg | Diário do Comércio | VOX 97 FM. Encontre alguns livros da série “Aconteceu sim! Me contaram…” na Estante Virtual.

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  • Eliel “Jesus”

    Sinto muito Luly. Espero que você tenha muitos causos para contar e relembra-lo. Deve ter sido massa um familiar também escritor, que essas memórias se tornem um ligar de alegria e consolo.

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  • Igor

    Que lindo, deve ser muito inspirador ter alguém assim na família.

    Sinto muito por sua perda, espero que encontre nas palavras sempre as pessoas que te inspiram s2

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  • Valéria

    Sinto muito pela sua perda Lulu ?
    Que Deus conforte seu coração e de seus familiares. Fiquem bem!

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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