A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes – Suzanne Collins

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes: Instrumento de cordas pequeno e marrom à esquerda da imagem, ao lado do livro resenhado. Ao fundo, uma camiseta preta com o símbolo da saga Jogos Vorazes, um pedaço de papel arco-íris em um canto e um marador de livro da saga Jogos Vorazes ao lado.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes – Uma história da série Jogos Vorazes (The Ballad of Songbirds and Snakes)*****
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes: capa do livro verde escura com um alvo alternando entre a cor do fundo e um tom mais claro. Ao centro, um tordo dourado olha pra cima montado em um galho onde há uma cobra da mesma cor. O título encontra-se em cima da imagem e abaixo o nome da autora. Autor: Suzanne Collins
Gênero: Distopia
Ano: 2020
Número de páginas: 576p.
Editora: Rocco Jovens Leitores
ISBN: 9786556670058
Sinopse: “É a manhã do dia da colheita que iniciará a décima edição dos Jogos Vorazes. Na Capital, o jovem de dezoito anos Coriolanus Snow se prepara para sua oportunidade de glória como um mentor dos Jogos. A outrora importante casa Snow passa por tempos difíceis e o destino dela depende da pequena chance de Coriolanus ser capaz de encantar, enganar e manipular seus colegas estudantes para conseguir mentorar o tributo vencedor. A sorte não está a favor dele. A ele foi dada a tarefa humilhante de mentorar a garota tributo do Distrito 12, o pior dos piores. Os destinos dos dois estão agora interligados – toda escolha que Coriolanus fizer pode significar sucesso ou fracasso, triunfo ou ruína. Na arena, a batalha será mortal. Fora da arena, Coriolanus começa a se apegar à já condenada garota tributo… E deverá pesar a necessidade de seguir as regras e o desejo de sobreviver custe o que custar.” (fonte)

Comentários: Para os fãs da trilogia Jogos Vorazes, Coriolanius Snow é o déspota presidente de Panem, uma nação distópica localizada onde hoje é a América do Norte, que condena anualmente duas crianças de cada um dos seus doze distritos a esse reality show onde elas devem se matar para que reste apenas um vencedor. Na 74ª edição dos Jogos uma heroína surgiu ameaçando sua soberania, mas e se voltarmos várias décadas no tempo, na 10ª edição… Quem era Coriolanius então? Aos 18 anos, ele já apresentava sinais de ser tão venenoso quanto sabemos ser capaz ou foi apenas corrompido pelo tempo? Como chegou na sua busca violenta ao poder apresentada em “A Esperança”? Em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, publicado dez anos depois do lançamento da saga no Brasil, Suzanne Collins traz muitas respostas e tantas outras perguntas através de um incrível romance prólogo!

Instrumento de cordas pequeno e marrom à esquerda da imagem, ao lado do livro resenhado. Ao fundo, uma camiseta preta com o símbolo da saga Jogos Vorazes, um pedaço de papel arco-íris em um canto e um marador de livro da saga Jogos Vorazes ao lado.

Apesar de me considerar fã da trilogia original e de ficar empolgada com o lançamento desse livro ano passado, eu não tinha nenhuma expectativa real para ele. A premissa já sabia: nessa história o jovem Snow é mentor do tributo feminino do Distrito 12, o mais miserável deles e casa da nossa Katniss Everdeen, sendo até foi mencionada superficialmente pela própria no primeiro livro. Não sabemos, porém, mais nada sobre Lucy Gray ou até mesmo sobre ele nesse momento da vida. É uma Panem diferente, com problemas diferentes, personagens diferentes e até mesmo um protagonista diferente do antagonista que ele foi depois. Ainda assim, sabendo do teor da trama, do título super curioso e até do fato de que a publicação é um calhamaço de mais de 500 páginas, me joguei nela com total neutralidade. Talvez por isso achei tão MARAVILHOSO, ou pelo simples fato de que é, mesmo.

“As pessoas tinham memória curta. Elas precisavam andar em volta dos destroços, pegar cupons de racionamento de alimentação e assistir aos Jogos Vorazes para que a guerra permanecesse viva na mente.”

A construção do Snow (que não consigo chamar pelo primeiro nome de jeito nenhum) é, pra mim, o ponto mais positivo de todos. Entre dois clichês que não gosto muito, o “ditador mirim” que sempre foi assim e o rapaz completamente inocente que é corrompido de supetão, o caminho escolhido foi um terceiro e ideal. Um adolescente já ambicioso, disposto a tudo para chegar onde quer e superar a decadência na qual sua família foi jogada, mas longe de um assassino frio e cruel. A essência está lá, em pensamentos eugenistas e sentimento de superioridade, mas existe, ainda, algum grau de humanidade dentro dele também, capaz de sentir carinho, empatia e até amor por algumas pessoas. Ele me soou real, como qualquer pessoa que conhecemos quando nova e encontramos anos depois, alguém que mudou com o tempo, mas tinha pedacinhos do que se tornou lá atrás.

Página inicial da primeira parte do livro, onde se lê 'Parte 1 - O Mentor', como elementor quadrados ao redor dando sensação de pixels. O Instrumento está levemente em cima do canto superior da página.

Outro aspecto maravilhoso, que já era uma característica dos outros livros (e destaquei no desafio sobre eles respondido muitos anos atrás) é o fato que a escrita da Suzanne é muito, muito, muuuuuuuuuito envolvente. Nesse ela criou uma versão ainda mais cruel dos Jogos, sem todo o glamour que passou a ter com o tempo, o que significa ver os tributos tratados com uma desumanidade tão grande que chega a dar enjoo, fora todo o cenário de guerra ainda recente em diversos elementos. Entretanto, mesmo nos momentos mais indigestos, é IMPOSSÍVEL conseguir parar de ler até acabar! Eu o peguei justamente por ser longo, estava sem saber o que ler e escolhi algo que achei que duraria mais tempo pra poder pensar no que engatar em seguida, mas em menos de dois dias já tinha acabado. Ela é genial, a gente até esquece de respirar, às vezes!

“Vocês não têm o direito de fazer pessoas passarem fome, de puni-las sem motivo. Não têm direito de tirar a vida e a liberdade delas. Essas são coisas com as quais todo mundo nasce e não são suas para serem tiradas assim. Vencer uma guerra não lhes dá esse direito.”

A história é dividida em três partes: O Mentor, O Prêmio e O Pacificador, narrados na terceiro pessoa do passado. É interessante porque os Jogos Vorazes são mostrados de fora pela primeira vez, já que o protagonista não está na arena, e ocupam o “meio” da história, de forma que o clímax não acontece ali dentro. Somos apresentados a novidades que essa edição tem em relação às anteriores, que nos levam ao formato que já conhecemos, e novas personagens muito bem trabalhadas, principalmente Sejanus Plinth, que traz mensagens maravilhosas e é uma voz de esperança em meio a tanto horror, e a própria Lucy, tão complexa e cheia de camadas que fica difícil ser lida do começo ao fim, ainda mais tendo a visão deturpada do Snow sobre tudo – e ela principalmente – para te enganar. A gente passa o livro tentando ver além do que ele vê.

Visão lateral do livro, com o instrumento ao fundo e o marcador em baixo.

No quesito “fan service”, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes também é um prato cheio. Logo de cara reencontramos uma coadjuvante super querida, que surpreende por ter uma proximidade familiar com o protagonista e explica muito do que demonstra sentir por ele anos depois, além de alguns nomes que soam como de antepassados de outros conhecidos. A jornada pela cultura do Distrito 12, então, é muito gostosa, relembrando as principais músicas que emocionam por terem sido importantes pra Katniss e surpreendendo ao entender definitivamente sua origem. Aliás, falando em Katniss, ela não ficou esquecida, não! Sessenta anos antes do seu nascimento nossa Garota Em Chamas é homenageada lindamente sem nenhuma forçação de barra. Realmente, um grande prólogo à altura do enredo principal, não vejo a hora de assistir ao filme também!

“Rosas são vermelhas, violetas, como o mar.
Os pássaros sabem que sempre vou te amar.
Sabem que vou te amar, ah, sempre vou te amar.
Os pássaros sabem que sempre vou te amar.”

Se eu tiver realmente que destacar um lado negativo, e novamente falando de forma muito pessoal, acho que eu queria um final um pouquinho mais fechado em alguns pontos. [INÍCIO DA ÁREA DE SPOILER] Entendo que uma não finalização da trajetória da Lucy Gray é pura poesia, faz apologia à música dela, mas continuo querendo saber o que aconteceu. Fora isso, o final é impecável, muito louco presenciar o primeiro envenenamento direto desse grande vilão sabendo que tantos outros estavam por vir. [/FIM DA ÁREA DE SPOILER] Tirando esse detalhezinho, não tenho do que reclamar. Mais uma vez você se engana em alguns pontos, quase acreditando ler uma história de amor (e quaaase torcendo por ela), mas no fundo está cara a cara com uma trama política complexa e aterrorizantemente próxima da nossa realidade.

Citação da música 'A Árvore Forca' presente no livro, com o marcador comemorativo dos 10 anos de Jogos Vorazes em baixo.

Suzanne Collins tem 58 anos e nasceu em Hartford, Estados Unidos. Depois de se formar em Teatro e Telecomunicações em Indiana, trabalhou como roteirista em programas infantis da Nickelodeon, até lançar “Jogos Vorazes” em 2008, seguido de “Em Chamas” em 2009 e “A Esperança” em 2010, que foram adaptados para o cinema entre 2012 e 2015 com jennifer Lawrence no papel de Katniss e Donald Sutherland interpretando Snow. Ela chegou a publicar outros livros não relacionados à saga nesse meio tempo, alguns deles disponíveis no Brasil, até retomar a esse universo tão premiado e aclamado agora, em 2020, em “A Cantigas dos Pássaros e das Serpentes”. É possível conhecer sua obra mais afundo no site oficial, suzannecollinsbooks.com (em inglês).

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7 mulheres do Pós-Impressionismo que precisamos conhecer!

7 mulheres do Pós-Impressionismo que você precisa conhecer: foto de Luly Lage sorrindo, vestindo uma camiseta preta, cercada de quatro obras criadas por mulheres pós-impressionistas, com o nome do movimento artístico escrito em baixo.

Quando pensamos em movimentos artísticos, normalmente vem em nossa mente conjuntos de obras que possuem características e meios de produção semelhantes, tentando se opor ao movimento anterior. Depois de uma quebra brusca nesse ciclo da história da arte ocidental através do Impressionismo, no fim do século XIX, artistas passaram a adotar cada vez mais posicionamento vanguardista, buscando estilo próprio condizente com suas necessidades ao se expressar. Com a última grande exposição impressionista em 1886, surgiu na França e espalhou-se pela Europa e outros países que a tinham como referência o Pós-Impressionismo, um conjunto de artistas que pintavam de formas diversas e ainda tinham pensamentos semelhantes ao movimento anterior, visando a quebra com a arte realista, romântica e clássica, sem limitar-se, porém, a retratar os efeitos da luz no momento que pretendiam retratar, passando até a usar contornos bem fortes e tornando-se cada vez mais mal vistos pela academia.

O contexto histórico no qual o pós-impressionismo estava inserido era o de uma sociedade bastante industrial. Um grande marco dessa época foi a Torre Eifell, que celebrava os 100 anos da Revolução Francesa em 1889 e consistia num monumento gigante feito de metal que demonstrava o quanto a estética preferida pelas pessoas vinha se transformando. Os principais artistas desse momento são Gaugin, Cézanne (dois grandes nomes do impressionismo) e Van Gogh, além do boêmio Henri de Toulouse-Lautrec, que com seus cartazes de cabarés foi um dos responsáveis pelo surgimento do design gráfico, dando à arte papel não apenas erudita e decorativo, mas também aplicado no cotidiano. Por mais que elas não estejam tão presentes em livros de história da arte quanto seus colegas, várias mulheres podem ser destacadas como fortes representantes do período, e eu selecionei 7 entre as mais notáveis para apresentar aqui hoje!

01) Suzanne Valadon:

Três obras de Suzanne Valadon, todas retratando figuras femininas em diferentes cenários, com sua foto em preto e branco abaixo seguida do nome e anos de nascimento (1865) e morte (1938).

Marie-Clémentine foi “rebatizada” como Suzanne Valadon por Toulouse-Lautrec, para quem modelou e com o qual viveu um romance. Foi modelo também de Renoir, inclusive em uma de suas principais obras, “Dança em Bougival”. Suzanne era filha de uma lavadeira em Montmartre, onde abandonou a escola para exercer vários trabalhos até juntar-se ao circo como acrobata. Lá conheceu artistas modernistas de grande nome na França, tornando-se modelo deles e, enfim, passando a desenhar e pintar observando-os fazendo o mesmo, recebendo muita influências do Simbolismo e do Pós-Impressionismo. Após casar-se em 1896, passou a viver como artista em tempo integral. Foi a primeira mulher na Sociedade Nacional de Belas Artes, sendo considerada uma grande transgressora e nome importante nos estudos de artes feministas. Morreu aos 72 anos e, como homenagem, teve seu nome dado a uma cratera no planeta Vênus, comumente ligado ao amor e à feminilidade.

Obras em destaque: Auto retrato (1898), O Quarto Azul (1923) e Nus (1919). Aprenda mais sobre a Suzanne!

02) Vanessa Bell:

exemplo de três obras de vanessa Bell, a primeira um retrato, a segunda uma pintura abstrata e o terceiro representando várias pessoas em tons sóbrios. Abaixo, sua foto (em preto e branco ) e nome, seguido dos anos 1879 e 1961, de nascimento e morte, respectivamente!

Irmã mais velha da escritora Virginia Woolf, Vanessa Bell sofreu, assim como ela, abusos dos meio-irmãos durante a juventude, que causou a fragilidade mental de Virginia e fez com que ela vendesse a casa onde viviam depois da morte dos pais, mudando para Bloombury, onde as duas fundaram, junto com seus maridos e outros amigos, o Grupo Bloomsbury de artistas e escritores que rejeitava os hábitos burgueses da sociedade vitoriana. Casou-se com Clive Bell, com quem tinha um relacionamento aberto, sendo o colega Duncan Grant seu principal namorado e companheiro de trabalho, com quem dividiu projetos notórios. Teve dois filhos com Clive e uma filha com Duncan, que foi criada pelo marido como se fosse dele. É responsável por alguns retratos mais conhecidos da irmã e do conjunto de cinquenta pratos intitulado “Serviço de Jantar das Mulheres Famosas”, onde ela e Duncan retrataram mulheres influentes em diversas áreas.

Obras em destaque: Auto-retrato (1915), Nu Com Papoulas (1916) e O Clube da Memória (1943). Aprenda mais sobre a Vanessa!

03) Anna Boch:

Trio de pinturas de tons suaves de Anna Boch, em tons pastéis que vão do sóbrio na primeira a cores frias na última). Sua foto está em tons de sépia e os anos correspondente ao nascimento e morte são 1848 e 1936.

Você já ouviu falar que Van Gogh vendeu apenas uma obra de arte em vida? “O Vinhedo Vermelho” foi comprado por Anna Boch, que era uma pintora e patrona de artes belga que migrava entre o impressionismo e pós-impressionismo, usando muito das técnicas de pontilhismo em suas obras. Mais do que suas pinturas, precisamos falar também do trabalho que fazia ao ajudar amigos modernistas da época, não só o mencionado anteriormente mas também Gaugin, para quem organizou um leilão beneficente. Anna abriu também uma casa onde artistas progressistas podiam produzir seus trabalhos e, em seu testamento, doou o dinheiro que tinha e o que foi arrecadado com a venda de seus quadros foi destinado à aposentadoria desses colegas, garantindo que não ficassem desamparados após não conseguir mais produzir. Seu desejo foi realizado quando morreu, aos 88 anos, mas teve algumas pinturas também doadas para museus.

Obras em destaque: Um Buquê de Cravos (cerca de 1910), Mulher lendo em um Aglomerado de Rododendros e Retorno da Missa Pelas Dunas. Aprenda mais sobre a Anna!

04) Emily Carr:

Obras de Emily Carr que possuem cores fortes e temas que vão da ícone indígena a um auto-retrato. Abaixo, sua foto em preto e branco é seguida do nome e dos anos de nascimento (1871) e morte (1945).

Nascida na costa do Pacífico canadense, Emily Carr é nome de diversas escolas e uma universidade de artes em seu país. Estudou nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas manteve como temática principal os povos indígenas do Canadá, pintado-os e escrevendo livros sobre eles no fim de sua vida. O principal deles, Klee Wyck (“a Risonha”), tinha como título o nome adotado que recebeu nas vilas de tribos com as quais convivia. Durante a década de 1920 conheceu o Grupo dos Sete, artistas modernistas canadenses de maior relevância que, apesar de não integra-la ao grupo, considerava como parte deles, chamando-a de “A Mãe das Artes Modernas”. Após três ataques do coração e um derrame, abandonou definitivamente a pintura para dedicar-se à escrita e morreu de um quarto ataque, aos 73 anos. No mesmo ano, ganhou um doutorado honorário da Universidade de British Columbia, sua província natal.

Obras em destaque: Guyasdoms D’Sonoqua (cerca de 1930), Acima do Gravel Pit (1937) e Auto-Retrato (entre 1938 e 1939). Aprenda mais sobre a Emily!

Leia também: 10 mulheres do Impressionismo que você precisa conhecer!

05) Gwen John:

Obras pertencentes ao pós-impressionismo de Gwen John, sendo elas uma freira, um gato e uma mulher carregando um gato, todas em tons leves. Abaixo, um auto retrato da artista com vestido de cor forte e os anos 1876 e 1939, quando nasceu e faleceu, em seguida ao seu nome.

Gwen John nasceu no País de Gales e se mudou para Londres em 1895, ao ingressar na Slade Schooll of Fine Arts, uma das poucas instituições de Belas Artes que aceitava mulheres no Reino Unido, junto com seu irmão Augustus, que teve direito de entrar antes dela, apesar de ser mais novo. Começou a expor oficialmente em 1900 e três anos depois foi para a França com sua amiga e modelo Dorelia McNeill. Lá, começou a modelar para Rodin, o principal artista francês da época, com quem teve um longo relacionamento. Bissexual, era conhecida por ser muito intensa em suas relações. Com o tempo, conseguiu um patrono que a permitiu viver apenas de suas pinturas. Apesar de conhecer muitos artistas influentes, era muito tímida, focando sua produção em temáticas católicas, tornando-se fervorosa na religião com o tempo. No fim da vida, viveu sozinha com seus gatos até morrer aos 63 anos.

Obras em destaque: Mère Poussepin (A Freira, 1915), Gato (entre 1904 e 1908) e Jovem Mulher Segurando Um Gato Preto (entre 1920 e 1925). Aprenda mais sobre a Gwen!

06) Nutzi Acontz

Representando o pós-impressionismo na Romênia, as obras exemplo de Nutzi Acontz t~em cores fortes e linhas bem definidas, representando duas paisagens nas extremidades da imagem e uma imagem de natureza morta no centro. Sua foto, abaixo, está em preto e branco, seguida do nome, ano de nascimento (1894) e de morte (1957).

Nutzi Acontz era romena, fruto de uma linhagem armênia da Moldávia, país da Europa oriental que faz fronteira com a Ucrânia e a Romênia, onde nasceu em novembro de 1891. Quando tinha por volta de vinte anos, estudou na Escola de Belas Artes de Iasi, trabalhando como professora de desenho em seguida à sua formatura. Só conseguiu se manter como artista, com suas pinturas, após se mudar para Bucareste, onde retratava paisagens e elementos da natureza com forte dualidade de estilos: em alguns momentos com linhas densas, bem definidas, e cores igualmente intensas; em outros de forma tão leve e sutil que as obras parecem quase não ter cores. Foi lá que faleceu, aos 63 anos, em 1957.

Obras em destaque: Rua Dojubran, Natureza Morta com Fruta e Café Mamute. Aprenda mais sobre a Nutzi!

07) Sylvia Pankhurst:

Exemplos de obras de Sylvia Pankhurst, sendo a primeira uma pintura retratando uma operária de fábrica, a segunda um broche do movimento Sufragista e a terceira um desenho de uma mulher com linhas leves). Na foto, abaixo, Sylvia aparece com o rosto apoiado nas mãos, em preto e branco, e ao lado dele está seu nome e os anos 1882 e 1960, de nascimento e morte respectivamente.

Um parágrafo só não é suficiente para definir Sylvia Pankhurst, que fica por último não por ser menos revelante, mas sim por ter tantas atividades que marcam sua história de forma mais forte que a arte que isso se torna só um adendo dela. Filha de Emmeline Pankhurst, uma das fundadoras do movimento sufragista britânico, Sylvia participou ativamente da causa da mãe, sendo responsável por cartazes pedindo o voto feminino, pinturas retratando as operárias de fábricas e o broche que era dado ás companheiras que eram presas, quando soltas. Em dado momento, rompeu com o grupo por ser contra os esforços da I Guerra Mundial, que elas apoiavam, criando sua própria organização e alinhando seu pensamento político cada vez mais à esquerda. Foi ativista política socialista e humanitária até o fim da vida, que aconteceu quando lutava pela libertação dos etíopes dominados pela Itália, na própria Etiópia.

Obras em destaque: Em Uma Fábrica de Algodão em Glasgow Cuidando de Um par de belas Armações (1907), Broche Holloway (após 1902) e Retrato de Uma Jovem Mulher (cerca de 1909). Aprenda mais sobre a Sylvia!

Quer conhecer mais sobre as mulheres do pós-impressionismo?

Esse post faz parte também do projeto Vênus em Arte, um canal no Youtube e podcast que traz visibilidade feminina na história da arte! A série sobre as mulheres do Pós-Impressionismo “terminou” no início desse ano, mas não definitivamente, já que continuará sendo alimentada sempre que possível ou pertinente. Para conhecer mais sobre o movimento e várias outras artistas que fizeram parte dele, inclusive de outros países, vocês podem acessar a playlist sobre o assunto por lá!

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Dia do Sim

Dia do Sim: cena do filme onde a família protagonista aparece andando lado a lado em meio a uma multidão, animados, num parque de diversões.

Dia do Sim (Yes Day) *****
Dia do Sim: poster do filme onde se l~e o nome dos atores principais no alto, foto da família celebrando segurando balões d'água nas mãos e título em baixo. Elenco: Jennifer Garner, Edgar Ramirez, Jenna Ortega, Julian Lerner, Everly Carganilla, Hayden Szeto, H.E.R.
Direção: Miguel Arteta
Gênero: Comédia
Duração: 89 min
Ano: 2021
Classificação: Livre
Sinopse: “Acostumados a sempre dizer NÃO em casa, Allison e Carlos decidem dizer SIM aos seus três filhos durante 24 horas – por um dia inteiro, são as crianças quem ditam as regras! Eles nunca imaginaram que terminariam envolvidos em um turbilhão de aventuras por Los Angeles, Estados Unidos, nem que a família estaria mais unida do que nunca.” Fonte: Filmow.

Comentários: Allison costumava ser a mulher mais divertida de todas, sempre disposta a dizer “Sim” para as oportunidades da vida, inclusive Carlos, com quem se casou após perceberem enorme compatibilidade nesse aspecto. Com o passar dos anos, porém, o “Casal Sim” percebe que para criar seus três filhos, Katie, Nando e Ellie, passariam a dizer muito mais “Nãos” do que imaginavam. Após se ver retratada como uma ditadora em trabalhos da escola das crianças, Allison decide resgatar um pouco da pessoa que era antes e, seguindo uma sugestão do treinador da escola, eles instituam dentro de casa o “Dia do Sim”, vinte e quatro horas onde as crianças estão no controle e os país precisam atender a todas suas demandas, com algumas regras básicas para não existir excessos. Caso falhem, ela precisa pagar uma promessa para a primogênita em relação a algo que é completamente contra.

Comédia familiar levinha, despretensiosa e com a maravilhosa Jennifer Garner no papel principal, o que mais a gente poderia querer, né? Dia do Sim estreou na Netflix dia 13 de março e, por causa de uma péssima experiência anterior com comédias originais da plataforma, fiquei me questionando se valia a pena encarar essa em nome da produção de conteúdo. Sendo sincera, foi a atriz, muito mais que o plot, que me fez “apertar o play”, mas a partir do momento que isso aconteceu achei a narrativa tão gostosa, o humor tão inocente e a família tão carismática que foi fácil demais chegar ao fim com algumas risadas no pacote, lagriminhas penduradas nos olhos e, principalmente, sensação de que tinha conseguido desanuviar a cabeça com um entretenimento bobo, sim, mas exatamente o que a gente precisa de vez em quando em meio ao caos.

Dia do Sim: foto da família protagonita do filme, onde a mãe e os filhos mais novos se encontram em pé em cima da cama do casal, olhando para o pai que está ajoelhado no chão, com a filha mais velha em pé ao seu lado observando a cena.
Dia do Sim: Imagem via Hello Magazine

É claro que, como toda, comédia, existe o exagero forçado aqui e ali, mas no fim das contas, à medida que o dia onde se passa a história ia se desenvolvendo, senti que tanto as atitudes dos adultos quanto as das crianças foram extremamente pertinentes em relação à realidade. O filme aborda, em alguns pontos, questões super enraizadas da nossa sociedade, como o pai que tenta inconscientemente compensar suas frustrações no trabalho na criação dos filhos, a mãe que abriu mão da vida profissional para se dedicar à família, se tornando a imagem de autoridade na casa que leva toda a fama de malvada e como isso, na verdade, é tão comum no dia a dia que passa despercebido, mas que pode ser trabalhado para evitar que seja um problema. Apesar de acha-la dura em alguns momentos bem pontuais, entendi o lado da Allison em toda a trama.

Leia também: Na tag Netflix é possível ler todas as resenhas aqui do blog sobre produções originais do serviço de streaming!

Claro, a atriz é bem conhecida e interpreta a personagem central da história, mas o elenco é todo bacana, ela não precisa segurar as pontas sozinha, de forma alguma. O Carlos de Edgar Ramirez é uma pessoa bem real, com falhas e acertos que precisam ser repensados e enaltecidos, respectivamente. As crianças também são ótimas e os cinco, juntos, soam de forma bem gostosa como uma família comum. É um pouquinho mais difícil entender o lado da adolescente, que tem dilemas tão específicos da idade que acabam se tornando “chatos” na nossa cabeça que já esqueceu como as coisas funcionam? Sim. Mas faz parte da realidade dela, mesmo, e medindo todos os pontos de vista da narrativa até aquele com o qual a gente mais se identificou teve algo a aprender no “final feliz” de contos de fada da vida real que esse gênero sempre carrega!

Trailer:

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Exposição Yara Tupynambá – 70 Anos de Carreira

Exposição Yara Tupynambá - 70 Anos de Carreira: foto de Luly Lage, uma mulher de pele clara e cabelos pintados de rosa com a raiz escura, usando óculos de grau e máscara protetora, em frente a um quadro da artista de temática botânica, com folhas verdes, galhos finos de árvores e fundo azul.

Eu realmente considero um privilégio viver na mesma época que Yara Tupynambá, por diversos motivos. A importância dela na história da arte brasileira, em especial na arte mineira, é medida não só pela produção de obras em diversos suportes, mas também formação de outros artistas, uma vez que foi professora em importantes cursos de nível superior em Artes Visuais. Quando fiquei sabendo da exposição Yara Tupynambá – 70 Anos de Carreira, que chegou ao CCBB BH no dia 24 de fevereiro, peguei ingresso para o primeiro horário do primeiro dia, precisava conferir e produzir conteúdo sobre. Foi a única vez que fui a uma instituição cultural durante a pandemia e não me arrependo: são 74 obras, entre quadros, gravuras e painéis, representando flora e cultura de Minas Gerais, celebrando não só a vida e o trabalho dela, mas também do lugar onde nasceu e ainda vive.

Veja pedacinhos dessa exposição também no vídeo publicado no Instagram Reels!

Eu tenho uma relação muito pessoal e afetiva com a Yara, vai além da admiração como artista. Em 2012, quando eu fazia meu TCC, onde restaurarei uma gravura do Padre Viegas (provavelmente a primeira gravação feita no Brasil!), descobri que ela tinha feito a reimpressão que estava restaurando quando era professora da EBA UFMG enquanto pesquisava a história da obra. Mandei então alguns e-mails até, enfim, chegar no endereço pessoal dela, que me respondeu muito solícita sobre o trabalho e me ajudou a detectar muitas das causas de degradação que tinham levado a essa necessidade da restauração. Quando terminei, ela foi adicionada aos meus agradecimentos porque foi super importante no processo e me tornei bem fã. Com razão, né? Pra quem tem interesse nesse tipo de trabalho, ou mesmo curiosidade, o arquivo em PDF do TCC completo está disponível no meu perfil do Academia.

Sala 01:

Essa exposição está dividida em quatro salas, sendo as três primeiras no térreo do prédio, logo à direita da entrada principal. A sala de abertura já apresenta, de cara, um dos painéis da artista, obra de grande porte e cores fortes, entre verde, marrom e pitadas de pontos claros nos detalhes. Essas cores estão presentes em todo esse ambiente inicial, retratando matas, árvores e águas das margens do Rio Doce. É um conjunto bem uniforme, parece uma grande série de quadros, mas suas datas variam muito entre os últimos dez anos, mais ou menos, então a produção em si parece ter sido relativamente espaçada. Confesso que, de todas, foi a que “menos amei” (porque amei tudo, na verdade), mas causa um primeiro impacto muito belo, de verdade.

Psiu! Pres’tenção! Todos os exemplos de pinturas mostrados nesse post possuem a mesma técnica e suporte: acrílica sobre tela. Os anos de criação, porém, são variados e foram descritos nas legendas das imagens, ao lado dos títulos.

Quadro de Yara Tupynambá em primeiro plano, com painel da artista quase inteiramente visto ao fundo, ambos retratando matas com árvores finas de madeira clara e muito verde em volta.
Árvores Brancas (2012) e Floresta do Vale do Rio Doce (2014).
Três quadros da artista, um dois primeiro plano com lagoas em destaque na paisagem e outro ao fundo, bem semelhante à foto anterior.
Lagoa com Nenúfares (2019), Lagoa do Rio Doce (2017) e Floresta do Vale do Rio Doce (2017).

Sala 02:

A sala seguinte tem cores suaves retratando ambientes abertos que passam a ideia de serem mais leves. Acho que, de todas, foi a minha favorita! Achei interessante porque nem todas elas são cenários em si, algumas tinham flores e outros tipos de plantas meio “jogados” formando a composição, e ainda assim passam a mensagem de retratar algo real e visível. O grande destaque dessas representações é a Serra do Cipó, um destino turístico natural localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte conhecido por suas cachoeiras, que estão presentes lado a lado da vegetação também característica. Ao contrário do espaço anterior, e assim como os seguintes, elas são diferentes entre si, mas é possível detectar alguns conjuntos que representam pequenas unidades particulares, a expografia arrasou em organizar a disposição para que isso ficasse muito perceptível ao público visitante.

Quadro retratando árvores de galhos secos em meio a pedras claroas e algumas flores secas caídas ao redor.
Velócias Gigante (2013).
Dois quadros de yara Tupynambá d emédio porte, o primeiro, ao fundo, com cenário da flora  em tons verdes e vivos à margem de uma cachoeira com uma faixa no centro mostrando o que parece ser o mesmo local em período de seca; e o segundo retratando três flores em ambiente fechado com fundo escuro.
Perto da Cachoeira (2015) e Três Flores na Serra do Cipó (2004).
Quadros em fundo de cor clara retratando diversos tipos de flores coloridas espalhadas na tela.
Flores na Serra do Cipó III (2011) e Flores na Serra do Cipó (2011).

Sala 03:

O último cômodo do andar térreo também retrata pontos relevantes de Belo Horizonte e região, como parque municipais e o Inhotim, museu de arte contemporânea em Brumadinho que tem paisagismo assinado por Burle Marx. Em um meio termo do que foi visto anteriormente, os quadros têm tons e características semelhantes, mas não retratam uma unidade propriamente dita. Como moradora da capital mineira foi o lugar onde mais me senti em casa, por mais que eu já tenha estado nos cenários anteriores esses são os mais próximos, onde estive várias vezes. Isso me mostra muito a força de vistar mostras e exposições que trazem paisagens locais, valorizando realmente o nosso lar e o fazer artístico dele, mesmo. Muito incrível poder ver isso, seja presencial ou virtual, que é o mais acessível nesse momento.

Quadros retratando cenários variados, sendo o primeiro um conjunto de árvores de galhos finos e folhas escuras, o seguno uma planta imponente nascendo em frente a um muro antigo de azulejos e o terceiro uma lagos em um parque, com vegetação ao seu redor e barcos estacionados à beira da água.
Árvores à Luz do Dia (2018), A Velha Parede Esquecida (2018) e Parcos no Parque (2020).
Duas pinturas com cores semelhantes (verde em diversos tons, terrosas e vermelho), a primeira retratando um cenário vegetal urbano onde á uma lagoa com barco, pessoas caminhando ao fundo e um possível coreto de praça; e o segundo em local parecido, com uma menina vestindo vestindo roupa de cor quente em destaque na frente segurando dois balões coloridos.
Árvores e Barcos (2017) e A Menina dos Balões (2017).

Sala 04:

A última sala fica localizada no 2º andar do CCBB, contendo obras da coleção particular da artista que o público não tem acesso. Ali contém desde homenagens a Monet, ao pintar seus jardins na França há mais de trinta anos, à vista da sua janela durante a pandemia, com trabalhos de 2020 e até 2021! Em entrevistas ela já disse que sua rotina em isolamento social não mudou muito, passa basicamente o tempo todo no ateliê produzindo, e aí está o resultado dessa produção, que ocupa 70 anos dos (quase) 90 que tem de vida a serem completados ano que vem. Escondidinho, num dos cantos de obras voltadas pra parede, existe um quarteto que não são pinturas e tenho a impressão que eram desenhos, mas agora não tenho certeza e já peço desculpas por essa gafe. O importante é que é belíssimo, como todo o resto.

Três quadros, dois em destaque em cores claras retratando flores brancas e roxas variadas e um ao fundo, entre eles, que tem como imagem principal uma casa cercada de diversos tipos de plantas, árvores e flores, ao seu redor.
O Jardim Secreto I (2015), A Casa de Monet (1989) e Íris e Spatifilus do Jardim (2020).
Quatro obras da sala da coleção particular de Yara Tupynambá em ângulos onde não é possível ver muitos detalhes, todas com temática principal de flores e folhas, e uma em destaque, retratando a casa (descrita na foto anterior).
Spatifilus no Fim da Tarde (2010), Strelitzia no Jardim (2020), A Casa de Monet (1898) e A Janela do Atelier (2021).
Quadro com moldura em primeiro plano, com um grande vaso onde estão folhas e flores e um menor na frente, que parece conter frutas redondas. Ao fundo, um quadro em cores complementares aparece pela metade, retratando várias folhas coloridas em fundo verde.
Vaso de Flores em Pote Chinês (2000) e Sol Poente e Folhas Vermelhas (2020).

Leia também: Abraham Palatnik – A Reinvenção da Pintura, sobre a mostra que também está aberta no CCBB BH.

Sobre a artista:

Yara Tupynambá nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 2 de abril de 1932. É artista plástica, tendo estudado com o próprio Guignard, e atuou como professora e diretora da Escola de Belas Artes (EBA) da UFMG e professora da Escola Guignard da UEMG. Ao longo de sua vida profissional, participou de diversas Bienais e Salões de Arte Moderna, ganhou prêmios de vários tipos de materiais do seu trabalho multiartístico, uma vez que é não somente pintora mas também muralista, gravadora e desenhista. Em 1987, criou o Instituto Yara Tupynambá, ainda na ativa, promovendo atividades de incentivo cultural, incluindo a conservação-restauração de bens, e de educação artística e em outras áreas, como gastronomia, moda, turismo e meio ambiente. Vocês podem segui-la no Instagram nos perfis @yaratupynambaoficial e @instituto.yaratupynamba.

Dados gerais e vídeo:

Yara Tupynambá – 70 Anos de Carreira está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, supostamente, até 20 de maio de 2021. O CCBB, porém, se encontra fechado como medida de proteção ao COVID-19, sem previsão de reabertura, conforme definido pela Prefeitura de BH. Enquanto estava aberto, a bilheteria da instituição não estava funcionando e os ingressos gratuitos eram retirados pela internet, com obrigatoriedade do uso de máscara de proteção dentro das dependências, medição de temperatura na entrada, distância entre visitantes determinada por sinalização presente no chão e dispensadores de álcool em gel em todos os andares do prédio. É possível fazer o tour virtual pela exposição no site do Instituto Yara Tupynambá em yaratupynamba.org.br/ccbb (e tem uma prévia dele lá nos Reels do meu Instagram!).

Esse post faz parte também do projeto Vênus em Arte, um canal no Youtube e podcast que traz visibilidade feminina na história da arte! Sempre que pertinente, falo sobre as mulheres de exposições que frequento por lá, além do conteúdo principal ensinando sobre movimentos artísticos através das artistas que faziam parte deles. Abaixo, um vídeo falando sobre a experiência com pequenas tomadas dentro das galerias.

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Inferno Astral – Vitor diCastro

Inferno Astral: foto do livro sobre papéis de cores variadas de estampas diferentes (estrelas, corações e listras). Embaixo dele, ainda sobre o papel, há um conjunto de flags para marcar livros de várias cores e um ímã de geladeira com uma ilustração remetente ao signo de Câncer, onda a menina tem as pontas das tranças em forma de pinças de caranguejo e qualidades do signo escritas ao seu redor.

Inferno Astral – Os signos estão de deboche comigo! *****
Inferno Astral: capa do livro que tem a bandeira do orgulho LGBTQIA+ no topo com o nome do autor, um círculo no centro com o título, o símbolo dos 12 signos e uma ilustração do casal protagonista, e chamas em baixo com os três animais de estimação dos mesmos acima da logo da editora. Autor: Vitor diCastro
Gênero: Romance
Ano: 2020
Número de páginas: 224p.
Editora: Outro Planeta
ISBN: 9786555351576
Sinopse: “Lucas é ariano. Bom, isso já diz muita coisa, né? Mas vamos lá, um pouco mais de informação. Lucas é apresentador de um programa de TV de muito sucesso. Nele, recebe convidados e adora falar de assuntos polêmicos. O público enlouquece quando ele começa a debochar dos entrevistados (que nem sempre ficam muito felizes com isso…). Em um dos programas, Lucas resolve debochar de uma astróloga, Dandara. Acontece que ela não é uma astróloga comum e, como punição, joga uma maldição no apresentador: pelos próximos doze dias, daquele até o dia do aniversário de Lucas, ele despertará com as piores características de cada um dos signos. Se não conseguir se tornar uma pessoa empática até lá, o ciclo da maldição se repetirá para sempre. Como se não bastasse, Lucas é um cara superconsumista e agora tem uma dívida milionária pra pagar a um agiota misterioso. O prazo máximo para o pagamento, adivinhem: dali a doze dias.” (fonte)

Comentários: Lucas é uma pessoa absolutamente intragável. Apresentador do programa de televisão Dazonze, ele trata seus convidados diários de maneira pior ainda que as pessoas próximas com quem convive diariamente, se é que isso é possível, e sequer coloca culpa no seu temido signo, Áries, uma vez que não acredita “nessa coisa” de signos. Durante seu inferno astral, faltando 12 dias para completar 30 anos e com um agiota anônimo na sua cola o ameaçando caso não pague sua dívida milionária após um empréstimo muito mal planejado, ele recebe a astróloga Dandara para uma entrevista, lidando com ela com o deboche e descaso de sempre. Ela, porém, não deixa a situação por isso mesmo e, com um peteleco em seu piercing no nariz, o amaldiçoa a passar os próximos dias sentindo na pele os 12 signos do zodíaco, como uma punição por sua extrema falta de empatia.

Inferno Astral: foto do livro sobre papéis de cores variadas de estampas diferentes (estrelas, corações e listras). Embaixo dele, ainda sobre o papel, há um conjunto de flags para marcar livros de várias cores e um ímã de geladeira com uma ilustração remetente ao signo de Câncer, onda a menina tem as pontas das tranças em forma de pinças de caranguejo e qualidades do signo escritas ao seu redor.

“Só queria te dizer que, se vocês não acreditam em signos, é melhor fechar esse livro agora mesmo. Eu não acreditava também, até que tive que viver na pele cada um dos doze signos, aí vi que eles são bem reais.”

Inferno Astral é o primeiro livro do YouTuber Vitor diCastro, do canal Deboche Astral que conta, hoje, com mais de um 1,5 milhões de inscritos, além de outros trabalhos para veículos na internet e canais de televisão. Eu gosto bastante do conteúdo dele porque sinto que é um jeito divertido de rir de si mesmo, sempre me identifico, mas não considero a maioria dos vídeos como sendo sobre ASTROLOGIA, que é uma forma de crença e autoconhecimento, e sim sobre SIGNOS, lidando os com estereótipos de cada um. São coisas diferentes, e tudo bem! O livro tem essa mesma vibe, você escuta a voz dele o tempo todo enquanto lê como se estivesse assistindo, a história é interessante para quem gosta do assunto ou não, mas teve execução realmente falha…Se fosse uma publicação independente eu poderia relevar, mas tendo uma equipe de edição por trás é impossível desconsiderar.

Inferno Astral: livro aberto na capa do capítulo 6, do Signo de Câncer, onde as páginas são pretas e a impressão branca, com a constelação do signo em baixo do título. Ao fundo, papéis coloridos e estampas variadas e, na frente, um ímã de geladeira do signo com uma ilustração de menina e características positivas do mesmo escritas ao seu redor.

Como pontos positivos temos a história, um jeito criativo de falar dos estereótipos de cada signo, com momentos engraçados e sem essa coisa de “signo bom ou ruim”. Fiquei meio pé atrás porque o autor é muito abertamente averso aos signos de Capricórnio e Aquário (que, coincidentemente, são meu Ascendente e Lua!), mas essa antipatia não está na narrativa, muito pelo contrário, os únicos momentos da história em que consegui gostar do Lucas foi quando estava “encarnado” neles. Ele em si é muito mala, mesmo, mas não considero isso um defeito porque é o objetivo: vê-lo melhorar pelo menos um pouquinho, com uma carga de defeitos que faz com que a gente ame odiá-lo. Além disso, traz muita representatividade em praticamente todas as personagens de maneira super natural, levantando questões pessoais de fazer parte de uma minoria mas sem tornar aquilo a única característica das pessoas em questão.

“Isso de se colocar no lugar do outro me fez pensar que eu passei tempo demais querendo ser o centro de tudo, sabe? Talvez agora eu queira focar em coisas mais importantes que ter roupas de marca e festas de arromba, entende?”

A linguagem é leve, claramente voltada para o público jovem LGBTQIA+, o que é incrível, mas na maior parte do tempo pesa tanto nesse uso de memes que fica cansativo, deixa de ser nossa forma natural de usa-los e se transforma num tsunami, a todo momento, às vezes mais de um na mesma sentença… Perdeu a graça rapidinho, passei vários capítulos sem conseguir rir e só melhorou nos que citei acima, justamente por serem signos mais “sérios” onde ficou mais espaçado. A parte do “suspense” também não se sustenta, o vilão misterioso fica bem claro desde a metade da história e o clímax, onde os “mocinhos” vão enfrenta-lo, é bem sem noção e forçado. Além disso, percebi em alguns erros, como uma personagem que está na cena e some, chega mas não consta na lista de quem “vai embora”. Até reli essa parte pra garantir que não me enganei.

Inferno Astral: capa traseira, com foto do autor usando um casaco da bandeira do orgulho LGBTQIA+ em fundo listrado, com pequena sinopse abaixo. Os outros elementos decorativos e fundo das fotos anteriores se repetem ao redor do livro.

Mas o pior de tudo pra mim, de verdade, foi o fato de que o ANIVERSÁRIO DO PROTAGONISTA NÃO É DENTRO DO SOL EM ÁRIES! O signo dele está errado! Cheguei a fazer uma simulação de mapa astral de dezessete de março levando em consideração alguns anos diferentes ao redor de 1990, trinta anos antes do livro ser publicado, usando o meio dia como horário de referência, mas realmente, em todos o Sol consta em Peixes. Não entendo como isso foi possível em um livro sobre o assunto, sinceramente. O projeto gráfico é todo belíssimo, a é capa alegre e divertida como uma comédia pede, o início de cada capítulo tem pegada mística com as constelações e fundo preto, além dos símbolos de cada signo nos intervalos da narrativa, que adoro, mas não sei se compensa os tropeços…

Vitor diCastro tem 31 anos e mora em São Paulo/SP. Se tornou popular na internet principalmente ao abordar temas relacionados a homofobia nos perfis do Quebrando o Tabu, onde enfim se mostra confortável com sua sexualidade após ter passado até por sessões na psicóloga na infância em uma tentativa de ser “mais menino”. Ele pode ser encontrado não só no canal e perfil do Instagram do Deboche Astral, mas também seus perfis pessoais @vitordicastro no Instagram e Twitter. Como um bom representante do Sol em Câncer fica muito claro o uso de inspiração de sua própria vida no núcleo familiar do protagonista de Inferno Astral, o que ajuda bastante a quem o acompanha a ter empatia pelo mesmo até quando está no seu pior (e fez derreter meu coração igualmente canceriano)!

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