Lady Elowen – Ato II

Lady Elowen – Ato II

Ato II: A estrada que responde perguntas

Na manhã em que deixou a Vila dos Pequenos para trás, Lady Elowen descobriu duas verdades importantes. A primeira era que uma mochila cheia de brigadeiros pesava muito mais do que parecia, infelizmente. A segunda, era que mapas eram extraordinariamente mais objetivos do que cartas de tarô.

— A culpa não é de vocês! — Suspirou, olhando para o baralho enquanto caminhava. — Vocês trabalham com intuição, eu é que preciso de uns endereços mais certeiros, dessa vez!

Guardou as cartas de volta na bolsinha de couro presa ao cinto e continuou pela antiga estrada de pedras claras que atravessava o Bosque de Sorveira. Era a primeira vez que saía da vila sozinha. Ela já visitara povoados vizinhos acompanhando amigos ou levando encomendas de brigadeiros, mas nunca fez isso sem alguém ao seu lado para decidir quando parar, qual caminho seguir ou se aquele cogumelo vermelho era bonito ou perigosamente venenoso.

A sensação era assustadora, mas agradável.

O bosque era ainda maior do que ela imaginava. A luz da manhã atravessava as copas das árvores formando desenhos dourados sobre o caminho, enquanto pequenos passarinhos saltitavam entre os galhos como se discutissem assuntos de extrema importância. Ela sorriu para eles, cobrindo parcialmente os olhos para a luminosidade não a incomodasse.

— Bom dia para vocês também!

Um deles respondeu com um piado particularmente irritado.

— Tudo bem, tudo bem, me desculpa! Não vou me intrometer…

Pouco antes do meio-dia, ela decidiu fazer sua primeira consulta da viagem. Encontrou uma pedra larga e lisa à sombra de um carvalho, estendeu um pequeno pano bordado e embaralhou cuidadosamente as cartas. Respirou fundo, mentalizando qual seria o melhor caminho, e virou três. A Ponte, a Lanterna e o Caminhante. Ela observou as ilustrações por alguns segundos e sorriu. Era muito óbvio! Recolheu tudo rapidamente e seguiu decidida para o caminho da esquerda por quase uma hora, encontrando flores, um riacho, três esquilos marrons muito simpáticos e um coelho apressadinho. Tinha grama para todos os lados, e até um pouquinho de musgo, mas nenhuma ponte.

Ela olhou ao redor em busca de uma superfície para abrir mais uma carta. Colocou toda sua energia e concentração no momento até que, enfim, a virou. A Ponte!

Cruzou os braços.

— Muito engraçado!

Era muito cedo para avistar as estrelas, então só o que restava a fazer era se colocar a pensar em cima de um troco caído. Foi nesse momento que ouviu vozes, que por sinal atrapalhavam bastante o processo. Prestou atenção e percebeu se tratar de um casal de viajantes discutia baixinho diante de uma bifurcação pela qual ela ainda não havia passado: ele queria ir à direita, ela tinha certeza que o certo seria a esquerda. Estavam perdidos.

Lady Elowen se aproximou bem lentamente.

— Com licença…

Os dois se viraram, olhando intrigados. Cada um segurava um mapa.

— Posso tentar?

Os dois viajantes se entreolharam. Não eram Pequenos, então deviam estar surpresos que uma criaturinha tão reduzida pudesse acreditar ter capacidade de solucionar algo que eles não conseguiriam. Sua ousadia, porém, era tamanha que eles aceitaram.

Ela estendeu as mãozinhas e recebeu os mapas. Em poucos minutos, descobriu que cada um carregava, na verdade, metade de um mapa, e separadamente nenhum fazia sentido. Colocou-os então lado a lado, onde formaram um caminho completo. Lady Elowen riu sozinha, deixando os viajantes ainda mais surpresos.

— A Ponte! Não é uma construção, é uma ligação! Preciso aprender a fazer as perguntas certas, não é mesmo?

O casal concordou, sem fazer ideia do que ela estava falando.


Como agradecimento por ter solucionado seu problema tão simples, e também porque estavam muito intrigados com a presença dela, os viajantes insistiram para que almoçassem juntos. Tinham levado bastante comida, que Lady Elowen aceitou de bom grado retirando cuidadosamente de sua mochila um pano xadrez, pão de mel e uma pequena caixa de brigadeiros.

— Vocês realmente viajam com sobremesa? — perguntou o homem.

Ela arregalou os olhos.

— Ai, minha nossa, vocês não? Por isso estão tão perdidos!

Enquanto o chá de camomila aquecia no pequeno bule esmaltado, a conversa foi ficando leve. O casal já não discutia mais, nem lembravam se suas divergências, estavam dando gostosas risadas das histórias que a Pequena contava que tinha ouvido das estrelas. No fim da digestão, agora olhando para o mapa juntos, perceberam que sabiam para onde seguir.

Lady Elowen fechou a tampa do bule muito satisfeita consigo mesma. Sua magia estava nas estrelas, nas cartas, nos brigadeiros e, ela acabara de descobrir, nas pausas. Se despediu de seus novos amigos sem nem saber seus nomes, pois a troca já tinha sido suficiente. Ajeitou o laço, que tinha ficado um pouco torto quando ela se recostou em um tronco durante a conversa, e seguiu bosque adentro. O mapa do casal, ao ter suas duas metades unidas, mostrou não só a eles por onde seguir, mas também a ela. O caminho dos dois guiava direto para a luz, mas o dela? Ah, esse parecia um tanto mais… Denso!

À medida que avançava bosque adentro, começou a perceber estranhezas no solo. Em diversos momentos, viu conjuntos de cinco círculos, um maior coroado por quatro menores, em diversos pontos do caminho. Se Lady Elowen soubesse como era a pegada de um animal bem grande, saberia exatamente que era disso que se tratava, mas ela não sabia, então estava muito encucada. As marcas eram curiosas, leves e, como isso era possível(?), elegantes. Ela abaixou para observá-las melhor.

— Hum…

Antes que pudesse concluir qualquer coisa, um vento espalhou folhas, bagunçando seus cabelos e seus pensamentos. Para não cair, ela firmou as duas perninhas no chão, mas o vento era forte demais e foi aí que uma tragédia aconteceu: a astróloga caiu, com as mãos sobre uma região levemente úmida, e ao tentar se levantar, pegando impulso com as pernas, encaixou o pé na terra de maneira errada, e um dos seus sapatos se enganchou, saindo completamente e, quando ela tentou pegá-lo usando o próprio pé, saiu rolando em direção a um riacho que ela nem tinha reparado que estava ali em baixo.

Ela ficou completamente imóvel, em choque, observando como se estivesse em câmera lenta seu precioso e amado sapatinho girando sobre a correnteza de ritmo estranho. Teria sido fácil recuperar em um primeiro momento se ela não tivesse ficado paralisada pelo horror que aquilo significava!

Quando ele desapareceu atrás de uma pedra que o bloqueou de sua visão, ela despertou do estupor.

— Não!

Quem ouvisse o grito, se é que tinha alguém ali para ouvir, poderia achar que alguém tinha morrido, se zangaria ao perceber que tinha tanto desespero por trás de um calçado. Mas os Pequenos entendiam o sentimento. Ela saiu correndo pela margem, desesperada, mas não havia nada atrás da pedra, nem debaixo dos galhos ao seu redor, nem em nenhum lugar onde conseguia ver. O caminho a ser seguido foi abandonado, ela só conseguia pensar no seu precioso pé de sapato. Sentou-se à margem e sentiu as grossas lágrimas teimando em sair de seus olhos em direção às bochechas rosadas. Tentou enxugá-las, falando sozinha.

— Tudo bem, tudo bem, é só um sapato! Não é importante, Eu ainda tenho o outro pé! É só um sapato de solado grosso, resistente, ah, quem estou tentando enganar? Meu querido sapato!

E se pôs a chorar ainda mais.

Demorou um pouco para conseguir se recompor e, na força do desespero, continuou a procura por vários minutos, deixando a mochila no chão, pois com menos peso em si acreditava que podia funciona melhor. Ainda assim, nada. Parecia não ter mais jeito.

Quando finalmente desistiu, caminhou de volta mancando, graças à diferença do pé calçado para o que estava protegido apenas por uma meia imunda, para recolher a mochila, com medo de nem vê-la mais ali. Já tinha acontecido tanta coisa ruim, afinal (uma só!), era de se esperar que só piorasse. O que viu, porém, quando enfim voltou ao local onde suas lágrimas ainda inundavam o chão (menos, Lady Elowen) a deixou ainda mais chocada.

A mochila estava exatamente onde deixou, e o pé do sapato se encontrava o seu lado, completamente seco, como se alguém o tivesse colocado ali.

— Tem alguém aí?

Mas nem ao menos o vento a respondeu, só o silêncio. Ela agradeceu mentalmente quem quer que tivesse sido, tentou limpar o máximo possível da meia antes de, ai, colocá-la de volta dentro do seu sapato de solado grosso precioso, e agradeceu mentalmente, quem quer que seja que tenha a ajudado dessa forma.

A essa altura, percebeu que o sol tinha baixado bastante, e que era hora para procurar um lugar para acampar.

Ela nunca tinha acampado em todo sua vida, e jurou que jamais o faria. Pelo visto, a vontade de se provar algo que ela nem lembrava mais o que ia mudar isso. Encontrou um clareira que parecia perfeita para isso, ou pelo menos ela imaginava que sim, e estendeu o cobertor que tinha levado de forma que ele cobrisse o chão, mas também sobrasse uma ponta para cobri-la. olhou para um dos vestidos que tinha levado e percebeu que teria que usa-lo como travesseiro, já que não tinha lembrado que precisaria de um. Tirou os sapatos, colocando em um lugar seguro, e tirou as meias, não conseguia mais lidar com o fato de estar um pé tão sujo! Enfim, acendeu uma fogueira e começou a preparar mais chá.

Enquanto a água fervia, não conseguia se livrar da sensação de que estava sendo observada. Acrescentou as folhas e, já que tinha que esperar descansar antes de beber, fez o que mais queria ao longo de todo aquele longuíssimo dia: consultou o céu!

As estrelas estavam especialmente brilhantes e ela anotou suas posições, fazendo pequenos desenhos. Antes de terminar, virou três cartas (O Caminho, A Lua, A Companheira), piscou para elas e tirou uma quarta (O Silêncio). Olhou da tiragem para os desenhos em seu caderno, e cada vez fazia menos sentido.

Pegou dois brigadeiros, mas guardou o segundo, porque ficou com medo de fazer falta depois. Ouviu uma coruja piando ao longe e, como se seu som fosse mágico, sentiu as pálpebras ficando cada vez mais pesadas. A fogueira já queimava baixinho, então ela fechou o caderno e se deitou no casulo improvisado.

O bosque era mais barulhento à noite do que de dia, muito mais do que ela imaginava. É como se todo ele respirasse profundamente, o vento chiando ditando o ritmo, o cheiro de terra molhada trincando como se fosse palpável, e um som.

Ela tirou cuidadosamente os óculos e os guardou ao lado do travesseiro improvisado, atenta. Seus olhos amarelados se adaptavam à escuridão que começava a tomar conta do seu entorno, mas ela não via nada e nem ninguém ali além das folhas. Ainda assim, o som parecia estar bem ao seu lado.

Deitou-se e fechou bem os olhos, cansada, respirando fundo. Ao abri-los novamente, uma coisa estrava aconteceu: viu seu olhar refletido ao longe, no que parecia ser um arbusto escuro. Era impossível não perceber, o par de olhos amarelos olhava para ela, e então piscou dias vezes, afinal, ela também tinha piscado! De repente, o reflexo sumiu, mesmo que ela os mantivesse bem abertos. Tentou localizar o arbusto, mas estava escuro demais.

Tinha sido um dia muito esquisito, então concluiu que estava imaginando coisas. A falta de açúcar no sangue fazia essas coisas, mesmo! Decidiu fechar os olhos, dessa vez os de verdade, também, porque sabia que o dia seguinte seria muito cheio. As estrelas e as cartas tinham previsto um grande encontro para aquela data, e por mais que não se parecesse nada com o que ela imaginou quando optou por essa jornada, estava deveras curiosa para vivê-lo.

Selo do BEDA EntreBlogs 2026. O ícone apresenta uma pasta marrom e uma pena de escrita sobre um círculo bege com borda verde-oliva. Esse post faz parte do BEDA 2026 como integrante do projeto D&B – Os Guardiões da Blogosfera no EntreBlogs. O lulylage.com, sob o codinome Lady Elowen, está participando da categoria Jornada do Herói como Cronista.
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  • Ane

    Primeiramente, preciso dizer que eu achei muito fofa essa ilustração!
    Agora, falando sobre o texto… ele definitivamente deixou a gente com aquele gostinho de “quero mais”! Adorei acompanhar um pouquinho da jornada da Lady Elowen. A narrativa é divertida, acolhedora e conseguiu despertar minha curiosidade para saber mais sobre esse universo.

    Não conhecia o projeto D&B – Os Guardiões da Blogosfera, mas achei incrível a proposta! =)

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