Let Them All Talk: ritmo lento regado a citações incríveis

Cena do filme Let Them All Talk onde as personagens estão centadas à mesa em um restaurante bem iluminado, sendo elas Susan (Dianne Wiest) e Roberta (Candice Bergen) à esquerda e Alice (Meryl Streep) e Tyler (Lucas Hedges) de frente para elas, à direita. As três mulheres são idosas e têm cabelos brancos, enquanto o rapaz é um jovem de cabelos escuros.

Let Them All Talk *****
Pôster do filme Let Them All Talk em que Alice, interpretada por Meryl Streep, está apoiada em uma porta branca, com uma mão sobre a boca. Ela tem cabelos brancos, usa óculos de grau de armação escura e roupa de frio também escura. O título e créditos do filme estão acima da sua cabeça, onde há um degradê de cor turquesa, lembrando o cor do oceano. Elenco: Meryl Streep, Lucas Hedges, Candice Bergen, Dianne Wiest, Gemma Chan, John Douglas Thompson, Dan Algrant
Direção: Steven Soderbergh
Gênero: Drama
Duração: 113 min
Ano: 2020
Classificação:
Sinopse: “Uma escritora de sucesso (Meryl Streep) embarca em uma viagem com antigos amigos em um cruzeiro, buscando uma boa dose de diversão e também a cura para algumas feridas do passado. Metido a garanhão, seu sobrinho (Lucas Hedge) a acompanha com o objetivo de conquistar a maior quantidade de mulheres possível, mas chegando lá ele acaba se apaixonando por uma jovem agente literária (Gemma Chan).” Fonte: Filmow.

Comentários: Alice Hughes é uma escritora estadunidense de sucesso que está prestes a receber mais um prêmio, dessa vez na Inglaterra, mas não gosta de andar de avião e, por isso, decide não ir. Sua agente, uma fã do seu maior best seller que deseja muito vê-la publicando a continuação, consegue para elas vagas em um navio que faz o trajeto, pensando que assim conseguirá persuadi-la. Alice decide levar junto seu sobrinho Tyler, por quem tem imenso e recíproco carinho, e duas amigas de faculdade com as quais acabou perdendo contato e pretende se reconectar: Susan, uma senhora gentil que gosta de fazer diferença na vida das pessoas através de seu trabalho, e Roberta, cuja vida financeira está bastante frustante. No trajeto, entre tentativas e falhas de todas as partes, eles encontram à bordo outro escritor famoso e um misterioso homem que é visto sempre no mesmo ambiente que a protagonista…

“Eu acho que atração é a força que move o universo, na verdade… É como a gravidade ou a força magnética. Aquilo que faz as borboletas-monarcas voarem pelo mundo.”

Let Them All Talk foi a primeira coisa que assisti na HBO Max, que estreou no Brasil mês passado com um vasto catálogo. Um original da plataforma, esse filme me atraiu por ter como personagem principal minha queridinha suprema Meryl Streep no papel de uma escritora, mas apertei o play sem nenhuma outra informação sobre, apenas me deixando levar. De cara, é claro, o elenco chama MUITA atenção por ter nomes de peso do entretenimento norte-americano, no papel de pessoas tão diferentes e profundas que me deixou surpresa. Esperei pelos esteriótipos clássicos de grupos de amigas como “a inteligente”, “a solteirona”, “a boazinha”, etc, mas não, elas são mais complexas que isso e mesmo num espaço de tempo tão curto é possível conhecer gradativamente sua história, o que as levou onde estão e, principalmente, a causa do afastamento daquela amizade antiga, que não parece ter sido natural.

Foto de uma cena de Let Them All Talk onde as personagens Tyler e Alice, ele usando terno escuro e camisa de cor clara enquanto ela usa uma roupa completamente escura, encostados no parapeito de uma varanda do navio em que estão viajando. Os dois estão lado a lado, de frente para a câmera, olhando um para o outro, e ao fundo é possível ver um pouco do andar debaixo do navio e o oceano à sua frente.
Let Them All Talk: Imagem via Vulture.

É muito importante destacar para quem pretende assisti-lo que ele tem desenvolvimento bastante lento, como optar por atravessar o oceano pela água ao invés de fazer isso pelo ar. Para quem busca momentos de ação, grandes clímax empolgantes ou mesmo dramas profundos pode ser frustrante. Existe carga sentimental, pitadas de humor, descobertas interessantes, tudo, mas em doses homeopáticas de forma que torna o longa entediante para algumas pessoas. Por outro lado ele é visualmente tão bonito, tecnicamente tão bem conduzido e tem falas que, mesmo cotidianas, são tão intensas que é um prato cheio digno de ser degustado. A busca dessa mulher pela reinserção das pessoas que já foram importantes pra ela na sua vida, que a gente não consegue entender a princípio de onde realmente vem mas torce pra acontecer, é íntima demais, e o final que chega para ela, definitivamente, surpreendente.

Leia também: Resenha do filme Do Jeito Que Elas Querem, comédia também protagonizada por um grupo de atrizes veteranas premiadas.

O filme fica ainda mais fascinante quando você pesquisa sobre o contexto em que foi gravado, dois anos atrás. Imagina um diretor de cinema levando três atrizes premiadíssimas, fora o resto da equipe, à bordo do Queen Mary II, um navio que faz travessia de um continente a outro pelo Atlântico, e filma ali, deixando inclusive que essas pessoas improvisem as falas no meio do caminho? Pois essa foi produção de Let Them All Talk! Entre o desenvolvimento da história, inclusive, eles colocaram algumas cenas do dia a dia da tripulação, pra realmente te colocar “no clima” do cruzeiro, como pequenos respiros na narrativa, que é guiado por uma trilha sonora tão, tão gostosa que não dá vontade de parar de ouvir. É, o ritmo pode não agradar aos mais afobados, mas o conjunto da obra, pra mim, foi sensacional.

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Cruella: um filme regado a moda, dálmatas e rock n’ roll!

Foto da personagem Cruella, que tem os cabelos curtos encaracolados divididos ao meio entre as cores preto e branco, usando uma máscara preta, batom e vestido vermelhos em um baile de gala, onde olha para alguém que está fora da imagem com ar de deboche.

Cruella *****
Pôster do filme Cruella, que tem o nome da atriz que interpreta a personagem título, Emma Stone, no topo, fundo dividido com as cores preto e branco, como os cabelos que ela apresenta na foto que ocupa toda a imagem. A personagem também usa batom vermelho vibrante e roupa preta elegante, segurando oma bengala apoiada nas costas com as duas mãos. O título também aparece em vermelho, à sua frente. Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Emily Beecham, Jamie Demetriou, Joey Akubeze, John McCrea, Kirby Howell-Baptiste, Mark Strong, Kayvan Novak
Direção: Craig Gillespie
Gênero: Aventura, Comédia
Duração: 134 min
Ano: 2021
Classificação: 12 anos
Sinopse: “Inteligente, criativa e determinada, Estella quer fazer um nome para si através de seus designs e acaba chamando a atenção da Baronesa Von Hellman. Entretanto, o relacionamento delas desencadeia um curso de eventos e revelações que fazem com que Estella abrace seu lado rebelde e se torne a Cruella, uma pessoa má, elegante e voltada para a vingança.” Fonte: Filmow.

Comentários: A jovem Estella perdeu a mãe ainda muito nova, tendo que aprender a se virar nas ruas de Londres ao lado dos amigos que fez ali e a aceitaram mesmo com o cabelo incomum, dividido exatamente ao meio nas cores preto e branco, que ela aprende a disfarçar tingindo de ruivo. Entre um “trabalho” e outro, ela sabe que seu sonho MESMO é trabalhar para a Condessa, um ícone da moda britânica que anda sempre acompanhada de seus dálmatas de estimação e é, para ela, uma inspiração. Aos poucos, porém, a jovem percebe que aquele meio no qual almeja tanto entrar pode ser mais ingrato do que pensava e decide então mostrar o lado dissimulado e caótico que tem dentro de si, soltando sua criatividade num plano de vingança pessoal que a transforma nesse ícone muito maior que imaginou ser um dia: Cruella!

Lançado em maio desse ano no acesso premium pago à parte da plataforma Disney+ e agora finalmente liberado para todos os assinantes do streaming, o longa é protagonizado por Emma Stone, que nos faz amar uma vilã imperdoável, ao lado de Emma Tompson, que dá vida a alguém ainda pior e sua genialidade impede o objetivo de nos fazer odiá-la. Em Cruella, a Disney reinventou uma personagem antiga, tão estilosa quanto cruel, e levou direto para o cenário londrino da década de 1970, dando a ela visual de roqueirinha maravilhoso acompanhado de trilha sonora 100% à altura. O ritmo do filme não é dos melhores, fica um pouco lento em diversas partes, mas ao contrário de A Bela e a Fera, onde essa característica atrapalha o acompanhamento da história, as músicas bem selecionadas e humor inteligente ajudam a manter a atenção ao longos dos vários pequenos clímax.

Foto da personagem Cruella olhando diretamente para a câmera com seus olhos azuis e olhar dissimulado. Ela está em um ambiente que parece uma redação de revista ou jornal, bem iluminado, e o close mostra apenas a parte de cima da sua roupa de couro preto pesada, os cabelos curtos metade da cor preta e a outra metade branca e o rosto, onde usa um batom vermelho vibrante.
Cruella: Imagem via The New York Times.

O fato de ser uma nova história, porém, não faz com que o filme não seja atrativo para fãs das animações e live actions de 101 Dálmatas lançadas anteriormente – muito pelo contrário! Sua música tema, “Cruella DeVill”, também ganhou outra história e está presente em toda a trama, em ritmo novo que combina totalmente com o resto das músicas (todas parte integrante da minha playlist do dia a dia, gente). As personagens novas, humanas e caninas, são bem trabalhadas e as “velhas” ganharam visual e personalidades repaginados que fazem muito mais sentido. Um exemplo disso é o fato de que a amizade com essa vilã por parte da Anita não fazia sentido NENHUM na minha cabeça quando assistia ao desenho, desde criança, e agora elas ganharam motivos para essa relação, até na cena entre créditos que é a coisa mais fofa do mundo e precisa ser vista…

Leia também: Resenha do live action A Dama e o Vagabundo, que lançou exclusivamente no Disney+.

Veja bem, não é que tiraram a essência surtada da protagonista, disposta a qualquer loucura para chegar onde deseja. Ela tem isso, e consegue ser um tanto quanto má também. Mas, sinceramente, em pleno 2021 eu não quero ver um filme sobre uma mulher que sequestra filhotinhos para fazer um casaco de pele, né? Não faz SENTIDO esse plot atualmente, e não é por isso que o potencial dela de viver uma nova narrativa devia ser desperdiçado, dessa vez abordando problemáticas da indústria da moda, entre outras. Essas releituras dos clássicos não vieram “justificar” suas ações do passado, mas para dar a eles um olhar mais contemporâneo e inspirador. As animações continuam existindo pra quem gosta, e os live actions passam a existir pra quem quer curti-los também. E dessa vez, assim como na maioria dos lançados até agora, eu curti DEMAIS!

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O Sorriso de Mona Lisa, Katherine Watson e eu

Julia Roberts como Katherine Watson em ''O Sorriso de Mona Lisa''.

No carnaval de 2018 tive alguns momentos meio brocoxô em meio à alegria e folia, por vários motivos diferentes. O primeiro deles, ouso dizer, ainda era o reflexo dos transtornos mentais que tinha acumulado no ano anterior, alguns com os quais já convivia há um tempo, outros que nem tanto, fora fatores que surgiram no próprio momento. Em resumo, era a antítese em pessoa, hora fazendo maquiagens temáticas empolgadíssima, hora me enroscando deitadinha na minha cama no escuro tão melancólico quanto a minha alma estava. E aí, nesse segundo cenário, zapeando pela Netflix afora, dei de cara com um filme assistido bem por alto quando mais nova, mas não sabia se tinha realmente absorvido: O Sorriso de Mona Lisa. Foi nesse dia que Katherine Watson mudou de vez a minha vida.

Mas antes, pra quem não conhece, trago contexto! O Sorriso de Mona Lisa é um filme de 2003 protagonizado pela maravilhosa Julia Roberts no papel da professora de história da arte Katherine Watson, que sai da Califórnia para dar aulas em uma das principais faculdades para moças do país, conhecida pelo perfil conservador, quase um local onde as alunas ricas frequentam enquanto esperam pelo seu casamento. Em meio à década de 1950, Katherine é considerada subversiva por ter visões progressistas, principalmente em relação ao papel da mulher na sociedade, e ao passar isso para suas alunas, apresentando a elas arte além dos padrões e as incentivando a enxergar a própria vida dessa forma, acaba pisando no calo não só de algumas delas, mas também de outras pessoas ao seu redor.

Julia Roberts como Katherine Watson em ''O Sorriso de Mona Lisa''.
Julia Roberts como Katherine Watson em “O Sorriso de Mona Lisa”, imagem via Microsoft.

Sabe aquela máxima do “O que você quer ser quando crescer?”, tão comum quando a gente é criança? Fazia muito tempo que eu não tinha uma resposta pra isso tão clara na minha mente. A maneira como ela dá a volta por cima em cada humilhação, o domínio da própria disciplina além dos padrões exigidos pela universidade, a enorme fé no que faz e, principalmente, como toca a vida das meninas em aspectos ainda maiores que o acadêmico. Em diversos momentos é acusada de hipocrisia e a primeira vez que assisti, há tanto tempo e muito mais crua que sou hoje, até concordei, mas agora não, agora consigo dar razão em cada atitude. Hipócrita é o meio em que está inserida e, oh, quase 70 anos se passaram aqui na vida real desde aquele contexto, muita coisa mudou, mas muitas outras continuam exatamente iguais. Pena!

Alguns meses antes desse click, estive perto de participar do processo seletivo de uma pós graduação de ensino de artes incrível, mas deixei passar… O arrependimento veio FORTE depois disso! Como não dá pra chorar sobre leite derramado, passei pouco tempo remoendo esse passado e rapidinho foquei em abraçar o futuro. Entre abraçar e viver não foi tão instantâneo, mas foi rolando. O passo mais importante, a decisão pelo caminho, foi dado, era hora de botar o pé na estrada. Agora, relembrando tudo o que rolou, foi muito mais na base dos tropeços e quedas do que de levantes. No meio da madrugada pós aniversário, puff, a decisão de estudar mulheres artistas. Uma ligação de propaganda que atendi sem querer, alá, um mundo de pós EAD que poderia cursar. Em dado momento até o mestrado que tanto reneguei se tornou possibilidade nessa cabecinha. Que loucura…

Katherine e suas alunas Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) e Joan Brandwyn (Julia Stiles).
Katherine e suas alunas Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) e Joan Brandwyn (Julia Stiles), imagem via Empire Online.

Quando criei o Vênus em Arte, um canal para ensinar história da arte através das mulheres artistas, hoje também podcast, era só um jeito de me forçar a produzir sobre o assunto como forma de estímulo, pra não deixar a chama apagar. Com o tempo ele foi me dominando, virou conteúdo aqui, nas redes sociais, brincadeiras que causam interação e engajamento nos Stories e, ai, o céu é o limite. Não cheguei a pisar numa sala de aula, o plano original, mas ensinei e principalmente aprendi tanta arte além do que os livros vinham me mostrando até então que, de vez em quando, já me sinto a Katherine Watson contemporânea. Talvez seja pretensão da minha parte, eu sei. Mas na vida tem espaço até pra isso, pra ser a primeira admiradora da sua jornada pessoal. Ajuda a colecionar outras admirações por aí.

Esse se tornou o maior dos meus “filmes confortos” desde então, busco por ele sempre que preciso lembrar como é estar bem. Agora uma breve ironia é o fato de que minha cena favorita sequer conta com a presença dessa personagem amada, tão fabulosa que precisa ser mencionada, aula de sororidade quando a gente nem sabia o que significava essa palavra. Em dado momento, frustrada com a vida, uma das alunas tenta descontar isso na outra, a ofendendo através das próprias dores. A colega, sabendo do que está acontecendo, tenta fugir sem rebater, e quando é confrontada diretamente retribui com um abraço de consolo. Falar aqui não vai descrever realmente sua força, mas é reflexo indireto do que foi plantado na sala de aula, que as incentivou muito além do ensino de artes. Eu sei, é mais pretensioso ainda sonhar com esse fazer diferença… Mas quem sabe um dia?

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o décimo quinto, referente a 2018.

O Sorriso de Mona Lisa, Katherine Watson e eu | Dia 15 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Soul

Soul: Imagem do personagem Joe Gardner, um homem adulto negro, usando um chapéu sentado em frente a uma piano de causa. O personagem é um desenho de animação.

Soul *****
Soul: poster do filmes onde o título se encontra no alto, ao fundo, sendo a letra O um grande círculo luminoso de onde sai uma escada em forma de teclas de piano. Nos degraus de baixo se encontra Joa, protagonista da história, e seu gato. Sobre a letra L está Joe em sua forma de alma e a aprendiz 22, também na mesma forma. Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Angela Bassett, Phylicia Rashad, Ahmir-Khalib, Alice Braga, Daveed Diggs, Graham Norton, June Squibb, Rachel House, Richard Ayoade,Wes Studi (dublagem original)
Direção: Pete Docter
Gênero: Animação
Duração: 100 min
Ano: 2020
Classificação: Livre
Sinopse: “Joe Gardner é um professor de música de ensino fundamental desanimado por não conseguir alcançar seu sonho de tocar no lendário clube de jazz The Blue Note, em Nova York. Quando um acidente o transporta para fora do seu corpo, fazendo com que ele exista em outra realidade na forma de sua alma, ele se vê forçado a embarcar em uma aventura ao lado da alma de uma criança que ainda está aprendendo sobre si, para aprender o que é necessário para retomar sua vida.” Fonte: Filmow.

Comentários: Vencedor do Oscar de Melhor Filme de Animação e Melhor Trilha Sonora no Oscar 2021, além de ter sido indicado também para Melhor Som, Soul foi o lançamento lançamento da Pixar para o segundo semestre de 2020, com estreia na plataforma Disney+ no Natal. Seu protagonista é Joe Gardner, um professor de música que sempre sonhou ser pianista profissional de jazz. No dia que o músico tem sua grande chance de “chegar lá”, porém, sofre um acidente e morre, sendo encaminhado para uma “existência posterior”. Se recusando a perder o auge de sua vida, Joe tenta encontrar um modo de retornar à Terra, e é através de 22, uma alma ainda não nascida que se recusa a encarnar, que ele enxerga sua chance, tentando ajuda-la a se encontrar enquanto, na verdade, só quer voltar para seu corpo e as maravilhas que o aguardariam nele.

Através do típico “jeitinho Pixar” de encantar crianças e adultos ao mesmo tempo com temática densas apresentadas de forma divertida, o longa fala de vida, morte e do nosso suposto “propósito” no trajeto entre as duas, tudo isso com referências culturais e históricas e uma trilha sonora que é, definitivamente, seu ponto alto. Depois de ter passado um tempo estudando o Renascimento do Harlem ano passado, fiquei feliz em assistir um filme sobre jazz com um protagonista negro em cenário contemporâneo, quase 100 anos depois do auge do movimento, mostrando o quanto esse estilo segue ligado à população afro-americana e valorizando essa ligação. Por outro lado, não consigo deixar de problematizar que mais uma vez, assim como Tiana em “A Princesa e o Sapo”, ele passa a maior parte do tempo fora desse corpo representativo, mesmo que sua imagem esteja presente, reduzindo levemente esse protagonismo, infelizmente.

Soul: Imagem dos personagens 11 e Joe em forma de alma, duas criaturas de cor clara azulada. Atrás deles há um display com vários tipos de comida e Joe oferece uma fatia de pizza a 22, sorridente, que o olha de forma descrente.
Soul: Imagem via What’s After the Credits.

Depois da trilha sonora e dessa relação da mesma com uma minoria que ainda está ganhando espaço na cultura pop, outro destaque é o carisma das personagens. 22 é uma mistura da travessura e inocência infantil com o “peso” da maturidade, de forma difícil de explicar, mas identificável em vários pontos, o que junto com seu visual “fofinho” acaba gerando muita empatia do público em relação à mesma, que já ganhou seu próprio curta metragem no serviço de streaming. O próprio Joe causa esse afeto como personagem, fazendo com que a gente torça MUITO por ele, o tempo todo, querendo voltar pro início e impedir sua morte, pra começo do conversa. O núcleo secundário também é fascinante, principalmente os amigos e familiares dele na Terra, bem mais gostosos de acompanhar do que a parte no “Além”, que achei meio maçante, apesar das mensagens bacanas que passa.

Leia também: Resenha do filme Os 7 de Chicago.

Em resumo, o filme tinha “a faca e o queijo na mão” para ser genial, mas, como ponto negativo, faltou coragem por parte dos roteiristas de fazer um final um pouquinho mais ousado, tirando o estigma da morte como fracasso como fizeram em outras produções do estúdio. Por outro lado, ele não ultrapassa a linha tênue entre a positividade saudável e a tóxica, repensando nosso modo de buscar objetivos sem forçar um “papo de coach” que mais atrapalha do que ajuda. Eu resumiria esse recado não com palavras minhas palavras, mas com as de John Lennon: “vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”¹. Nem sempre temos a chance de aprender isso ainda aqui e, depois, não tem como voltar, então que vivamos o agora não sem planos, mas também além deles.

Trailer:

¹ John Lennon. Beautiful Boy (Darling Boy). Double Fantasy. Nova York: The Hit Factory, 1980. Faixa 7, Lado A.

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Os 7 de Chicago

Os 7 de Chicago

Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7) *****
Os 7 de Chicago: Elenco: Eddie Redmayne, Alex Sharp, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Danny Flaherty, Noah Robbins, Yahya Abdul-Mateen, Mark Rylance, Ben Shenkman, Joseph Gordon-Levitt, Kelvin Harrison Jr., Frank Langella, J.C. MacKenzie, Michael Keaton, Kevin O’Donnell, Tiffany Denise, Alice Kremelberg Bernadine
Direção: Aaron Sorkin
Gênero: Drama histórico
Duração: 129 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Baseado em uma história real, os 7 de Chicago acompanha a manifestação anti-guerra do Vietnã, que interrompeu o congresso do partido Democrata em 1968. Ocorreram diversos confrontos entre a polícia e os participantes. Dezesseis pessoas foram indiciadas pelo ato.” Fonte: Filmow.

Comentários: Indicado às categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Sacha Baron Cohen), Melhor Roteiro Original, Melhor Canção Original, Melhor Fotografia e Melhor Edição do Oscar 2021, que acontece hoje à noite, Os 7 de Chicago é um filme original Netflix baseado no caso jurídico real de mesmo nome, ocorrido nos Estados Unidos durante a década de 1960, e essa temática é a primeira coisa que deve ser destacada pois dita bastante o ritmo do longa. Superficialmente é o que podemos dizer sobre ele, o fato de que é um filme de tribunal, o que para pessoas que não têm nenhum interesse no assunto pode ser massante… Por outro lado, ele tem tantos aspectos positivos dentro e fora do cenário principal, em especial no que diz respeito à mensagem, que antes mesmo de prosseguir a dica é simplesmente que ASSISTAM!

Mas antes… Senta que lá vem história! Os Sete de Chicago eram um grupo de ativistas de diversas organizações de esquerda, sendo eles Tom Hayden, Rennie Davis, Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, John Froines e Lee Weiner, acusados pelo governo dos Estados Unidos de conspiração por estar engajados nos protestos contra a Guerra do Vietnã em Chicago no ano de 1968. Inicialmente eram oito réus, os “Conspiracy Eight”, mas Bobby Seale, líder dos Pantera Negras, teve seu julgamento interrompido durante o processo.

De cara o elenco monstro é um atrativo pesadíssimo para o público de modo geral. Apesar de Sacha Baron Cohen como Abbie Hoffman e Joseph Gordon-Levitt no papel do procurador Richard Schultz serem os reais destaques, cada um representando fortemente um “lado” do processo, eu tenho um “trem” com o Eddie Redmayne (para não dizer “crush, hahaha) que me fez voltar todos os olhares para ele enquanto interpretava Tom Hayden, uma figura bastante conhecida seja pela carreira política ou pelo longo casamento com a atriz Jane Fonda. Está, como sempre, muito maravilhoso, mas não seria certo dizer que se destoa por isso porque é um show atrás do outro, de verdade. A maneira como os personagens são apresentados, mostrando seus métodos e intenções, em como todos foram parar “no mesmo barco” é muito bem montada, os cortes são pertinentes e isso se estende em toda sua duração.

Os 7 de Chicago
Os 7 de Chicago: Imagem via Veja, num artigo que expõe o que é real no filme ou não.

É claro que a maior parte da história se passa dentro do tribunal, mas isso de forma alguma o torna entediante. Os diálogos misturam mensagens relevantes (falaremos disso a seguir), etapas do processo e… HUMOR! As piadas de Abbie Hoffman, que aconteceram de verdade, cortam o clima pesado sem deixar a coisa boba, as sacadas são pertinentes e inteligentes demais. Fora isso existem as cenas externas, colocadas durante o enredo para explicar como as coisas chegaram no ponto da trama central, e possuem essas mesmas características de falar do sério e do divertido, mas jamais do irrelevante. O vai-e-vei não é confuso, muito pelo contrário, esclarece nossa mente, denuncia hipocrisias, conecta quem assiste com quem está na tela. O slogan dos protestos era “O mundo inteiro está assistindo”, e agora eles voltam pra nossa vida como forma de entretenimento, numa plataforma global, para reforçar essa ideia.

Leia também: Resenha do filme A Voz Suprema do Blues, também indicado a diversas categorias no Oscar.

Não por acaso, o lançamento do filme aconteceu logo antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos, justamente para lembrar que o que já aconteceu segue acontecendo e determinando o presente – não só por lá, mas aqui também. A parcialidade escancarada de Julius Hoffman, completamente inadequada no seu papel de juiz, a fragilidade do estado democrático ao não aceitar a oposição, a violência policial transformada em algo cotidiano e até que ponto as pessoas se sentem confortáveis ao lutar contra isso, na teoria e na prática. É incrível ver como o (suposto) radicalismo de alguns se complementa com academicismo de outros, tornando ideais, juntos, bem mais fortes. Como qualquer produção estadunidense, a necessidade de mostrar “heroísmo” naquelas figuras históricas acaba criando um desfecho muito mais dramático e emocionante que a realidade, mas o recado foi dado, e não tem como ser deletado mais agora!

Trailer:

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