O Sorriso de Mona Lisa, Katherine Watson e eu

Julia Roberts como Katherine Watson em ''O Sorriso de Mona Lisa''.

No carnaval de 2018 tive alguns momentos meio brocoxô em meio à alegria e folia, por vários motivos diferentes. O primeiro deles, ouso dizer, ainda era o reflexo dos transtornos mentais que tinha acumulado no ano anterior, alguns com os quais já convivia há um tempo, outros que nem tanto, fora fatores que surgiram no próprio momento. Em resumo, era a antítese em pessoa, hora fazendo maquiagens temáticas empolgadíssima, hora me enroscando deitadinha na minha cama no escuro tão melancólico quanto a minha alma estava. E aí, nesse segundo cenário, zapeando pela Netflix afora, dei de cara com um filme assistido bem por alto quando mais nova, mas não sabia se tinha realmente absorvido: O Sorriso de Mona Lisa. Foi nesse dia que Katherine Watson mudou de vez a minha vida.

Mas antes, pra quem não conhece, trago contexto! O Sorriso de Mona Lisa é um filme de 2003 protagonizado pela maravilhosa Julia Roberts no papel da professora de história da arte Katherine Watson, que sai da Califórnia para dar aulas em uma das principais faculdades para moças do país, conhecida pelo perfil conservador, quase um local onde as alunas ricas frequentam enquanto esperam pelo seu casamento. Em meio à década de 1950, Katherine é considerada subversiva por ter visões progressistas, principalmente em relação ao papel da mulher na sociedade, e ao passar isso para suas alunas, apresentando a elas arte além dos padrões e as incentivando a enxergar a própria vida dessa forma, acaba pisando no calo não só de algumas delas, mas também de outras pessoas ao seu redor.

Julia Roberts como Katherine Watson em ''O Sorriso de Mona Lisa''.
Julia Roberts como Katherine Watson em “O Sorriso de Mona Lisa”, imagem via Microsoft.

Sabe aquela máxima do “O que você quer ser quando crescer?”, tão comum quando a gente é criança? Fazia muito tempo que eu não tinha uma resposta pra isso tão clara na minha mente. A maneira como ela dá a volta por cima em cada humilhação, o domínio da própria disciplina além dos padrões exigidos pela universidade, a enorme fé no que faz e, principalmente, como toca a vida das meninas em aspectos ainda maiores que o acadêmico. Em diversos momentos é acusada de hipocrisia e a primeira vez que assisti, há tanto tempo e muito mais crua que sou hoje, até concordei, mas agora não, agora consigo dar razão em cada atitude. Hipócrita é o meio em que está inserida e, oh, quase 70 anos se passaram aqui na vida real desde aquele contexto, muita coisa mudou, mas muitas outras continuam exatamente iguais. Pena!

Alguns meses antes desse click, estive perto de participar do processo seletivo de uma pós graduação de ensino de artes incrível, mas deixei passar… O arrependimento veio FORTE depois disso! Como não dá pra chorar sobre leite derramado, passei pouco tempo remoendo esse passado e rapidinho foquei em abraçar o futuro. Entre abraçar e viver não foi tão instantâneo, mas foi rolando. O passo mais importante, a decisão pelo caminho, foi dado, era hora de botar o pé na estrada. Agora, relembrando tudo o que rolou, foi muito mais na base dos tropeços e quedas do que de levantes. No meio da madrugada pós aniversário, puff, a decisão de estudar mulheres artistas. Uma ligação de propaganda que atendi sem querer, alá, um mundo de pós EAD que poderia cursar. Em dado momento até o mestrado que tanto reneguei se tornou possibilidade nessa cabecinha. Que loucura…

Katherine e suas alunas Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) e Joan Brandwyn (Julia Stiles).
Katherine e suas alunas Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) e Joan Brandwyn (Julia Stiles), imagem via Empire Online.

Quando criei o Vênus em Arte, um canal para ensinar história da arte através das mulheres artistas, hoje também podcast, era só um jeito de me forçar a produzir sobre o assunto como forma de estímulo, pra não deixar a chama apagar. Com o tempo ele foi me dominando, virou conteúdo aqui, nas redes sociais, brincadeiras que causam interação e engajamento nos Stories e, ai, o céu é o limite. Não cheguei a pisar numa sala de aula, o plano original, mas ensinei e principalmente aprendi tanta arte além do que os livros vinham me mostrando até então que, de vez em quando, já me sinto a Katherine Watson contemporânea. Talvez seja pretensão da minha parte, eu sei. Mas na vida tem espaço até pra isso, pra ser a primeira admiradora da sua jornada pessoal. Ajuda a colecionar outras admirações por aí.

Esse se tornou o maior dos meus “filmes confortos” desde então, busco por ele sempre que preciso lembrar como é estar bem. Agora uma breve ironia é o fato de que minha cena favorita sequer conta com a presença dessa personagem amada, tão fabulosa que precisa ser mencionada, aula de sororidade quando a gente nem sabia o que significava essa palavra. Em dado momento, frustrada com a vida, uma das alunas tenta descontar isso na outra, a ofendendo através das próprias dores. A colega, sabendo do que está acontecendo, tenta fugir sem rebater, e quando é confrontada diretamente retribui com um abraço de consolo. Falar aqui não vai descrever realmente sua força, mas é reflexo indireto do que foi plantado na sala de aula, que as incentivou muito além do ensino de artes. Eu sei, é mais pretensioso ainda sonhar com esse fazer diferença… Mas quem sabe um dia?

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o décimo quinto, referente a 2018.

O Sorriso de Mona Lisa, Katherine Watson e eu | Dia 15 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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A aliança de prata

Foto de um buquê de margaridas, grande e pequenas, rodeadas de folhas verdes em um cesto de palha que não aprece direito na imagem. Ao fundo, um céu claro com muitas nuvens brancas.

Meu tempo de vida foi inversamente proporcional à minha importância naquela data especial. Antes do meu “nascimento” eu era apenas um monte de flores jogadas, mas quando a fita foi adicionada ao redor dos caules surgi oficialmente como um buquê de casamento. Eu sabia que seria uma das estrelas daquela noite onde uma aliança tão forte seria oficializada, que estaria na mão da noiva ao entrar e todos os olhos estariam em mim, ainda que indiretamente. Sabia que, depois, seria muito disputado por outras pessoas que também queriam viver aquele momento de alegria. Depois de uns dias estaria seco, cabisbaixo, e provavelmente iria para o lixo, no melhor cenário teria algum pedacinho guardado dentro de um livro, mas tudo bem. Minha missão era, pra mim, o que mais importava, e eu estava feliz em ser a escolha de Pilar Prates.no dia em que disse “Sim” para Jonathan Mesquita.

Enquanto Pilar caminhava pelo tapete vermelho, ele a olhava muito sorridente, com ar de quem estava se segurando para não chorar. Lembrei de uma amiga dela falando minutos antes, quando se preparava pra entrar antes dela, que ele era “o maior chorão”. Não consegui ver o momento exato em que se encontraram porque meu ponto de vista nem sempre é privilegiado, mas ser entregue à amiga em questão me deu visão total da breve cerimônia. Algumas pessoas riam, outras secavam lágrimas em lenços brancos idênticos. O casal se olhava de tempos em tempos, com muito carinho. O celebrante se atrapalhou por um instante com seu discurso pronto sobre alianças de ouro, sendo que todo mundo ali dentro sabia que cada um daqueles dedos anelares usava, há muito tempo, uma aliança de prata, a dela com um coração vazado, que deixou as fotos do noivado com um toque ainda mais especial.

A saída foi marcada por confetes jogados no ar e tumulto em direção ao salão onde a festa aconteceu. Apareci em fotos antes de ser momentaneamente esquecido para que não atrapalhasse danças, discursos e cumprimentos. De repente, antes que estivesse pronto para meu grande momento, Pilar me pegou de novo, subindo no palco. No microfone chamou TODAS as pessoas solteiras, mulheres ou não, para absorver um pouquinho da sorte que ela teve através do meu toque mágico. “Um… Dois… Três… Ainda não!”, ela brincou com a plateia eufórica feita de braços estendidos no ar. Meu frio na barriga era o maior de todos eles. Então ela olhou pra mim e sorriu, pedindo “Por favor” antes de, sem a típica contagem prévia, me lançar ao ar. Quase todo mundo foi pego de surpresa, exceto um par de mãos que nunca tinha sido recolhido após os arremessos de enganação.

Cecília me olhou sem acreditar. A noiva virou em nossa direção, ansiosa, e gritou com muita empolgação correndo para a amiga vencedora. As duas se abraçaram, me sacudindo no alto, como se eu fosse o maior dos troféus. Não faço ideia de qual foi a história que fez com que existisse uma torcida tão forte ali, mas cumpri meu papel de levar a ela o começo de um final feliz. A festa seguiu e terminou, levando os pombinhos para sua nova casa e eu para a minha, uma diferente da deles. Apesar dos esforços de Cecília para que eu continue em pé e cheio de vida, me sinto murchar a cada minuto, esperando pelo meu fim, que felizmente não chegou antes que eu pudesse assisti-la recebendo a caixinha contendo sua própria aliança, vinda de um lugar chamado Lojas Rubi, essa de ouro, para a alegria do celebrante que a mencionaria dentro de alguns meses.

Foto de duas mãos unidas sobre uma mesa onde há um fio de pérolas. A de baixo, masculina, usa uma grossa aliança de prata e de cima, feminina, com modelo semelhante, que tem um coração vazado, e unhas pintadas com um esmalte claro, ambos no dedo anelar.
Modelo de aliança Amare Love via Lojas Rubi.

Psiu! Prest’enção! Esse post é uma publicidade das Lojas Rubi. Você pode conhecer os produtos no site da loja e em redes sociais como Facebook, Instagram e canal no YouTube.

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Mas isso é arte? Ah, até eu faço!

Mas isso é arte? Ah, até eu faço! Imagem ilustrativa com exemplos de obras de alguns artistas cujo trabalho foi relativizado por seguidores do meu Instagram em fevereiro de 2021.

Em situações normais, fora desse contexto da pandemia, eu sou super a amiga de ir ao museu. Posso ser a de balada (bem pouquinho), a de cinema, de ficar á toa, de várias coisas, mas a de museu acho que é um papel que desempenho melhor. Eu AMO ir a museus, gosto de ver arte, produzo conteúdo sobre… Chego lá com informações sobre o teor da exposição, observando como cada obra foi colocada, faço meus registros em foto e vídeo sem deixar de apreciar o que tô vendo. Fora que, no que diz respeito ao conhecimento formal, entendo do assunto, então posso ser fonte de informação, mas sem ser a chatona que transforma o rolê em palestra, sei brincar e sei falar sério, simultaneamente. Cara, que saudades de PODER receber um convite desses…

Estudar determinado assunto não te isenta de desgostar de algo dentro dele, claro, mas ajuda bastante a enxergar com olhar menos tendencioso. Eu sei que qualquer coisa que tem a intenção (ou às vezes nem isso!) de ser uma manifestação artística tem seu valor, sabe? É LÓGICO que existe algo aqui ou ali que pessoalmente acho “feio” (cofcofRomeroBrittocof), mas é muito raro, de verdade, porque o que existe por trás daquela peça tem uma carga tão maior pra mim, em mil sentidos, que não consigo deixar de ver beleza, esteticamente falando, mesmo, nela. E, no meu papel de companhia de quem não compartilha dessa visão, acabo ouvindo coisas que vão além da preferência estética e não dá pra deixar de rebater: o questionar se algumas coisas são arte de fato ou a afirmação de que aquilo é tão insignificante que qualquer pessoa poderia ter feito.

E assim, rebato!

“Mas… Isso é arte?”

Sim, isso é arte! Você gostando ou não, é arte. Na verdade, dependendo de quem é você e de qual é a arte, ela foi feita pra você não gostar. E ainda assim é arte.

O conceito de arte por si só é variável e muda constantemente conforme muda a sociedade, sendo um reflexo da mesma. Pode ser expressão e decoração, quando se pensa nela de forma imediata, mas também emoção, ciência, registro histórico, percepção e até manifestação acidental. Um utensílio de cozinha, algo que foi corriqueiro na vida de sociedade X o Y, de repente pode estar no museu sendo exaltado dessa forma. E, ao mesmo tempo, existem as manifestações artísticas propositais que não seguem o que se muitas pessoas entendem como “arte”, baseando-se num modelo clássico e padrões de beleza que estão há muito obsoletos e ignoram a subjetividade da própria ideia da beleza. A humanidade mudou desde Botticelli, o ideal do belo vem se tornando cada vez mais amplo e o modo de produzir todos os tipos de artes se transformam também. Ainda bem!

Por exemplo, a pintura-retrato que expressa o que o artista vê (ou uma versão idealizada disso) era a maneira encontrada de deixar sua marca fisicamente para gerações posteriores e mais tarde, com a popularização da fotografia, passamos a ter outro jeito de fazer isso. É natural que o conceito venha se sobressaindo ao visual e, principalmente, ao que soa como “real” na nossa mente. Além disso, esses conceitos e questionamentos sempre estiveram presentes na arte, não só na contemporânea como muitos acreditam. Ao estudar sua história percebemos que um movimento artístico contesta o que estava em alta antes dele, trazendo novas reflexões àqueles que se expressavam através dela e, com sorte, aos que consumiam. Apesar de existir uma quebra maior à medida que o final da era moderna foi se aproximando, sempre esteve presente e sempre incomodava aqueles que se recusavam a evoluir.

Não é como esses que queremos ser, né?

“Ah, isso aí até eu faço!”

Bom… Então faz! Se é assim vai lá e faz!

Veja bem, é claro que na vida o conhecimento e as oportunidades dependem de DIVERSOS fatores que precisam ser levados em conta… A infinidade de privilégios que podem determinar o destino de alguém não pode ser ignorada, né? Mas, ainda assim, uma coisa que não deixa de ser verdade é que a produção artística de alguém NUNCA depende apenas de “talento”. Na verdade o que as pessoas chamam de talento é resultado de muito estudo, esforço, investimento, horas e horas se dedicando à atividade em questão. Aptidões mais voltadas para uma área que pra outra? É, temos. Mas não em definitivo. Habilidade e criatividade são coisas que podem ser ensinadas e aprendidas. Acima de tudo elas podem ser treinadas diariamente, de hora em hora, sem parar, resultando, é claro, num produto cada vez mais satisfatório. Ou, pelo menos, assim a gente espera.

Sendo assim, é claro que QUALQUER produção artística poderia, de fato, ser feita por QUALQUER um de nós. Eu acredito nisso. Porém elas são feitas pelas pessoas que, seja por aptidão, oportunidade e/ou esforço absurdo, fizeram. Então não é nada legal menosprezar o trabalho de alguém falando que você, um leigo no assunto, dá conta de fazer igual. Você não fez e, mesmo se fizer, NÃO VAI SER IGUAL! A história que vai existir por trás de um ou de outro vai ser diferente, simples assim. Qualquer um poderia ter pintado O Grito de Edvard Munch ou conduzir as pesquisas sobre radioatividade de Marie Curie, mas não foi esse “qualquer um” que o fez. Foram eles, e você tem direito TOTAL de gostar ou discordar da qualidade desses trabalhos. Mas o trabalho é deles, e fim!

Leia também: Nunca precisei de artista.

Por fim, vou fechar com a fala de uma das personagens que mais gosto na vida, a professora Katherine Watson de “O Sorriso de Mona Lisa”, que foi muito importante nessa minha trajetória como arte-educadora nos últimos anos (e sobre a qual quero escrever um post inteirinho, ainda). Em determinada cena em que suas alunas desdenham de Jackson Pollock ela diz: “Façam-me um favor. Façam um favor a vocês mesmas. Parem de falar e olhem. Vocês não precisam escrever um artigo. Vocês nem precisam gostar. Vocês PRECISAM, porém, considera-la.” Recomendo que apliquem em todo o tipo de arte visual que forem consumir, cada vez mais!

Mas isso é arte? Ah, até eu faço! Imagem ilustrativa com exemplos de obras de alguns artistas cujo trabalho foi relativizado por seguidores do meu Instagram em fevereiro de 2021.
Obras presentes na imagem: A New Day, de Romero Britto; Sem Título (1984), de Jean-Michel Basquiat; Número 17A (1948), de Jackson Pollock; Roda de Bicicleta (1913), de Marcel Duchamp e Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral.
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O artificial que soa como natural

O artificial que soa como natural

Quando adolescente fui loira por um tempinho, por volta de dois anos, por aí, e recebia MUITAS críticas de alguns parentes por isso. A desculpa era que “com essas sobrancelhas grossas pretas fica muito artificial”, e eu achava engraçado porque em momento nenhum da minha vida tive a intenção de fingir que eu tinha os cabelos dourados naturalmente. Eu só queria ser assim naquele momento, sabe? Não pretendia mudar minha certidão de nascimento nem nada do tipo. Nem vou me aprofundar fato de que outras pessoas do mesmo núcleo familiar que têm mais ou menos minha idade já tiveram e têm cores de cabelos diferentes do natural e nunca receberam críticas semelhantes, é abrir uma Caixa de Pandora muito fora do nosso foco hoje… Enfim!

Isso tudo aconteceu em meados dos anos 2000, uma época em que todo mundo afinou as sobrancelhas até quase sumir, mas eu não deixei ninguém fazer isso com as minhas porque gostava delas cheionas, mesmo. Também demorei muito a aceitar que posso ser bonita usando óculos e hoje em dia faço questão de estar com eles em todas as minhas fotos e vídeos, pra compensar uma vida inteira tirando pra não “ficar feia”. Só que pra conseguir enxergar eles precisam fazer parte de mim e não tem nada de feio nisso, eu sou assim. Ao mesmo tempo não quero fingir que nasci com os cabelos mais lisos ou a boca vermelha sangue de quando passo meus batons favoritos, obviamente, mas quando penso em mim é essa imagem que me vem à cabeça. NATURALMENTE.

O artificial que soa como natural
Imagem do Instagram @luylage

E aí pouco mais de 2 meses atrás pintei os cabelos de rosa, depois de muitos anos de vontade e pelo menos um semestre de planejamento. Foi isso de ter cabelo fantasia que me trouxe todas essas lembranças do “anti-artificial” porque eu JÁ estranho as minhas fotos de cabelos pretos, que é como eles foram em pelo menos uns 27 dos meus 30 anos de vida. Agora é MUITO mais fácil pra mim me enxergar rosa. E a melhor parte é que ninguém vai vir me encher o saco por causa de raiz escura, sobrancelha que não bate ou seja lá o que for porque OBVIAMENTE essa não foi uma escolha feita pensando no natural, uma vez que infelizmente as pessoas não nascem com a cabeça de cores legais assim. Inclusive o que acho lindo é justamente a artificialidade de ser da cor que mais amo na vida.

Minha melhor amiga atualmente tá ruiva, depois de muitos anos de loirice, e já que estamos passando por essa fase mais ou menos juntas sempre falamos sobre as tintas e a possibilidade mudar de novo – o que por agora é, na verdade, uma impossibilidade pra mim. Em meio a um papo aqui e outro acolá, dia desses ela me disse “Mas mesmo se eu fizer isso vai ser pra voltar pro ruivo depois porque agora é meu natural”. Eu AMEI essa fala dela, também me sinto assim, como se eu pudesse escolher o que é natural em mim. É claro que quero que TODO MUNDO tenha SEMPRE espaço pra se aceitar como é, principalmente falando de quem a sociedade mais impõe o contrário, mas que isso inclua o direito de descobrir nossos novos naturais incomuns por aí, que nem eu descobri esse meu aqui, e ser aceita assim também!

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Um blazer de oportunidades

Shoulder - Blazer

A frustração era perceptível em cada pedacinho de seu corpo: ombros curvados para frente, olhar cabisbaixo e boca claramente virada pra baixo, como um emoji triste que se envia no meio da conversa. Ainda não entendia bem como os eventos daquela tarde tinham acontecido, mas sabia que não era difícil entender… Marta foi demitida após anotar um número de telefone errado, o que custou não só seu emprego mas também a paz no casamento de seu chefe. Como podia ter sido tão burra a ponto de confundir as vozes de duas mulheres? E como ELE podia ser tão burro ao sugerir que “a outra” ligasse para o escritório? Não conseguia deixar de pensar que estava pagando pelo erro de um marido traidor, isso sim, mas esse pensamento não traria seu emprego de volta, de qualquer forma…

O blazer recém comprado parecia zombar dela no armário. Na semana anterior, quando foi comprar algumas camisetas para presente de dia dos pais, o viu na vitrine ao lado e não resistiu, entrou para experimentar e três minutos depois saiu da loja com a sacola. O objetivo era usar no próximo mês, num evento grande da empresa, onde mostraria o quão “mulher de negócios” sabia ser para, quem sabe, ser promovida em breve. Afinal, estava lá há tanto tempo, fazendo um ótimo trabalho, não tinha motivo para não ser escolhida para o novo cargo. É, pelo visto, sua falta de atenção foi motivo suficiente… “Que ódio!” gritou para o blazer, colocando nele a culpa que mais cedo havia sido jogada toda sobre ela, afinal, não tinha mais ninguém ali pra receber essa frustração.

Não ligou a televisão e fez questão de manter a internet do celular desligada. Não queria conversar sobre aquilo, agora. Dormiu na esperança de acordar renovada, mas as 23 mensagens da mãe não vistas na manhã seguinte questionando por que estava sumida, “Filha, você tá bem? Marta, me responde senão chamo a polícia!”, mostraram que sua derrota ainda estava lá, e que não podia permanecer em segredo por muito tempo. Ligou para ela e chorou pela primeira vez desde que tudo aconteceu, o que foi bom para aliviar um pouquinho sua tristeza. Decidiu então que, uma vez que a notícia tinha começado a se espalhar, ia aproveitar pra contar pra todo mundo de uma vez! Ai, droga, ela tinha tagarelado TANTO no domingo com o pai sobre seu sucesso profissional, como falar aquilo pra ele naquele momento?

Shoulder - Blazer
Imagem via: Shoulder

Naquela mesma noite sentou-se na frente do computador para atualizar o currículo e analisar como economizar ao máximo enquanto dependesse do seguro desemprego… E se não conseguisse outro trabalho nesse meio tempo? Ela não queria abrir mão daquele apartamento, o aluguel era barato e a localização incrível! Ali só tinha um quarto, não dava sequer pra procurar outra pessoa pra dividir. O desespero começou a realmente dominar suas emoções e, quando estava prestes a voltar a chorar, o celular vibrou, um número desconhecido estava ligando. Atendeu segurando o choro ao máximo e quase não conseguiu lidar com o choque ao ouvir a, agora inconfundível, voz de Áurea, (ex?) esposa de seu (ex!) chefe. O que estava acontecendo? Será que ia ouvir mais gritos raivosos?

Mas Áurea estava agradecendo pela gafe da véspera! Agradecendo por ter causado toda a confusão que expôs anos de traição em seu casamento há muito tempo já falido, nas palavras dela. Estava furiosa com o fato de que tinha perdido meu emprego por causa da troca de telefones, justo agora que ela tinha admitido pra si mesma que a culpa era, realmente, sua. Conversaram por longos minutos sobre o que fazia no trabalho até então, sobre a promoção que esperava receber e (caramba!) sobre o fato de que Melinda, filha de sua prima, fazia estágio em uma empresa que procurava alguém para um cargo parecido… O salário não era o mesmo que almejava, mas seria um bom recomeço.

A ligação que começou com ameaça de lágrimas terminou com um sorriso reluzente. Revisou o currículo com ainda mais atenção e colou o papel com horário da entrevista que faria e endereço do lugar na tela do computador, pra não esquecer de jeito nenhum. Estava se questionando se devia contar pra alguém, ou esperar mesmo o resultado, quando Áurea enviou uma mensagem dizendo “Eles são bem sérios, tenta usar uma roupa formal!”. Correu até o armário e alisou com carinho o blazer, que dessa vez parecia ter abandonado o ar zombador do dia anterior e agora fazia questão encorajá-la a seguir em frente, numa reviravolta imediata e inesperada.

Psiu! Prest’enção! Esse post foi inspirado na proposta #326 do Creative Wrinting Prompts e é uma publicidade da Shoulder. Todas as imagens de produtos aqui presentes foram tiradas do site da loja em agosto de 2020.

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