Se tem uma artista brasileira que estrutura técnica, narrativa e ativismo ambiental de maneira impecável e em harmonia, essa artista é Gisele Camargo. Moradora da Serra do Cipó há anos e ativa no combate aos incêndios e à mineração local, Gisele transforma essa conexão com a vegetação de onde vive em arte ao representar seu meio de forma bastante abstrata e expressiva. Em candeia, sua primeira exposição solo na Mitre Galeria depois da ida do espaço para São Paulo, ela leva em poucas obras de grandes dimensões essa relação, usando a materialidade da cor para dar formato a essa linha de pensamento e vida aos fenômenos que pretende ver o visitante experenciando ali dentro.
“Sua prática traça relações e registra vibrações através dos materiais e do espaço. Entre a luz e a gravidade, sua obra abre-se para um campo contínuo de experiências em fluxo — simultaneamente familiar e estranho, estável e instável, perceptível e elusivo.” — Miguel A. López

Em destaque, colocadas opostas dentro do espaço expositivo e chamando MUITA atenção, então Lua Nova e Lua Cheia, incrivelmente parecidas e diferentes entre si. Dois polípticos de grandes dimensões, formados por 49 telas de aproximadamente 50 x 50 cm cada organizadas em fileiras e colunas de 7. Seus círculos centrais formam um novo círculo maior, englobando o conjunto, usando tons sóbrios na primeira e vibrantes na segunda. São essas as obras que mais se associam ao título da exposição: candeia é uma espécie de lamparina pequena antiga a óleo que usa um pavio para queimar combustível e gerar luz. É quase possível visualizar esse objeto pairando no centro, retratando o efeito que essas fases da Lua têm em nossa Terra!


As outras obras, tanto formas que se posicionam de uma lateral quanto o díptico que ocupa a outra, fazem referência a trabalhos anteriores, com tonalidades remetendo às protagonistas. É fascinante o que ela consegue fazer com enormes regiões de cor chapada usando tinta acrílica, realmente um mistério para aqueles que gostam de acompanhar pinceladas e ficam parados, tentando entender onde elas foram parar. As telas são pesadas, visual e materialmente, se esticando em painel de madeira, mas isso jamais causa incômodo, a sensação é mais de fascínio, mesmo. Fiquei curiosa com a opção pela montagem mais baixa, aproximando a borda inferior do rodapé, em mim serviu para aumentar a ideia da grandiosidade do solo sobre aqueles que habitam nele…


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Sobre Gisele Camargo e Miguel A. López
Gisele Camargo nasceu no Rio de Janeiro em 1970, onde se formou em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Vive e trabalha na Serra do Cipó, em Minas Gerais, onde sua pesquisa se desenvolve por meio de pinturas e trabalhos que exploram luz, cor, geometria e espaço, criando composições que dialogam com as paisagens do Cerrado mineiro. Participou de exposições individuais e coletivas e vem consolidando sua trajetória na cena contemporânea brasileira desde a década de 1990. Miguel A. López é escritor, pesquisador e Curador Chefe do Museo Universitario del Chopo, na Cidade do México, com atuação voltada para a arte contemporânea latino-americana, principalmente voltada para a reescritura da história através de perspectiva queer e feminista.
Esse post faz parte do projeto Vênus em Arte, um canal no Youtube e podcast onde ensino história da arte através de mulheres artistas!

