Nosso Feitiço: uma crônica de Natal

Nosso Feitiço: uma crônica de Natal

Se amizade e presença física fossem coisas sinônimas, eu nem sempre seria uma boa amiga. Sendo sincera? Nem ia querer ser! Não ia conseguir cobrar algo do qual não gosto de ser cobrada e nem acho que faz sentido… Tenho amigos com os quais encontro sempre e é muito bom, outros que fico anos, sem exagero, sem dar um abracinho de nada e, adivinha? É muito bom também! Não acho que existe isso de “ver demais” ou “ver de menos”, acho que existe o ver, quando for, e o amar independente dele.

A Lud é, definitivamente, a amiga que menos vejo. Aliás, se minhas contas estão certas, tem mais de uma década que a gente não se vê, mesmo morando na mesma cidade. E, ainda assim, é uma das pessoas com as quais mais tenho conexão na vida. As coisas funcionam pra gente de forma muito louca, e eu não saberia como explicar se não fosse nosso feitiço. Há quase 20 anos, quando nos conhecemos e nos tornamos amigas imediatamente por ser super parecidas, com nossas revistas de bruxinha e absolutamente tudo em cor de rosa, Lud me contou um segredo: ela e outras duas amigas da antiga escola tinham feito um feitiço. As três, juntas, se colocaram diante de um espelho e disseram em voz altas palavras que obviamente já esqueci, e a partir daí suas mentes ficaram eternamente conectadas para que uma pudesse pedir ajuda pra outra em pensamento.

Lud jurou de pé juntinhos por tudo o que era mais sagrado (no caso, nossas canetas coloridas) que era verdade, sério mesmo, e que ela tinha acabado de ter a prova disso porque ouviu uma dessas amigas chamando. Falou que assim que chegasse em casa ia ligar pra ela pra descobrir o que tinha acontecido e, no dia seguinte, me contaria tudo pra provar que funcionava. Agora veja bem, eu lá no auge dos meus 12, 13 anos, completamente obcecada por uma série de livros sobre um menino que se descobria bruxo, fiquei querendo fazer o feitiço também, claro. Acreditei que ia funcionar? JAMAIS! Mas se existia algo cósmico nesse mundo que poderia me conectar eternamente com essa amiga-gêmea que tinha entrado na minha vida, nossa, eu tava disposta a tentar, ainda que fosse uma pessoa de pouca fé. No máximo a gente ia se divertir, e isso já era motivo suficiente pra mim.

No dia seguinte após me confidenciar, frustrada, que a outra amiga nem tinha nada de importante pra contar, resolvemos que o nosso funcionaria e fomos lá tentar também. Arrumamos um cantinho da escola onde ninguém ia nos ouvir, pegamos meu espelhinho de bolso e selamos nossa conexão mental eterna sobre a qual ela era completamente crente e eu cética (mas jamais admitiria isso ali). Rimos bastante depois, andando de braços dados pelos corredores da escola nos sentindo duas bruxinhas sabe-tudo que conseguem executar qualquer magia, prontas pra tentar agora umas poções e o que mais tivesse disponível, afinal, a gente tinha feito um FEITIÇO, sabe? Nada era mais mágico do que isso. Talvez nossa amizade, claro, mas tirando ela, nada!

E, de fato, estávamos certas.

Por muitos anos apaguei essa história da minha mente. O tempo passou, fomos pra escolas diferentes, fazendo amigos diferentes e adquirindo visões diferentes de mundo também. A gente se via “de vez em nunca”, pra uma ou outra coisa, mas dá até pra contar nos dedos quando. Eu fui pras artes, ela pra medicina, durante um tempo separadas até por uns quilômetros a mais, e ainda assim nossa conexão mental seguiu firme e forte chamando uma à outra sempre que preciso.

Naquela época em que minha irmã precisou mudar de escola abruptamente e fiquei sem saber qual seria a melhor opção, e ela me ligou no dia seguinte, do nada, com a solução de mão beijada sem saber do problema previamente. Depois, quando ela deletou a principal de suas redes sociais e ficamos sem contato, teve aquele belo dia em que pensei no quanto sentia saudades, achei seu novo perfil e descobri que tinha rolado um problemão em sua vida pro qual eu magicamente também ajudei a achar a solução.

Assim seguimos, sentindo necessidade de mandar um “Oi, sumida” do bem por causa de insights, lembranças e até sonhos que apareciam de repente em nossa mente pra descobrir que aquele contato era tudo que a outra mais precisava. Tudo isso sempre à distância, jurando que nos veríamos em breve, mas sem sucesso, e seguia tudo bem.

Até que a coisa chegou em um ponto extremo demais. Tive um sonho muito intenso, que envolvia desabafos, um vestido exótico e muito desespero por coisas banais na vida dela. Acordei desesperada, ouvindo sua voz falando meu nome de uma forma tão vívida que não parecia que existia a distância há tanto tempo. Parecia 2003 outra vez, quando a gente se telefonava mesmo sabendo que em poucas horas estaríamos juntas na escola, mas ainda assim não dava pra esperar. Corri para chama-la e vi, na sua foto de perfil, um bebê no seu colo, que fui descobrir nos primeiros segundos de contato, assim que me respondeu, ser filho dela, nascido há uma semana.

Enquanto ela me contava sobra gestação, parto, primeiros dias, tudo se conectava ao sonho de forma assustadora. Resolvi até contar isso pra ela, que disse que “meu anjo da guarda te chamou porque sabia que eu precisava de você”, e concordei enquanto finalmente percebi o quanto aquele chamado era recorrente, que estranho, como eu nunca tinha notado antes?

Então a lembrança me bateu de jeito, quase com violência, tão maravilhosa que nem acreditei que minha memória sempre tão boa tinha a deixado escapar por tanto tempo. Lembrança das pré adolescentes sorridentes, em suas calças de cintura baixa e tiaras de cabelo, adorando a peripécia mágica que tinham colocado em prática. Lembrei do nosso feitiço, da convicção dela e da minha descrença, e coloquei todo meu lado cético de lado porque, caramba, tinha funcionado.

Corri desesperada pra caixa de diários daquela época querendo encontrar qualquer registro daquele ocorrido. Um adesivo colado na data para deixa-la marcada, um papel de caderno recortado com letras coloridas formando suas palavras, uma notinha na parte de “ponto alto do dia” da agenda, e nada. Nosso momento mágico foi levado pelo vento, na lixeira da escola ou algum saco de papel para reciclagem, esquecido para sempre até por quem passou anos e anos vivendo sob seu resultado positivo.

Combinamos que era hora de matar as saudades e dessa vez encontrar SIM, assim que o bebê estivesse com alguns meses, era hora de conhecer essa pessoinha nova que já morava no meu coração e re-conhecer a velha, que sempre vai morar. E aí, a reviravolta que ninguém esperava, uma pandemia, tornando todas as amizades fisicamente distantes, até as diariamente próximas como a nossa foi um dia.

O bebê sorridente já tem mais de três anos, e a pandemia vai ficando pra trás. A nossa conexão mágica já nem sei contar quantos outonos viu chegar e ir embora, mas se hoje eu pudesse dar para Lud um presente de Natal, um presente físico, daqueles entregues com choro de alegria e abraço apertado e longo pra compensar todos os abraços não dados, seria um papelzinho com nosso feitiço. Aliás, no mundo ideal, eu daria o mesmo papelzinho, amarelado pelo tempo e já sem o cheiro das canetas perfumadas, pra receber seu olhar confuso em troca e contar pra sua própria protagonista toda essa mesma história. Se eu estivesse de muito bom humor, acho que colocaria dobradinho dentro de uma mini caixinha, depois colocaria essa caixinha em uma outra um pouco maior e essa em mais uma, naquelas brincadeiras que vemos na televisão e sempre conhecemos alguém que conhece alguém que também fez e foi o maior climão. Acho que ela ia rir também.

Se estivesse com tempo sobrando faria um caderno artesanal com o mesmo feitiço na capa e o papel seria colocado bem esticadinho dentro, um presente criado por mim para devolver o que um dia foi criado (pelo menos dentro da minha vida) por ela. Faria uma arte bonitinha, a nossa cara, e depois faria outro exatamente igual para ser meu, que nem naquela época em que a gente tinha um chaveiro de “Melhores Amigas” onde cada uma carregava sua metade do coração em mais um juramento de amizade eterna.

Na verdade, agora que estou pensando bem, poderia dar num embrulho brilhante junto com um chaveiro desses, no mesmo formato e de preferência também prateado, que até sem papelzinho já me parece o presente ideal, mas com ficaria ainda mais legal.

Faria questão de entregar com uma tiara rosa nos cabelos – a calça de cintura baixa já é pedir demais – e levaria junto o mesmo espelhinho de bolso, que guardo junto com outros itens saudosos dessa época, para que a gente fizesse uma “renovação de votos de amizade” em algum cantinho da casa onde ninguém pudesse interromper. E depois a gente sairia rindo, eu totalmente crente e ela um pouco cética de que, pronto, se tinha qualquer possibilidade de o que fizemos anteriormente começar a falhar à medida que a gente for envelhecendo já garantimos que isso jamais aconteceria. Seríamos amigas mentalmente conectadas para sempre, chamando uma à outra pelo pensamento mesmo quando não temos essa intenção.

Infelizmente, com ou sem pandemia, o presente ideal jamais será entregue. Ficou lá atrás, na escola odiada que tinha uma biblioteca amada, com nossos livros do Pedro Bandeira e bijuterias em forma de dadinho, com os livrinhos de adesivo que guardamos para usar no momento especial não definido que nunca chegou. Mas, cá entre nós, ele pode ser substituído por qualquer outro, caderno, chaveiro, o que eu decidir entregar quando enfim chegar a hora de reencontrar. Porque presente mesmo, de verdade, foi plantar essa amizade lá atrás e ir regando por tanto tempo sem regra nem compromisso, só uma dose de feitiço e várias doses de carinho recíproco que, conforme as runas nos contaram um dia, não dá sinal nenhum de querer passar.

E não vai.

Nosso Feitiço: Foto de uma boneca de cabelos longos e pretos em frente a uma árvore de Natal, olhando para uma bola vermelha.

“Nosso Feitiço” foi uma crônica originalmente escrita pra antologia Crônicas de Natal: Um Presente especial, publicada pelo Grupo Quimera no Natal de 2021 e tirada de circulação algum tempo depois. Uma vez que a editora nos “devolveu” a história, atualizei algumas informações para 2022 e transformei em um post para fechar o ano. Vocês podem conhecer outros trabalhos que publiquei com a Quimera na página dos meus livros aqui do blog.

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  • Daninha

    Eu amo tanto esse conto, quanto essa história. Ela é surreal e real ao memso tempo, como não poderia ser, vi acontecer com meus próprios olhos.
    E ver passada para palavras escritas de forma tão impecável, aiai…

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  • Marcela

    Ótimo artigo! Conteúdo rico em informações interessantes e úteis. Obrigado por compartilhar. Vou salvar esse website em meus favoritos!

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  • Caroline Pinheiro

    Adorei ler seu artigo! Muito bom mesmo, vou salvar em meus sites favoritos para ler todo final de semana.

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  • Jaine Lucky

    Amei seu post de hoje, sempre estou lendo e curtindo bastante seus conteúdos… arrasou minha linda.

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  • Alice Mendes

    Amei a crônica, já li duas vezes. rsrsrs amei de verdade. Luly Lage você arrasou minha linda.

    Meu blog: Lucky patcher

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