Ato I: A astróloga dos Pequenos
Há quem diga que o povo dos Pequenos era reconhecido por sua baixa estatura, mas isso é uma grande mentira: os Pequenos eram reconhecidos pelos sapatos!
Enquanto os humanos atravessavam estradas com botas enlameadas, viajantes usando calçados gastos pelas pedras, entrando nas casas uns dos outros sem cerimônia com os pés impensados, os Pequenos tratavam seus sapatos como obras de arte, porque é isso que eles são. Engraxam os pares todos os meses para depois guardar em prateleiras arejadas e perfumadas, e jamais usariam um par de passeio para colher amoras, ou um par de caminhada para visitar um amigo. Não, isso seria uma ofensa muito grande!
Lady Elowen possuía oito pares, pois o nono estava sendo bordado e o décimo ela ainda não havia decidido de qual cor seria. A maioria dos pequenos tem de cinco a seis pares, mas ela dizia que alguns a mais não era excesso, e sim questão de organização.
Como se ela mantivesse alguma coisa organizada em sua vida!
Sua casa era pequena, redonda e aconchegante como ela, construída na encosta suave de uma colina, onde o Bosque de Sorveira começava a se tornar mais fechado. A porta de madeira era azul-claro, as janelas da mesma cor tinham cortinas rendadas e havia vasos de margaridas cuidadosamente distribuídos nas floreiras. Do lado de dentro, tudo poderia parecer pertencer a uma pintura, com seus móveis de madeira clara, uma chaleira esmaltada sempre sobre o fogão, prateleiras repletas de livros, um telescópio próximo à janela e, sobre uma mesa redonda, deques de cartas muito antigos, cujas bordas prateadas refletiam a luz como pequenas estrelas.
Seria lindo se todo o resto não estivesse sempre meio bagunçado, com roupas recém lavadas sobre as cadeiras, esperando a hora de ir para o armário, laços tirados às pressas jogados sobre superfícies e, vez ou outra, um dos seus preciosos pares de sapatos esquecido em algum canto perto da lareira. Talvez por isso ela tenha tantos: para poder perdê-los pela casa de vez em quando.
Lady Elowen gostava de acreditar que as estrelas falavam silenciosamente através de seus padrões e encontros no alto do céu. A maior parte dos Pequenos observava o céu para saber se deveria levar um guarda-chuva, mas quando ela o observava, conseguia compreender todo o dia, e não só o tempo. Naquela manhã, por exemplo, anotara cuidadosamente em seu caderno de capa rosada:
— A Lua sorri para Vésper, mas Mercúrio anda inquieto. Pode ser um bom dia para reencontros, mas péssimo para discutir receitas de torta! — Sorrindo para si, muito satisfeita, fechou o caderno e colocou um delicado marcador de fita entre as páginas.
Ouviu, então, três batidas na porta, e pediu que a pessoa entrasse
— Lady Elowen, que benção, você já está acordada! — exclamou dona Rosamund, uma Pequena de cabelos completamente cinzas e avental florido. EU te trouxe morangos!
— Astrólogos acordam cedo… Os morangos, são a troco de que?
— Você me conhece tão bem, pequenina…
Lady Elowen sorriu. Ela conhecia, sim. Pegou um baralho, embaralhou lentamente e fez um gesto para que a velha amiga se sentasse, sem pressa. Suas cartas não eram muito apressadas, isso seria muita falta de educação. Após terminar, virou três delas.
O Jardim. O Sol. A Colmeia.
Franziu o cenho.
— Hum…
— “Hum” bom ou “hum” ruim?
— “Hum” curioso… Você vai conhecer alguém hoje!
— Um pretendente?
Lady Elowen sorriu.
— Não faço esse tipo de previsão, dona Rosa!
— Faz, sim. Só não admite.
As duas riram juntas.
Depois de alguns minutos de conversa, tentando entender o impacto dessa pessoa que surgiria na vida de dona Rosamund, ela foi embora levando consigo uma pequena trouxa de brigadeiros incomuns.
Lady Elowen preparava cada um de seus brigadeiros com o mesmo cuidado com que lia o céu. Enquanto mexia o chocolate na panela, respirava fundo, fechava os olhos e deixava que a magia encontrasse o caminho sozinha. Ela mesma nunca soube explicar como funcionava, já que não recitava feitiços, não desenhava símbolos, sequer tinha uma varinha mágica em casa (apesar de já ter ouvido falar que elas existiam por aí.) Ela apenas sentia, como se as estrelas soprassem delicadamente sobre seus ombros enquanto ela cozinhava, e quem comia aqueles brigadeiros costumava dizer que o mundo parecia um lugar um pouco menos pesado.
Uns dormiam melhor, outros criavam coragem para pedir desculpas. Alguns simplesmente sorriam mais do que de costume. Os brigadeiros agiam como uma forma de cura do coração e, sinceramente, todos concordavam que o coração precisava de muito mais cuidados do que joelhos ralados.
Naquela mesma tarde, algumas horas após se despedir de dona Rosamund, a pequena praça da vila estava especialmente movimentada. Era um dos dias em que ela se enchia de barracas de geleias, tortas recém-saídas do forno, potes de mel, biscoitos amanteigados e maçãs caramelizadas, então é claro que Lady Elowen caminhava entre elas com seu vestido preto rodado, um grande laço preto nos cabelos rosados e os óculos pesados equilibrados sobre o nariz.
Parava para cumprimentar praticamente todo mundo. “Bom dia As estrelas disseram alguma coisa sobre chuva?”; “Hoje é um bom dia para plantar lavanda?”; “Posso casar na próxima lua cheia?”, por aí vai. Elas respondia a todos com paciência e muito carinho, vez ou outra os permitia uma leitura de cartas, mas na maioria das vezes queriam enxergar o mesmo que ela enxergava no céu. Era muito, muito querida.
Mas havia uma diferença entre ser querida e ser levada a sério de verdade.
Enquanto registrava um pedido especial de brigadeiros para o grupo de moças que sempre vestiam amarelo, um grupo de viajantes chegou à praça e um deles tirou logo o chapéu, falando alto o bastante para que todos se calassem e ouvissem.
— Procuramos alguém experiente! Há uma criatura terrível rondando as montanhas do norte! Uma pantera negra!
Os Pequenos trocaram olhares. Outro viajante continuou:
— Vimos com nossos próprios olhos que essa terra há de comer! É grande como um cavalo e aparece sempre ao anoitecer. Seus olhos dourados nos deixaram congelados de pavor.
O burburinho começou a aumentar. Histórias de animais desaparecidos, conversas sobre interditar todas as trilhas. Ninguém parecia querer saber se era verdade, ou o que era verdade. Simplesmente abraçaram o motivo para se desesperar.
Lady Elowen estranhou, pois se uma besta fera como aquelas estivesse mesmo se aproximando, ela teria visto. As estrelas ou as cartas a teriam lhe contado. Ainda assim, pensou ela, talvez não teria como elas te contarem algo que ela não havia perguntado, então talvez fosse a hora de fazê-lo.
— Talvez eu possa ajudar! Posso fazer uma consulta, tentar entender o que a pantera negra quer conosco, com a vila, com os Pequenos de modo geral!
Ela era ainda menor que a maioria, mas a falta de desespero na voz firme deve ter deixado quem estava ao seu redor impressionado, pois parar de falar ao ouvi-la.
Os viajantes sorriram com gentileza.
— Agradecemos, senhorita, mas não há nada que suas bochechas rosadas possam fazer por nós. Precisamos de alguém acostumado a lidar com criaturas perigosas!
Ela abriu a boca para responder, mas o ferreiro robusto colocou a mão em seu ombro.
— Lady Elowen é a astróloga da vila e se dá muito bem com cartas, suas previsões nunca mentem. Ela pode dizer se amanhã será um bom dia para viajar e ir atrás da fera. Depois disso, ela deixa conosco!
Não adiantava falar para eles que as estrelas e as cartas não lhe davam previsões, e sim respostas. Ninguém queria entender, só queriam pré-ver. Também não serviria de nada dizer que ela não tinha objetivo de “deixar com eles”, porque nunca, jamais, em tempo algum, deixariam que ela trabalhasse ativamente nessa busca mal explicada.
Então ela sorriu.
Os viajantes, ainda não muito convencidos, seguiram repetindo as mesmas notícias sobre a pantera monstruosa que poderia atacá-los a qualquer momento, sem adicionar nenhuma nova informação. Para ela, a repetição desnecessária era um ataque muito pior aos seus ouvidos, então pegou sua cesta de comprar e rumou com os ombros baixos em direção à sua casa
Todos a achavam esforçada, que tinha algo de diferente em sua magia. Eram carinhosos e buscavam por ela em momentos de desespero, mas ainda assim a maneira quase infantil com a qual lidavam com ela doía. Precisavam de Lady Elowen para descobrir se iriam amanhã conseguir uma colheita melhor do que a de hoje, se enfim teriam um namorado, até se era melhor comer bife bem ou mal passado. Mas para um problema de verdade, onde poderia provar seu talento? Ah! Ela jamais seria considerada para isso.
E, assim, nem sequer sabia se possuía talento o suficiente.
Ao anoitecer, Lady Elowen subiu até o pequeno observatório de madeira atrás de sua casa, onde o céu parecia mais próximo. Acendeu uma lanterna e abriu seu caderno, posicionando cuidadosamente o telescópio. As estrelas surgiam uma a uma, como velhas amigas chegando para uma visita. Ela embaralhou as cartas e, como sempre, tirou três. A Estrela. O Viajante. A Lua.
Ficou imóvel.
Virou outras três. A Guardiã. O Encontro. O Caminho.
Os pelos de seus bracinhos se arrepiaram, aquilo não podia ser acaso. Nada em sua vida era acaso!
Levantou os olhos para o céu, onde as constelações pareciam desenhar um fio invisível apontando para o norte, onde ficavam as montanhas. Onde supostamente estava a pantera, ou fosse lá o que estivesse rondando por ali. Ela permaneceu alguns minutos em silêncio e fechou lentamente o baralho.
— Vocês têm certeza?
Uma estrela cadente riscou o céu. Ela sorriu.
— Vou considerar isso um “sim”.
Na manhã seguinte, sua cozinha parecia um pequeno campo de batalha organizado. Sobre a mesa havia uma mochila onde ela guardou um cobertor macio, um telescópio dobrável, dois vestidos extras, três pares de meias, um deque de cartas, o caderno, uma caixa de brigadeiros, biscoitos que tinha comprado na tarde anterior, pão de mel, geleia de morango, folhas para preparar chá de camomila e, sabe-se lá como ela tinha o enfiado ali, um pequeno bule esmaltado com a xícara que fazia par com ele. Pensou por um instante e adicionou mais quatro brigadeiros ao pacote. Nunca se sabe…
Nos pés, calçava seu par de sapatos de solado resistente para caminhadas.
O Bosque de Sorveira balançava suavemente ao vento. Muito além dele, escondidas pela névoa da manhã, erguiam-se as montanhas onde, segundo diziam, vivia uma terrível pantera negra de olhos dourados.
Respirou fundo. Talvez os viajantes estivessem certos e fosse realmente uma criatura perigosa. Se sentisse muito medo, ela poderia voltar para casa antes de encontrá-la… Mas também, quem sabe, as estrelas a estivessem conduzindo não até um monstro, mas algo maior, alguma verdade que ninguém ainda conseguira enxergar sobre ela mesma.
Endireitando o enorme laço sobre os cabelos, jogando a enorme mochila nas costas, conferindo se o fogão estava mesmo apagado e trancando a porta, Lady Elowen colocou, pela primeira vez em sua vida, os pés na estrada.
Ela ainda não sabia mas, naquele exato instante, dois olhos dourados observavam discretamente sua partida, muito além da primeira curva da estrada.
Esse post faz parte do BEDA 2026 como integrante do projeto D&B – Os Guardiões da Blogosfera no EntreBlogs. O lulylage.com, sob o codinome Lady Elowen, está participando da categoria Jornada do Herói como Cronista.


Esse post faz parte do BEDA 2026 como integrante do projeto
Adê
Aaai socorro amei demais! Agora tô muito curiosa pro segundo ato e já quero garantir uns brigadeiros pra ler o próximo porque essa leitura me deu muita água na boca por doce! ?
ALINE
Eu ameeeei e agora quero ler todas as aventuras da pequena. Espero que ela consiga enfrentar todos os desafios com coragem.
Vamos ler as cartas pra Anya aqui porque a coisa ta feia rs
Um beijo!
Daniela
Ai que demais! Já quero saber o que vem depois!
Bruna Both
Aiiiiiiii minha deusa Bëwa!!!!!!!! Lady Elowen partiu para sua aventuraaaaaaaa
Estou ansiosíssima esperando o próximo ato!
Arrasouuuuuu