Ao bege voltaremos?

Ao bege voltaremos?

Nascemos de um útero cor-de-rosa, banhados de sangue vermelho, iluminados pelo Sol amarelo que vive no céu azul, pisando na terra firme marrom cercada de folhas verdes. O olho humano padrão é capaz de detectar cerca de 10 milhões de cores ¹ e processá-las num lindo cérebro funcional, cheio de capacidade de explorá-las ao máximo… Ainda assim, de tempos em tempos, essas cores acabam sendo rejeitadas como forma de buscar algo imaginário que promete tornar uns superiores aos outros. Enquanto vejo a cor se esvaindo de lugares onde um dia ela foi dominante, não consigo deixar de me perguntar: se do bege não viemos, por que ao bege acabamos voltando em algum momento?

Caminhei pelo um chão frio de cimento olhando ao meu redor. Bege, tudo, tudo bege. Era tanto bege que conseguia ofuscar o que não o era. Talvez para algumas pessoas a palidez pudesse dar uma sensação de amplitude, não sei, mas para mim era claustrofóbico ser afundada em tamanho vazio. Na teoria da cor que tanto estudei lá atrás, branco é a ausência da cor-pigmento, preto a ausência da cor-luz, mas para mim essa é a não-cor, nenhuma outra mais.

No meio de um monte de coisa que aparentava um monte de nada, um pequeno verde brotava, em uma tentativa corajosa de preservar o que um dia floresceu. Ele parecia deslocado, mas ainda assim triunfante, tive vontade de segurá-lo para ter certeza de que era real, e não uma miragem criada pela minha memória furta-cor que insiste em não esquecer o passado bom. Desejei, na verdade, trazê-lo comigo, para não permitir que se quebrasse jamais, mas soube lá no fundo que era ali que pertencia, e que ali era necessário para, quem sabe, ver tudo novamente se abrilhantar. Um dia?

Quando parti, em passos lentos ao longo da minha cinza cidade, colorida da cabeça aos pés, lembrei a mim mesma que onde não puder me pintar, não devo me demorar. Ainda assim, insistentemente, me veio à cabeça, gritando, a questão que há semanas seguia atormentando aos que estão ao meu redor, que segue sem solução, e sem data para a resposta chegar: para onde vai a cor quando o tom desbota, e para onde vai o amor quando a relação acaba?

Selo do BEDA EntreBlogs 2026. O ícone apresenta uma pasta marrom e uma pena de escrita sobre um círculo bege com borda verde-oliva. Esse post faz parte do BEDA 2026 como integrante do projeto D\&B – Os Guardiões da Blogosfera no EntreBlogs. O lulylage.com, sob o codinome Lady Elowen, está participando da categoria Jornada do Herói como Cronista.

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  • Bruna

    Você escreve bem demais!!!

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  • Nicolle

    Caramba, Luly!

    Você escreve muito bem, prende a pessoa do início ao fim. Bem, infelizmente não tenho como responder a pergunta feita. Como alguém que hora ou outra muda de ideia e não se decide sobre nada, devo dizer que apesar de amar o colorido, há horas que o quero longe de mim por me causar dores de cabeça. Há momentos em que eu só quero…. bem, nada!

    Mas quando um pouco de vida volta, se é que posso chamar assim, sinto falta do verde. Para mim é uma cor que remete a vida. Sempre remeteu. Sinto paz quando olho para o azul, que é a cor do céu. Sinto falta quando olho para o verde, que para mim, é a cor da vida.

    Bem, isso é o que posso responder!

    Abraços,
    Nicolle

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  • ALINE

    Eu tenho dores semelhantes com essa coisa do bege. Estão vestindo crianças de bege por causa dessa estética clean. Eu choro escondida só de pensar.
    Eu preciso da cor porque ela diferencia as coisas. As casas estão iguais, as pessoas estão iguais… porque parece que virou crime deixar as cores aparecerem.

    Eu sigo usando e procurando as cores.
    Um beijo

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  • Bruna Both

    A diferença de quem escreve por hobby e quem é profissional no assunto… nossa! Tô impactada!!!! Só uau <3
    Sabe que isso me fez pensar muito nas casas que hoje em dia são todas cinzas. Minha casa já veio assim e todas as novas construções da vizinhança são cinza e preto. Umas com algum revestimento de pedra, mas a grande maioria em tons "mortos". Aonde foram as casas coloridas? Pátios floridos? Me fez pensar.

    Abração

    responder