A Voz Suprema do Blues

A Voz Suprema do Blues: cena do filme em que Viola Davis, interpretando a cantora Ma Rainey, se encontra ao centro, com uma mão levantada e a outra na cintura, usando um vestido típico da década de 20 em tom neutro de aspecto elegante está posicionada em frente a um microfone, cantando. No canto esquerdo da imagem o ator Chadwick Boseman interpreta Leve, tocando um instrumento de sopro enquanto veste terno de risca de giz. Ao fundo estão outros músicos da banda do filme, todos homens negros. O grupo está dentro de uma sala de cores neutras, apagadas, com grandes cortinas cobrindo as janelas.

A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom) *****
A Voz Suprema do Blues: Poster do filme em que o título em inglês (Ma Rainey's Black Bottom) está no topo e os créditos na parte inferior. Como imagens principais estão os astros Chadwick Boseman e Viola Davis, ele tocando um instrumento e ela posando, ambos vestindo trajes da cor azul marinho típicos da década de 1920 e com ar de luxo. Elenco: Chadwick Boseman, Viola Davis, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Taylour Paige, Dusan Brown, Jeremy Shamos
Direção: George C. Wolfe
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 94 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Ma Rainey (Viola Davis) é a ‘Rainha do Blues’. Ela faz um disco em um estúdio em Chicago, em 1927, mas as tensões fervem entre ela, seu agente, o produtor e seus colegas de banda.” Fonte: Filmow.

Comentários: Adaptado na peça de 1984 “Ma Rainey’s Black Bottom”, seu título em inglês, A Voz Suprema do Blues é um drama centrado na gravação de um dos álbuns da cantora de blues norte-americana Ma Rainey, quando o trompetista Levee demonstra grande ambição de entrar na indústria da música de forma mais ativa, através de suas próprias composições, provocando o resto da banda composta por homens negros de diferentes idades. A duração do filme é relativamente curta para um longa metragem e tem cenário bem limitado, se passando quase todo em apenas um dia, mas o primor da produção, atuações excelentes e temáticas relevantes rendeu cinco indicações à premiação do Oscar que acontece nesse domingo, dia 25, sendo elas Melhor Ator (Chadwick Boseman, em indicação póstuma), Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem e Melhor Figurino. (Atualizado: foi VENCEDOR das duas últimas!)

Mas antes… Senta que lá vem história! Gertrude “Ma” Rainey era conhecida como “A Mãe do Blues” por ser uma das principais cantoras de blues afro-americanas na década de 1920, uma das primeira mulheres a gravar álbuns do gênero. Sua carreira começou na Georgia, onde alegava ter nascido e faleceu, mas migrou para o norte, quando gravou diversos álbuns com a Paramount, em Chicago. Foi casada com Will “Pa” Rainey, também artista, o que deu origem ao seu nome de palco, e era conhecida não só pelo pioneirismo na área em relação ao seu gênero e cor e grande dinamismo performático, mas também estilo de vida controverso sexualmente, com seus casos com pessoas de ambos os sexos, e socialmente, ao se vestir com roupas tradicionalmente masculinas, atitudes consideradas radicais à época.

Apesar de falar da gravação de um álbum real por uma artista real, a trama que gira em torno de Levee, último papel de Boseman, é fictícia. Ele por si só é uma figura BEM interessante, um daqueles personagens profundos que te fazem sentir um pouco de incômodo pelas atitudes, mas tendo isso justificado logo em seguida ao conhecer um pouco mais de sua vida dramática carregada de cicatrizes, físicas e psicológicas. Um jovem que acredita no próprio trabalho em uma época onde negros sequer tinham direitos civis nos Estados Unidos, e apesar de ter estilo diferente da chefe na arte que eles compartilham é clara sua admiração por ela, que consegue ditar ordem até para os homens brancos com os quais trabalha. Essa dupla de protagonistas, lado a lado com um pequeno grupo de coadjuvantes tão incríveis quanto, é, de todos os pontos positivos, o mais admirável. Todos im-pe-cá-veis!

A Voz suprema do Blues: cena do filme em que Chadwick Boseman se encontra em primeiro plano, deitado sobre um banco com a cabeça apoiada em uma melta, e os outros membros da banda do filme estão ao fundo, olhando pra ele, ao lado de seus instrumentos. O quarteto se encontra em uma sala de parede de tijolos expostos e piso de paralelepípedos, com apenas uma pequena janela ao fundo de onde vem a iluminação e toda o ambiente tem tons neutros evidentes, dando detaque para o dourado dos instrumentos de sopro e o amarelo do sapato do protagonista.
A Voz Suprema do Blues: Imagem via Poltrona Nerd.

O roteiro é super forte, levanta muitas questões ativistas relevantes até hoje, complementado parte técnica que não deixa a desejar com sonoplastia excelente, fotografia belíssima e um figurinos característico da década de 1920 bem trabalhado. O visual do filme tem tons sóbrios, até mesmo o céu de verão em Chicago é pálido, quase branco, o que torna os ambientes fechados onde a história se desenvolve abafados, meio claustrofóbicos, mostrando o lado não tão glamouroso da indústria da música na prática. Uma vez que se trata de teatro adaptado para filme, as falas são rebuscadas e longas, combinadas ao sotaque sulista das personagens que intensifica essa característica. Para algumas pessoas imagino que isso seja um incômodo, principalmente nos pontos onde beira o musicado, tornando a pouca duração levemente arrastada. Não me atrapalha, achei que os desfechos surpreendentes fizeram valer a pena, mas entendo quem não gosta muito desse aspecto.

Leia também: 5 artistas (negras) do Renascimento do Harlem que você precisa conhecer!

Pessoalmente esse filme tinha grande apelo para mim porque gira em torno de um assunto que estudo desde o ano passado, o Renascimento do Harlem, conhecido como Novo Movimento Negro, que aconteceu bem nesse período. Apesar de a história não se passar nesse bairro Nova York, o “centro” do movimento, toda a discussão da emancipação cultural e intelectual afro-americana que girava em torno dele era a mesma no país inteiro, e a Ma Rainey era um das suas vozes, no sentido literal e figurado. Acho muito importante continuar falando sobre ele sempre para que a história dessas pessoas não se perca. Além disso, assisti depois e recomendo demais os dois documentários da própria Netflix sobre, Chadwick Boseman: Para Sempre, uma homenagem bem bonita ao ator, e A Voz Suprema do Blues: Bastidores, com mais informações a respeito do que aconteceu de verdade e sa produção em si, valem a pena!

Trailer:

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