Faca de Ponta – Andrea Taubman e Érica Toledo

Faca de Ponta – Andrea Taubman e Érica Toledo

Capa rosa do livro Faca de Ponta, com título e nomes das autoras datilografados em branco com fundo vermelho e o detalhe de um clipe de pasta na lateral. Autoras: Andrea Taubman e Érica Toledo
Gênero: Drama
Ano: 2023
Número de páginas: 168 p.
Editora: Aletria Editora
ISBN: 978-8595260436
Sinopse: “Faca de ponta é um livro que nos hipnotiza pela conexão profunda e apoio mútuo entre duas estranhas. Comecei a leitura me questionando se fazia sentido abrir a intimidade para uma completa desconhecida, mas no final me senti tão envolvida com as dores, angústias e memórias das personagens, que mudei meu questionamento inicial para: seria possível existir alguma mulher que não carregue sua faca de ponta contra os homens e que se sinta plenamente segura? As experiências alheias nos fazem visitar nossas próprias histórias, traumas e dores. E, a partir do momento em que nos reconhecemos nesses relatos, nos sentimos menos solitárias e mais acolhidas diante da condição feminina. É uma leitura necessária, terapêutica e que reforça nossa sororidade e a ideia de que nós mulheres somos ainda mais fortes juntas!” – Thaynara OG

ATENÇÃO! Esse livro aborda temas sensíveis como abuso sexual, violência de gênero e depressão.

“Adélia Prado escreveu: ‘Minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.’ Eu reescreveria: sua raiz vai à minha mil avó. Vai até todas as mulheres que dançam, cantam e gargalham contra o sufocamento.”

Comentários: Em meio à solidão do isolamento durante a pandemia do COVID-19, Clô ensaia uma reaproximação com sua amiga de adolescência, Pulga, a dona do quarto azul onde ela se sentia tão bem anos atrás… Ela envia, então, uma carta para seu mesmo antigo e amado endereço. Quem responde, porém, é Iara, que nunca conheceu nenhuma das duas, mas toma a atitude de deixar claro que a destinatária final não mora mais ali para, quem sabe, conseguir assumir seu papel como correspondente dessa estranha que entrou na sua vida de forma tão inusitada. A troca inesperada das duas vem a calhar para ambas e elas começam uma amizade por cartas sem saber nada uma sobre a outra, mas dispostas a descobrir!

Exemplar do livro Faca de Ponta, de Andrea Viviana Taubman e Érica Toledo, fotografado de cima sobre um tecido roxo texturizado com pequenos corações. A capa rosa claro exibe o título em destaque sobre uma faixa vermelha e uma ilustração preta. Uma caneta tinteiro rosa repousa sobre o livro, enquanto ao fundo aparecem um caderno com estampa tipográfica e um marcador de páginas ilustrado.

Comprei Faca de Ponta por recomendação no estande da Aletria Editora na FLIMinas, que aconteceu em Beagá em junho. Enquanto Nana, minha amiga e comadre, buscava entre os livros infantis deles quais levaria para casa, perguntei se teria algo para mim também, o rapaz de cara me mostrou falando “esse aqui é um livro de cartas, você gosta?”. Naquele momento meu coração tremeu, pois no início da adolescência, época em que mais li ficção na vida, cartas e diários eram minha obsessão, mas fazia anos, quiçá década (!), que não aparecia um assim na minha vida. Além disso a capa é linda (e rosa!), escrito por mulheres, com protagonistas femininas… Essa é a diferença do livreiro pro vendedor, né? Ele te lê de um jeito que SABE o que você vai querer ler também, certeirinho.

“Não bebi. Pouco bebo. Mas aprendi desde muito cedo a me embriagar da minha própria energia e me pôr bêbada dentro do meu corpo, dançante e relaxada.”

A questão é que o estilo agradar não basta, né? A narrativa precisa ser boa, e ela é! Assistir a troca entre Clô e Iara é ver nascer uma relação, com todas as suas etapas, do estranhamento inicial à completa entrega. Elas começam essa amizade sem saber exatamente o motivo de estar começando, mas à medida que conseguem se considerar dessa maneira tão bonita e especial, abrem suas feridas mais profundas uma à outra, se permitindo, quem sabe, iniciar o processo de cura de machucados antigos que seguem latentes. Daí vem o o título “Faca de Ponta”, da necessidade das duas, e de mulheres de modo geral, de se armar em voz alta como forma de defesa para com as várias superfícies pontiagudas do mundo.

Livro Faca de Ponta, de Andrea Viviana Taubman e Érica Toledo, aberto sobre um tecido rosa texturizado com pequenos corações. A fotografia destaca uma página do romance com um trecho iniciado por Tá boa, Iara?, impresso em fonte que remete a máquina de escrever. Ao fundo aparecem um caderno com estampa tipográfica em preto e branco, uma caneta tinteiro rosa e um marcador de páginas ilustrado com o retrato estilizado de uma mulher.

A história de Clô é dolorida de ler, de verdade, Sua vida é tão profundamente arrasada pelos mais diversos tipos de abuso que a vontade é arrancá-la das páginas para dar um abraço. Desde criança, ela vê homens se impondo como figuras de imposição e poder, e isso parece ter afetá-la em relações que construiu com todos ao seu redor. Ela nos entrega suas dores de amor se transformando na dor da maternidade, e por mais que dê para perceber que existe a “culpa” por parte dela nesse aspecto, é uma pessoa com tantas camadas, tão profunda, que a vontade não é de julgar e sim ENTENDER como, quando e principalmente por que chegou ali, no ponto onde a conhecemos.

“A resignação é um anestésico, paliativo que diminui a dor aguda. Enterrei meus talentos e entendi que precisava me miniaturizar para sobreviver. Virei bonsai.”

A vida exposta por Iara é mais branda, sim, mas nem de longe rasa. Ela também precisa carregar suas facas de ponta no modo de lidar com a opressão de gênero, feminilidade, maternidade, por aí vai, e ao fazer isso, ao abrir suas questões, o faz sem nunca tirar o peso das costas de Clô e colocá-lo nas suas. O objetivo é torna-la mais leve! Ela vem como o canto da sereia do qual pegou o nome emprestado, alento em relação ao destrutivo, tentando dividir essa carga sabendo que é coadjuvante dela… Mesmo porque, como já dito, tem lá seus pesos a equilibrar, sabendo que podem não ser tão pesados quanto, mas que isso não os torna indignos da dor que ela sente, às vezes.

Fotografia do livro aberto em uma página azul que antecede uma carta manuscrita reproduzida na narrativa. Sobre a página repousa uma caneta tinteiro rosa, reforçando a temática da escrita presente na obra. Ao fundo aparecem parcialmente um caderno com estampa tipográfica, papéis utilizados como marcadores de leitura e um marcador ilustrado.

As correspondências são escritas e respondidas ao longo dos meses e você, realmente, não sabe onde aquilo vai parar. Elas vão se encontrar pessoalmente? Vão se afastar com o tempo? Difícil dizer. E por mais que coubesse um final em aberto, ou um clichê, quem sabe, as autoras conseguem trazer uma pequena reviravolta, que surpreende e aprofunda ainda mais a história, se é que é possível. Faca de Ponta é na medida certa do começo ao fim, uma leitura que se complementa com o visual belíssimo da edição! O aspecto físico das cartas, do material usado nelas, dos pequenos desenhos e rasuras que surgem ao longo da escrita, deixam aquela realidade ainda mais palpável, como se a destinatária real, no fim das contas, fosse eu!

“Amigo é aquele interlocutor raro a quem a gente se confessa, a quem a gente concede a visão secreta das nossas frestas, sem receio de dardos no olhar.”

Andrea Viviana Taubman nasceu em Buenos Aires, na Argentina, mas mora no Brasil desde os 7 anos. Hoje aos 61 anos, é palestrante, tradutora, contadora de histórias e autora de livros que dialogam lindamente com o público infantil e jovem de maneira sensível para tratar de assuntos sérios, como em “Não me toca, seu boboca!” e “A escola que quero pra mim”. Nas redes sociais pode ser encontrada no Instagram @andreataubmanescritora e site andreavivianataubman.com.br. Érica Toledo, por sua vez, é psicanalista, mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG, jornalista e escritora, cujos textos curtos podem ser lidos nas coletâneas “Sanguínea” e “Vida afora, porta adentro”. Para conhecê-la melhor é só acessar o perfil @ericatoledo_ do Instagram.

Selo do BEDA EntreBlogs 2026. O ícone apresenta uma pasta marrom e uma pena de escrita sobre um círculo bege com borda verde-oliva. Esse post faz parte do BEDA 2026 como integrante do projeto D&B – Os Guardiões da Blogosfera no EntreBlogs. O lulylage.com, sob o codinome Lady Elowen, está participando da categoria Jornada do Herói como Cronista.

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  • Lunna

    Não conhecia o livro, mas fiquei atraída pela proposta. Adoro ler cartas tanto quanto de escrever.
    Tomei nota aqui. Quem sabe vira leitura neste agosto insano em que temos Beda. Achei interessante a jornada do herói. Mas para esse Beda escolhi um tema: crisálidas.

    bacio

    responder
  • Bruna Both

    Oiii Luly!
    Adorei tua indicação… esses livros no estilo de cartas me lembram muito do ‘Diário de Anne Frank ‘e ‘Os sofrimentos do jovem Werther’. Ir seguindo as correspondências, sem saber do que esperar no fim <3

    Te desejo um ótimo agosto e um BEDA lindo, cheio de criatividade e interações!
    Abração

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  • ALINE

    Esse livro parece ser a coisa mais linda de intenso e imersivo.

    Fiquei muito curiosa pra conhecer essas mulheres.

    responder