“Ninguém mais tem blog”

Retrato de Luly Lage, uma menina de pele clara e cabelos escuros partidos ao meio, aos 15 anos, em janeiro de 2006. Ela está sentada em uma cadeira branca, abraçada nas pernas com os pés sobre o assento, sorrindo, vestindo uma camiseta e calça de cores vibrantes. Em sua frente, aparecendo apenas parcialmente na foto, está um computador preto.

Nunca escondi que tenho blog. Comecei ao lado de uma amiga que fez a mesma coisa na mesma hora e nós duas saímos distribuindo links daquele e dos que tivemos depois. Passou um tempo e ela parou de postar, enquanto eu fui tocando o Sweet Luly infinitamente, e sigo até hoje. Porém durante um época no colégio, onde ninguém falava comigo e eu nem sentia mesmo muita falta, não tinha PRA QUEM passar o link do blog mais, e já tinham caçoado tanto de todas as (poucas) coisas que sabiam sobre mim que achei melhor deixar esse aspecto tão importante da minha vida limitado a quem importava, mesmo, e os outros que ficassem no limbo da desinformação em relação às Lulyces. Mesmo porque era aqui o lugar onde eu me sentia segura pra ser eu mesma, e às vezes o medo da rejeição nos atrapalha em ser exatamente isso.

Lembro direitinho, porém, do dia que contei pra alguém ali sobre pela primeira vez. No meio do recreio de uma manhã qualquer estava conversando com a nova (e agora velha) amiga Amayi sobre as graduações que a gente REALMENTE queria cursar, ela Letras, na qual hoje é Mestra, eu Design Gráfico, que não aconteceu de fato, mas esse é outro papo. Falei que essa vontade nasceu de um hobby onde edição e criação de imagem eram importantes e ela, sorrindo, perguntou “Você tem blog?”. Exitei por 1 segundo e confirmei, recebendo em resposta “Eu tinha também!”. Amayi Mimmy já me fez sentir incluída e querida várias vezes, mas aquela foi a mais marcante de todas, bateu a típica vontade canceriana de chorar ali mesmo. Seguimos o blá-blá-blá e no dia seguinte ela me contou que tinha visitado o blog e que bateu a vontade de voltar a ter um.

Alguns dias depois, numa aula de literatura, onde a gente estava estudando diversos gêneros textuais, a professora Lucy pediu pra o abrirmos o livro em uma página específica e ouvi uma voz do meu lado, “Aí, Luly, sua matéria!”. Quando abri o meu, lá estava: O Diário e o Blog. Meu coração até tremeu. Naquele dia eu estudaria a teoria por trás da minha prática favorita. Tão logo começou, alguém cujo nome não precisa jamais ser mencionado aqui levantou a mão, numa das carteiras da frente, pra perguntar onde estava o “flog” nessa lista, porque aquela, sim, era a maneira atual de escrever na internet. Enquanto várias pessoas tentavam explicar à professora confusa o que era um flog essa menina soltou, com deboche, “Ninguém mais tem blog!”. E dessa vez quem levantou a mão, lá da última carteira, fui eu.

Só quem me conhecia na época sabe o que significava eu estar disposta a opinar durante a aula por livre e espontânea vontade. Eu não conseguia falar direito nem quando isso era requisitado, num misto de timidez e ansiedade que vivo combatendo até hoje. A essência extrovertida que eu sei que tenho e lutei muito pra construir e botar pra fora de vez brigava ali mais do que nunca com essas características, e se eu me dispunha a rebater quem vinha há um ano me fazendo tão mal é porque tinha realmente algo a dizer. E disse. Disse que blog e flog eram duas categorias de plataforma tão diferentes que sequer deviam ser colocadas num mesmo exemplo. Que um blog era tão editável que podia ter papel de portal, se programado dessa forma. Que MUITA gente ainda tinha e até já trabalhava com isso.

Mesmo lá de longe eu consegui ver, e nunca consegui esquecer, o sorriso da Lucy se abrindo em me ver não simplesmente contribuindo pra aula, mas claramente me defendendo no meio dela. Lembro de quando ela me fez a mesmíssima pergunta feita pela Mimmy alguns dias antes e que, agora, a resposta positiva saiu da minha boca sem exitar. “Eu tenho um blog, sim!” Lembro de ter continuado participando daquela aula com informações que ela mesma, a professora, não sabia. E lembro de, nos 16 anos que se passaram desde então, ter que avisar às pessoas por aí, com frequência, que os blogs não morreram e que continuamos aqui. Depois do Fotolog ele foi supostamente substituído também pelo Orkut, Twitter, YouTube, Instagram e suposições vão continuar, enquanto essas rede vão vindo e até indo sem parar. E ainda assim, não tem erro, nós continuamos aqui.

Já ouvi vindo de quem desistiu do seu tendo crescido com ele ou não, de quem cresceu e ainda o mantém, de quem vive dizendo que quer voltar e nunca dá esse passo. Continuo discordando. Talvez eu seja cabeça, dura, mesmo, mas vendo tanta gente querida lutando contra algoritmos de redes sociais, tento eu mesma que fazê-lo, fica difícil achar que a melhor opção é mesmo entregar o que a gente produz pra terceiros decidirem por conta própria o que fazer com isso. Nana-nina-não! Não vou jogar muito trabalho de anos fora tendo a chance, por exemplo, do Instagram “surtar” e mandar pro espaço. Eu sou dona do que escrevo, conheço quem faz o mesmo e vejo cada vez mais gente percebendo e migrando de volta. Gente que vai e quer ficar, que veio só olhar, a sorrir e a chorar¹. E assim blogar e partir!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o segundo, referente a 2005!

Ninguém mais tem blog | Dia 01 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

¹ Milton Nascimento. Encontros e Despedidas. Encontros e Despedidas. Rio de Janeiro: Estúdios PolyGram, 1985. Faixa 1, Lado B.

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7 Comments

  1. Sempre que surge uma rede social nova que pode ser usada como meio de se expressar, logo surgem pessoas falando que isso vai decretar o fim dos blogs. Só que já vieram tantas plataformas novas e isso não mudou o fato de que os blogs continuam resistindo. Estou no mundo dos blogs desde 2010 e já passei da fase de falar para todo mundo que eu tinha um blog, depois pela fase de não falar para ninguém e hoje em dia meio que fica bem óbvio que tenho um blog rs
    E não só tem gente que gosta de escrever em blogs, tem gente que gosta de ler também, pois é bem mais prático você conseguir a resposta de algo em uma postagem de mil palavras do que num vídeo de 5 minutos.
    beijos

    1. Oi, Tay!
      Sempre que alguém começa com essa história do fim dos blogs eu falo exatamente isso que você falou: já escutei isso mil vezes, sempre que algo bomba. E se você precisa pesquisar algo no Google, desde sempre e até hoje, tem grandes possibilidades de um blog ser fonte de informação ou o pontapé disso, né? Ainda somos uma fonte forte de opinião e seguiremos sendo!
      Que bom que continuamos aqui!

  2. Conheci uma pessoa recentemente que não só não sabia que blogs existem como ainda me perguntou “como é que chamava a pessoa que escrevia aqueles diários virtuais?” quando eu respondi blogueira ela ficou duvindando, porque blogueira pra ela era do Instagram rsrs

    Assim como você eu sigo escrevendo blog, a única diferença é que eu nunca fui de divulgar meu blog pra todo mundo. Sempre foi um segredo meu, que as pessoas da internet sabiam. Ultimamente tenho divulgado mais. Coloquei um programa pra mandar os links pro twitter, e alguns amigos meus de lá acabam acessando e lendo. Sempre me expus tanto naquele espaço que eu tinha medo da exposição por lá me prejudicasse na vida offline de alguma forma, mas aos poucos estou me sentindo segura pra expor isso

    Muito bom seu texto, e muito bom saber que tem gente que segue resistindo e escrevendo. Acho que seu blog é um dos mais velhos que já vi, 17 anos dá uma pessoa quase maior de idade rs Parabéns pelo aniversário do blog!

    1. Oi, Marina!
      É difícil isso de misturar nossa vida virtual com a… “Analógica”, né? Nem chamo de vida real porque a virtual também é real. Às vezes eu sinto dificuldade em alguns contextos até hoje porque acho que no blog a gente fica muito confortável em ser lida por estranhos e esquece que os conhecidos também querem nos conhecer. Que bom que a segurança vem vindo pra você…

      E, menina, sempre que alguém usa o termo “blogueira” pra algo que não tem NADA A VER com “ter um blog” eu me faço de burra até a pessoa lembrar com que tá falando, hahahaha!

  3. Ahh que ideia bacana transformar esse mês de aniversário do blog em algo especial e cheio de postagens que contam a sua trajetória e consequentemente a trajetória do blog!
    Eu já tive diversas fases com o meu, já pensei nele como um hobbie que nâo contava pra ninguém, já pensei e trabalhei por um tempo com ele, mas hoje, depois de me distanciar um pouco venho com uma abordagem mais slowblogging (vi esse termo e me identifiquei), quero postar com mais liberdade, pensando mais no que eu quero escrever do que nas métricas do analytics, acho que pensar em algoritmo mata a minha inspiração como ocorreu com o instagram. E você está certa, nada como sermos donas do nosso espaço, redes sociais são legais (até certo ponto), mas nada como ter o nosso bloguinho com a nossa cara!
    Um beijo

    1. Oi, Dai!
      Eu também passei por várias fases por aqui e acho que ainda vou passar por várias outras… Acho que o mais importante é a gente se adequar ao que o momento nos pede, né? É isso que você disse, nos permitir a ajudar a inspiração a vir, tem que fazer sentido!

      Eu confesso que queria ligar mais pras métricas e algoritmos, até tento e sei que me ajudaria muito me aprofundar nisso, mas sempre me deixo levar pelo que quero…

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