Gola careca e nós atados

Foto de duas mãos fechadas, se tocando, usando alianças de noivado no dedo anelar. A mão masculina pertence a um homem negro e feminina a uma mulher branca.

Cecília ouviu Patrick chamando seu nome e tirou os olhos da tela do celular ao mesmo tempo que ia se levantando do banco do shopping no qual estava sentada. Ai, como ele estava lindo! Usava uma camisa de gola careca azul marinho que ela tinha dado de presente no último Dia dos Namorados e calça jeans de lavagem escura, do jeito que sabia que ela gostava. Eles se beijaram rapidamente e já foram andando de mãos dadas rumo ao cinema para imprimir os ingressos comprados anteriormente pela internet. Comentavam alegremente sobre a festa de casamento de Pilar e Jonathan, primo dele, que tinha acontecido naquele fim de semana. A festa foi linda, eles dançaram a madrugada toda e o buquê, que ela conquistou com bravura na hora que foi arremessado pela noiva, estava em cima da mesa da sua casa, murchando lentamente, mas com ar de troféu.

Assistiram a um filme de animação muito emocionante, daqueles que divertem as crianças enquanto causam muito pesar aos adultos que entendem a mensagem por trás das piadas. O dois sussurravam algumas coisas, tomando cuidado pra não incomodar o resto do cinema, que não estava muito cheio. Dividiam um pacote de discos de chocolate, preferiam não comer nada mais pesado porque os planos incluíam um jantar mais tarde, e quando os créditos finais começaram a subir pela tela, se preparando pra levantar e jogar a embalagem fora, uma criança surgiu, de repente, comentando o filme com os pais sem vê-los ali, derrubando o resto do conteúdo do copo de refrigerante em cima do rapaz.

Cecília se preparou pra falar “Tudo bem!” pro pedido de desculpas que viria em seguida, mas a reação de Patrick foi completamente inesperada: ele ficou muito bravo. Não falou nada com a criança em si, que de fato parecia muito envergonhada, mas saiu do cinema bufando, irado, murmurando todos os xingamentos que conhecia. Ela pediu que mantivesse a calma, afinal era só um pouquinho de refri, mas por algum motivo ele ficou transtornado mesmo com a camisa suja. Sugeriu que fosse ao banheiro se limpar antes do jantar, mas a reação foi tão incomum que nem clima para jantar ele sentia mais. Conversaram por alguns minutos no corredor do shopping sobre isso, desanimados, e decidiram ir pra casa dela, pedir algo pra comer lá mesmo, melhor fechar a noite logo de uma vez.

Dentro do táxi Cecília acessou o site onde tinha comprado aquela camisa, Key Design, e pediu logo mais um kit com três. Não fazia sentido algum ele ter reagido daquele jeito! Todo bem que gostava da peça, mas se exaltar tanto por causa de um molhadinho de nada a ponto de nem querer jantar? Ela não conseguia entender, mas mostrou pra ele a tela com o pedido confirmado, esperando que se animasse. Ele sorriu e agradeceu, “Poxa, amor não precisava!” e ficou em silêncio em seguida, sem falar mais nada o caminho todo. Esquisitíssimo. Viu pelo canto de olho que pegou o próprio telefone e começou a pedir algo para eles comerem, mas sem nem a breve troca de “Escolhe você!” que era parte tão frequente do cotidiano deles. Nada ali fazia sentido.

Chegando em casa ele foi correndo trocar de roupa, colocando uma camisa de outra cor, com ela atrás querendo entender o que estava acontecendo. Ele tentou desviar, indo em direção à sala e falando que depois do jantar conversariam, mas Cecília insistiu. Patrick era o cara mais legal do mundo, jamais deixaria uma noite gostosa terminar daquele jeito. Ele então, de repente, tirou uma caixa de alianças no bolso, explicando que queria tudo perfeito, mas já que ela insistia tanto, o pedido seria feito ali, mesmo, sem obedecer ensaio, fora do restaurante amado e usando uma cor que não era sua favorita. Ela ficou olhando sem acreditar, com os olhos cheios d’água, enquanto ele colocava o anel em seu dedo dizendo que já era hora de se casarem. Ela concordou, retribuindo o gesto. Na mesa, o buquê parecia sorrir de alegria, mesmo que não tivesse um rosto para fazê-lo.

Foto de um homem negro, que mostra do nariz ao peito, usando uma camisa de gola careca azul. Sua mão direita está na frente do corpo, tocando o ombro esquerdo, e ele usa pulseiras artesanais.
Camiseta de gola careca sem bolso azul marinho.

Psiu! Prest’enção! Esse post é uma publicidade da Key Design. Você pode conhecer os produtos no site da loja e em redes sociais como Facebook, Instagram, Pinterest e canal no YouTube.

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o sétimo, referente a 2010, inspirado em um sonho que tive na época.

Gola careca e nós atados | Dia 07 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Minha relação com a maquiagem

Foto de Luly Lage aos 3 anos, vestindo um macacão curto e marias-chiquinhas nos cabelos, segurando um estojo de maquiagem infantil na mão direita. Ao redor da foto, que é analógica, foram colocados itens de maquiagem já de adulta, todos em tons de rosa e vermelho, formando uma moldura.

Não sei precisar exatamente quando comecei a gostar de maquiagem, mas existe uma foto minha já aos 3 anos (acima) segurando um daqueles estojinhos de maquiagem infantil, sobre os quais hoje não sei se tenho opinião formada, e mais do que isso, tenho memórias dessa época, quando minha tia trabalhava com estética e tinha estojos gigantes com todas as cores possíveis na sala onde atendia. Ela me ensinou, bem superficialmente e só pra eu achar que sabia como fazer, que devia passar o tom de sombra mais escuro em baixo e mais claro em cima, é claro que provavelmente ficava pavoroso, mas eu me achava. Um pouco depois, lá pros 6, 7 anos, descobri que minha mãe tinha um batom vermelho em cima da pia do banheiro e às vezes, quando ela não estava em casa, subia ali pra passar, achava que ficava bonito demais – e ainda acho.

Minha primeira maquiagem não infantil foi justamente um batom vermelho da Avon, sabor morango de uma linha da Angélica que a marca tinha no início dos anos 2000. Eu era muito tímida e jamais usava na escola ou na frente dos meus amigos, mas dentro de casa era o tempo inteiro. Tinha também um potinho de glitter, que nem sei se era adequado para tal, pra passar nos olhos nas apresentações do coral e festinhas, logo quando rolou o boom dos gloss em roll on e NOSSA, era indispensável! Meus sabores eram menta e limão, tive vários desses dois, retocava horrores enquanto jogava Maquiagem Virtual da Barbie, meu jogo favorito da época por motivos óbvios de temática e personagem. A Barbie era um ícone pra mim e nunca fui desses crianças que rabiscavam as bonecas porque já as achava impecáveis, não conseguia estraga-las, fazia só no digital, mesmo…

Passei a maior parte da adolescência querendo aprender a usar maquiagem, com alguns itens na caixa destinada a isso e sem muita coragem de me aventurar. No último ano do colégio, com o vestibular batendo na porta, eu queria muito alguma cosa pra me distrair no momentos de descontração durante a semana, tendo ainda internet discada que reduzia meu tempo de blog e MSN aos fins de semana e feriado. Foi quando encontrei um MUNDO de produtos da minha mãe que ela nunca usava, porque não liga tanto pra isso, guardado no armário do banheiro. Sério, a maioria estava nova, esperando por mim. Descobri que maquiagem era algo muito maior que sombra-blush-batom, aprendi o que gostava e o que ainda não sabia, acordava mais cedo pra ir pra escola parecendo uma versão baixinha da Barbie (olha ela aqui de novo). Nesse ponto, pronto, estava APAIXONADA!

Em 2019, já na faculdade, eu sabia muita coisa de forma amadora, mas queria mais, então fiz meu primeiro curso de auto maquiagem da vida. Ele era bem curtinho, mas virou posts aqui no blog (um sobre rosto, outro sobre olhos) e muitas informações na minha cabeça. Redescobri o que me agradava e acima de tudo que continuaria assim, mudando de gosto quando preciso. Em seguida ganhei no Top Comentaristas do Mês do Just Lia uma sombra solta roxa, incrível, e como não sabia usar recorri ao YouTube, que já estava se tornando um amigo na hora dos penteados. As YouTubers de maquiagem foram um mundo que se abriu diante dos meus olhos e mais uma vez fiquei encantada por uma nova coisa dentro do velho encanto. Dois anos depois comprei meu primeiro batom caro, o M.A.C. Red, e aí batons vermelhos se tornaram, pra sempre, minha marca registrada!

Desde então ensaiei aqui e ali trazer esse amor pra produção de conteúdo, algumas deram certo e renderam bons frutos, mas algo em mim relutava em levar adiante. Várias vezes nos últimos anos, ao aparecer maquiada em algum lugar ou mesmo maquiar alguma amiga, ouvi “Por que você não vira maquiadora?” e nem eu mesma sabia a resposta, até que me peguei admirando um paleta que ganhei de presente um dia e finalmente entendi. Todas as coisas que gosto na vida viraram trabalho pra mim em algum momento, de forma ampla ou pontual, e por mais que eu seja 100% aquele tipo de pessoa que visa trabalhar com o que gosta, parecia que ia me “tirar” o último dos prazeres, sabe? Claro, posso pagar língua em relação a isso semana que vem, e se for o caso, faço, mas por hora prefiro manter o encantamento não só ao usar, mas mesmo quando tiro um tempinho pra OLHAR pra elas, tamanho é meu carinho por cada produto, querendo um o outro a mais, mas sempre satisfeita com todos!

Mesa de maquiagem composta por uma caixa azul marinho maior, onde há vários itens variados colocados desorganizadamente em cestas de plástico, uma caixa menor com paletas de sombra, uma cestinha maior com uma caneca de pincéis e itens variados e uma necessaire pequena, onde se vê mais maquiagens.
Meu cantinho de maquiagem, esperando pelo dia em que teremos uma penteadeira nesse quarto para ficar oficialmente completo.

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o sexto, referente a 2009.

Minha relação com a maquiagem | Dia 06 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Livros amarelados: Por que isso acontece? Como evitar? Dá pra reverter?

Livros amarelados: por que isso acontece? O que fazer para evitar? Tem como reverter? Textos sobre um quadrado branco, ao fundo, em preto e branco, uma pilha de livros não identificados um sobre o outro.

Depois de muita revolta com informações equivocadas sobre cuidados com livros que vi rodando pela internet, principalmente entre pessoas que produzem conteúdo literário no Instagram, Youtube e Twitter, resolvi que era hora de falar sobre isso eu mesma, porém com o embasamento científico de quem é realmente conservadora-restauradora com formação focada em bens em papel. Eu sei que as pessoas não têm má intenção ao compartilhar suas experiências no assunto, às vezes até pesquisam sobre e só visam ajudar os outros, mas quando alguém faz isso usando expressões como “conservação” e “restauração” acabam propagando que esses processos se resumem a isso, o que não é verdade porque várias dessas práticas podem, a curto ou longo prazo, até mesmo piorar a situação a acelerar o processo de deterioração deles.

E começando pelo que sinto que mais incomoda as pessoas, principalmente por acontecer com maior frequência com publicações de algumas editoras específicas, vamos falar hoje sobre livros que vão ficando amarelos com o tempo. Vou confessar que eu, pessoalmente, sou uma leitora e restauradora discípula, de forma bem leve, de John Ruskin que vê o processo de deterioração como algo natural que faz parte da história e materialidade das coisas, mas a partir do momento que a função fica comprometida por isso começa a ser realmente um problema pra mim… O amarelado em si impede um livro de exercer seu papel? Não! Mas pra outras pessoas que se importam com o visual sim, então vamos entender por que isso acontece, aprender como evitar ao máximo e conversar sobre o que pode ou não ser feito para reverter.

Por que meus livros ficam amarelados com o tempo?

Não podemos esquecer que o papel é feito de celulose, ou seja, é matéria orgânica! Assim como acontece a gente, a celulose sofre oxidação com o passar do tempo pelo simples fato de estar em contato com o oxigênio. E o componente associado à celulose que faz parte da parede celular dela e causa esse amarelamento com o tempo é uma macromolécula chamada lignina. É ela que dá o tom amarronzado da madeira e também que a torna forte e resistente, mantendo árvores fortes e em pé por anos e anos. À medida que vai oxidando, a lignina do papel vai apresentando esses tons mais escuros que tendem para o amarelo ou mesmo marrom. Sendo assim, quanto mais lignina tem um papel, mais rápido fica amarelo. Ela é o problema, mas muito necessária!

Psiu! Pres’tenção! Apesar da oxidação ser natural e não apresentar realmente danos à nossa saúde, alterações de cor de aspecto mais duvidoso, associadas a manchas de umidade, em relevo ou com tons que tendem para o esverdeado podem ser, na verdade, sinal de fungo ou outros micro-organismos! Tome cuidado ao maneja-los porque aí sim trazer problemas!

Existem outras formas de tonar um papel resistente sem isso, mas são processos que encarecem o produto final, é claro. É por isso que materiais como papel jornal, que precisa ter baixo custo e ainda assim boa resistência, ficam amarelos tão rápido! Não tem nada a ver com a editora, o fato de ser matéria prima nacional ou má qualidade, é só um processo químico natural como qualquer outro! Inclusive, abaixo, fica a prova de que livros importados também ficam amarelos: nela estão minhas duas edições do livro “O Amor é a Cura”, do Elton John, que chegaram aqui mais ou menos da mesma época. A britânica (Love Is The Cure) ganhei da Elton John AIDS Foundation no fim de 2012 está com o corte todo amarelo, enquanto a brasileira da Amarilys, ganhada na mesma época em um amigo oculto, segue branquinha como se estivesse nova.

Foto vista de cima dos livros, onde Love Is The Cure apresenta corte oxidado e O Amor É A Cura ainda está branco.

Como evitar ou reverter essa situação?

A melhor maneira de evitar que seus livros fiquem com as páginas amarelas com o tempo é a prevenção. Claro, não tem como você evitar que ele entre em contato com o oxigênio em si, mas alguns agravantes podem ser destacados, a maioria deles de ação irreversível. A luz e o calor são os piores, por isso mantenha seus livros sempre longe do Sol, em local arejado, onde eles possam “respirar”. Se você não tiver onde armazena-los longe de janelas é interessante colocar pelo menos algum pano cobrindo essa luz nos horários onde é mais forte, o Sol realmente é um grande inimigo da preservação de livros. Até a maneira de organizar a estante é importante, tentando deixar um espaço mínimo entre eles e de distância do fundo, para que o ar circule ali.

Ao contrário do que muita gente pensa, guardar os livros em sacos ou filme plástico não é legal, porque abafa e aumenta o calor e pode causar microclima do jeitinho que fungos e bactérias gostam, principalmente em locais muito úmidos. Também torna mais difícil ver se tem algo de errado acontecendo, ataques de traças e afins. Para manter os livros longe da poeira, que pode contribuir pra oxidação, o ideal é limpa-los com pano seco, pincel e/ou trincha macia, sem produtos molhados ou com cheiro. O mesmo vale pra estante, principalmente se for de madeira! Se tiver alguma sujeira mais resistente é legal ralar um pouquinho de borracha branca e passar no lugar, mas cuidado com as regiões de tinta porque pode acabar apagando junto. Por fim, se possível, é bom não deixa-los onde tem muita umidade, mesmo sendo algo mais difícil de controlar.

Posso lixar ou pintar o corte dos livros?

E agora vamos pra parte mais sensível do post, que é onde surgiu toda minha revolta com o compartilhamento de informações equivocadas sobre o assunto… Virou um costume forte lixar os cortes de livros que ficam amarelados com o objetivo de mantê-los com aparência renovada e limpa, mas chamar isso de conservação ou mesmo restauração é um erro muito grande, porque pode fazer muito mal! Com a lixa acaba acontecendo quebra na fibra do papel, nesse caso em todo o corte, fazendo com que seja mais fácil acontecer acidentes ao folear, deixar cair e afins, aumentando a possibilidade de rasgos. Além disso não impede que a oxidação continue acontecendo, então o problema vira uma reação em cadeia. Alguns restauradores o fazem, sim, mas com muito mais técnica e experiência que um leigo. Eu, particularmente, não gosto e não uso a lixa pra esse fim.

Pintar os cortes também é problemático, uma vez que apenas tampa o lugar e sequer tira a parte oxidada! Dependendo da composição da tinta que você usa pode acontecer reação química e estragar o papel, com o mesmo problema citado anteriormente da quebra da fibra, e ainda atrair mais sujeira, sendo mais difícil de limpar. Melhor não, né? E mesmo se for feito é importante saber dos riscos que você está assumindo e, claro, não chamar das expressões citadas antes, que se referem a processos que devem ser feitos com conhecimento científico prévio. Acima de tudo é importante aceitar que eu, vocês e os livros, todos oxidamos! Faz parte do lindo processo de envelhecer e o conteúdo que existe ali dentro – tanto pra eles quanto pra pessoas – é o que realmente importa, mais que a carcaça!

Conteúdo em vídeo

Para mais conteúdos sobre esse assunto vocês podem acessar a categoria Conservação-Restauração aqui no blog ou a playlist Preservação de Livros no meu canal do YouTube. Em ambos os lugares vocês encontram mais relatos sobre o curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da UFMG!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o quinto, referente a 2008, ano em que entrei na faculdade!

Livros amarelados | Dia 04 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Quando Dancing Queen se tornou minha música favorita

Museu Jeca Tatu: teto do museu, com telhas aparentes, onde estão pendurados diversos discos de vinil variados, de maneira aleatória

Que Dancing Queen, do ABBA, é um baita clássico dos anos 70 todo mundo sabe, principalmente pra quem adora essa vibe discoteca, e eu provavelmente já tinha dançado com ela várias vezes antes do dia memorável em que uma chavinha no meu cérebro virou completamente aos 14 anos. A culpa, por assim dizer, foi da minha mãe, que na época queria MUITO fazer pra mim uma festa de 15 anos, e inspirada colocou pra tocar no som lá de casa falando que era uma música que queria que, quando tocasse na minha suposta futura festa, eu aproveitasse mais que todas as outras. E aí, não sei explicar, mas a música “bateu” em mim, sabe? Percebi que eu já estava aproveitando naquele momento, de moletom sentadinha na cadeira do quarto, então coloquei no “Repetir” e ouvi várias vezes seguidas pra aproveitar tudo de novo e de novo.

Não sei quanto tempo depois a resposta para “Qual sua música favorita?” se tornou automaticamente “Dancing Queen, do ABBA” na minha vida, mas com certeza foi quase instantâneo. Sei disso porque quando os 15 anos chegaram, sem a festona que tinha sido planejada, mas com uma festinha em família que pra mim era MUITO melhor, a primeira coisa que fiz foi coloca-la pra tocar pensando “Bom, agora faltam só dois anos!”, porque eu só queria ter 17 logo pra poder me referir a mim mesma como “young and sweet, only seventeen”. E, num piscar de olhos, 10 de julho de 2007 chegou com essa gloriosa idade. Acordei um pouco mais cedo antes de ir pra escola fazer as últimas provas do semestre e coloquei ela pra tocar, baixinho por causa do horário, mas com a certeza de que os 12 meses seguintes seriam demais!

E foram, mesmo! Os 17 foram muito, muito gentis comigo! Foi nessa idade que me formei no colégio, entrei na faculdade e terminei meu primeiro semestre com todas suas primeiras experiências de caloura, que fui à primeira peça de teatro que não era infantil na vida, fiquei mais loira do que nunca e acabei voltando a ser morena. Em todo esse processo essa música esteve presente, deixou os momentos bons ainda melhores e os ruins até suportáveis. Eu até pensei em eternizar meu “modo Dancing Queen” fechando os 17 com uma festa de 18 anos temática da música… Já pensou? Todo mundo de salto plataforma, macacão decotado beeeem colorido e brilhoso, escapulário de ouro no peito e as mãos fazendo movimentos de apontar pra cima e pra baixo sincronizadamente, dançando não só ela como todas as outras… Seria meu sonho?

Montagem com imagens de seis itens de vestuário/acessórios, conforme descrito baixo no corpo da postagem, em fundo geométrico, montando o visual desejado para a suposta festa citada.
Macacão rosê brilhoso + Botinha branca + Tiara branca no cabelo + Anel de coroa com corações (afinal, seria a RAINHA da dança, né?) + Anel de cordinha + Escapulário Pequeno.

Bom, a festa em questão ainda não rolou na minha vida, mas isso não me impediu de montar um lookinho que usaria se pudesse fazê-la em algum momento… Afinal o favoritismo musical permanece! Além dos acessórios da Aubra Jóias temos MUITO brilho cor de rosinha e detalhes em branco porque tenho gostado bastante dessa cor… Quem diria! Olha, eu não pensava nisso há muitos anos mas agora, depois de escrever, montar visual e relembrar, tendo em vista que meu aniversário (de 31!) tá chegando, deu até vontade de fazer uma festinha (virtual, é claro) com essa temática… Quem aí ia amar receber um convite e poder se caracterizar da sua própria versão dos membros do ABBA também?

Psiu! Prest’enção! Esse post é uma publicidade da Aubra Jóias. Você pode conhecer os produtos da marca visitando não só o site oficial, mas também redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter e canal do YouTube.

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o quarto, referente a 2007!

Quando Dancing Queen se tornou minha música favorita | Dia 04 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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“Ninguém mais tem blog”

Retrato de Luly Lage, uma menina de pele clara e cabelos escuros partidos ao meio, aos 15 anos, em janeiro de 2006. Ela está sentada em uma cadeira branca, abraçada nas pernas com os pés sobre o assento, sorrindo, vestindo uma camiseta e calça de cores vibrantes. Em sua frente, aparecendo apenas parcialmente na foto, está um computador preto.

Nunca escondi que tenho blog. Comecei ao lado de uma amiga que fez a mesma coisa na mesma hora e nós duas saímos distribuindo links daquele e dos que tivemos depois. Passou um tempo e ela parou de postar, enquanto eu fui tocando o Sweet Luly infinitamente, e sigo até hoje. Porém durante um época no colégio, onde ninguém falava comigo e eu nem sentia mesmo muita falta, não tinha PRA QUEM passar o link do blog mais, e já tinham caçoado tanto de todas as (poucas) coisas que sabiam sobre mim que achei melhor deixar esse aspecto tão importante da minha vida limitado a quem importava, mesmo, e os outros que ficassem no limbo da desinformação em relação às Lulyces. Mesmo porque era aqui o lugar onde eu me sentia segura pra ser eu mesma, e às vezes o medo da rejeição nos atrapalha em ser exatamente isso.

Lembro direitinho, porém, do dia que contei pra alguém ali sobre pela primeira vez. No meio do recreio de uma manhã qualquer estava conversando com a nova (e agora velha) amiga Amayi sobre as graduações que a gente REALMENTE queria cursar, ela Letras, na qual hoje é Mestra, eu Design Gráfico, que não aconteceu de fato, mas esse é outro papo. Falei que essa vontade nasceu de um hobby onde edição e criação de imagem eram importantes e ela, sorrindo, perguntou “Você tem blog?”. Exitei por 1 segundo e confirmei, recebendo em resposta “Eu tinha também!”. Amayi Mimmy já me fez sentir incluída e querida várias vezes, mas aquela foi a mais marcante de todas, bateu a típica vontade canceriana de chorar ali mesmo. Seguimos o blá-blá-blá e no dia seguinte ela me contou que tinha visitado o blog e que bateu a vontade de voltar a ter um.

Alguns dias depois, numa aula de literatura, onde a gente estava estudando diversos gêneros textuais, a professora Lucy pediu pra o abrirmos o livro em uma página específica e ouvi uma voz do meu lado, “Aí, Luly, sua matéria!”. Quando abri o meu, lá estava: O Diário e o Blog. Meu coração até tremeu. Naquele dia eu estudaria a teoria por trás da minha prática favorita. Tão logo começou, alguém cujo nome não precisa jamais ser mencionado aqui levantou a mão, numa das carteiras da frente, pra perguntar onde estava o “flog” nessa lista, porque aquela, sim, era a maneira atual de escrever na internet. Enquanto várias pessoas tentavam explicar à professora confusa o que era um flog essa menina soltou, com deboche, “Ninguém mais tem blog!”. E dessa vez quem levantou a mão, lá da última carteira, fui eu.

Só quem me conhecia na época sabe o que significava eu estar disposta a opinar durante a aula por livre e espontânea vontade. Eu não conseguia falar direito nem quando isso era requisitado, num misto de timidez e ansiedade que vivo combatendo até hoje. A essência extrovertida que eu sei que tenho e lutei muito pra construir e botar pra fora de vez brigava ali mais do que nunca com essas características, e se eu me dispunha a rebater quem vinha há um ano me fazendo tão mal é porque tinha realmente algo a dizer. E disse. Disse que blog e flog eram duas categorias de plataforma tão diferentes que sequer deviam ser colocadas num mesmo exemplo. Que um blog era tão editável que podia ter papel de portal, se programado dessa forma. Que MUITA gente ainda tinha e até já trabalhava com isso.

Mesmo lá de longe eu consegui ver, e nunca consegui esquecer, o sorriso da Lucy se abrindo em me ver não simplesmente contribuindo pra aula, mas claramente me defendendo no meio dela. Lembro de quando ela me fez a mesmíssima pergunta feita pela Mimmy alguns dias antes e que, agora, a resposta positiva saiu da minha boca sem exitar. “Eu tenho um blog, sim!” Lembro de ter continuado participando daquela aula com informações que ela mesma, a professora, não sabia. E lembro de, nos 16 anos que se passaram desde então, ter que avisar às pessoas por aí, com frequência, que os blogs não morreram e que continuamos aqui. Depois do Fotolog ele foi supostamente substituído também pelo Orkut, Twitter, YouTube, Instagram e suposições vão continuar, enquanto essas rede vão vindo e até indo sem parar. E ainda assim, não tem erro, nós continuamos aqui.

Já ouvi vindo de quem desistiu do seu tendo crescido com ele ou não, de quem cresceu e ainda o mantém, de quem vive dizendo que quer voltar e nunca dá esse passo. Continuo discordando. Talvez eu seja cabeça, dura, mesmo, mas vendo tanta gente querida lutando contra algoritmos de redes sociais, tento eu mesma que fazê-lo, fica difícil achar que a melhor opção é mesmo entregar o que a gente produz pra terceiros decidirem por conta própria o que fazer com isso. Nana-nina-não! Não vou jogar muito trabalho de anos fora tendo a chance, por exemplo, do Instagram “surtar” e mandar pro espaço. Eu sou dona do que escrevo, conheço quem faz o mesmo e vejo cada vez mais gente percebendo e migrando de volta. Gente que vai e quer ficar, que veio só olhar, a sorrir e a chorar¹. E assim blogar e partir!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o segundo, referente a 2005!

Ninguém mais tem blog | Dia 01 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

¹ Milton Nascimento. Encontros e Despedidas. Encontros e Despedidas. Rio de Janeiro: Estúdios PolyGram, 1985. Faixa 1, Lado B.

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