Exposição Yara Tupynambá – 70 Anos de Carreira

Exposição Yara Tupynambá - 70 Anos de Carreira: foto de Luly Lage, uma mulher de pele clara e cabelos pintados de rosa com a raiz escura, usando óculos de grau e máscara protetora, em frente a um quadro da artista de temática botânica, com folhas verdes, galhos finos de árvores e fundo azul.

Eu realmente considero um privilégio viver na mesma época que Yara Tupynambá, por diversos motivos. A importância dela na história da arte brasileira, em especial na arte mineira, é medida não só pela produção de obras em diversos suportes, mas também formação de outros artistas, uma vez que foi professora em importantes cursos de nível superior em Artes Visuais. Quando fiquei sabendo da exposição Yara Tupynambá – 70 Anos de Carreira, que chegou ao CCBB BH no dia 24 de fevereiro, peguei ingresso para o primeiro horário do primeiro dia, precisava conferir e produzir conteúdo sobre. Foi a única vez que fui a uma instituição cultural durante a pandemia e não me arrependo: são 74 obras, entre quadros, gravuras e painéis, representando flora e cultura de Minas Gerais, celebrando não só a vida e o trabalho dela, mas também do lugar onde nasceu e ainda vive.

Veja pedacinhos dessa exposição também no vídeo publicado no Instagram Reels!

Eu tenho uma relação muito pessoal e afetiva com a Yara, vai além da admiração como artista. Em 2012, quando eu fazia meu TCC, onde restaurarei uma gravura do Padre Viegas (provavelmente a primeira gravação feita no Brasil!), descobri que ela tinha feito a reimpressão que estava restaurando quando era professora da EBA UFMG enquanto pesquisava a história da obra. Mandei então alguns e-mails até, enfim, chegar no endereço pessoal dela, que me respondeu muito solícita sobre o trabalho e me ajudou a detectar muitas das causas de degradação que tinham levado a essa necessidade da restauração. Quando terminei, ela foi adicionada aos meus agradecimentos porque foi super importante no processo e me tornei bem fã. Com razão, né? Pra quem tem interesse nesse tipo de trabalho, ou mesmo curiosidade, o arquivo em PDF do TCC completo está disponível no meu perfil do Academia.

Sala 01:

Essa exposição está dividida em quatro salas, sendo as três primeiras no térreo do prédio, logo à direita da entrada principal. A sala de abertura já apresenta, de cara, um dos painéis da artista, obra de grande porte e cores fortes, entre verde, marrom e pitadas de pontos claros nos detalhes. Essas cores estão presentes em todo esse ambiente inicial, retratando matas, árvores e águas das margens do Rio Doce. É um conjunto bem uniforme, parece uma grande série de quadros, mas suas datas variam muito entre os últimos dez anos, mais ou menos, então a produção em si parece ter sido relativamente espaçada. Confesso que, de todas, foi a que “menos amei” (porque amei tudo, na verdade), mas causa um primeiro impacto muito belo, de verdade.

Psiu! Pres’tenção! Todos os exemplos de pinturas mostrados nesse post possuem a mesma técnica e suporte: acrílica sobre tela. Os anos de criação, porém, são variados e foram descritos nas legendas das imagens, ao lado dos títulos.

Quadro de Yara Tupynambá em primeiro plano, com painel da artista quase inteiramente visto ao fundo, ambos retratando matas com árvores finas de madeira clara e muito verde em volta.
Árvores Brancas (2012) e Floresta do Vale do Rio Doce (2014).
Três quadros da artista, um dois primeiro plano com lagoas em destaque na paisagem e outro ao fundo, bem semelhante à foto anterior.
Lagoa com Nenúfares (2019), Lagoa do Rio Doce (2017) e Floresta do Vale do Rio Doce (2017).

Sala 02:

A sala seguinte tem cores suaves retratando ambientes abertos que passam a ideia de serem mais leves. Acho que, de todas, foi a minha favorita! Achei interessante porque nem todas elas são cenários em si, algumas tinham flores e outros tipos de plantas meio “jogados” formando a composição, e ainda assim passam a mensagem de retratar algo real e visível. O grande destaque dessas representações é a Serra do Cipó, um destino turístico natural localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte conhecido por suas cachoeiras, que estão presentes lado a lado da vegetação também característica. Ao contrário do espaço anterior, e assim como os seguintes, elas são diferentes entre si, mas é possível detectar alguns conjuntos que representam pequenas unidades particulares, a expografia arrasou em organizar a disposição para que isso ficasse muito perceptível ao público visitante.

Quadro retratando árvores de galhos secos em meio a pedras claroas e algumas flores secas caídas ao redor.
Velócias Gigante (2013).
Dois quadros de yara Tupynambá d emédio porte, o primeiro, ao fundo, com cenário da flora  em tons verdes e vivos à margem de uma cachoeira com uma faixa no centro mostrando o que parece ser o mesmo local em período de seca; e o segundo retratando três flores em ambiente fechado com fundo escuro.
Perto da Cachoeira (2015) e Três Flores na Serra do Cipó (2004).
Quadros em fundo de cor clara retratando diversos tipos de flores coloridas espalhadas na tela.
Flores na Serra do Cipó III (2011) e Flores na Serra do Cipó (2011).

Sala 03:

O último cômodo do andar térreo também retrata pontos relevantes de Belo Horizonte e região, como parque municipais e o Inhotim, museu de arte contemporânea em Brumadinho que tem paisagismo assinado por Burle Marx. Em um meio termo do que foi visto anteriormente, os quadros têm tons e características semelhantes, mas não retratam uma unidade propriamente dita. Como moradora da capital mineira foi o lugar onde mais me senti em casa, por mais que eu já tenha estado nos cenários anteriores esses são os mais próximos, onde estive várias vezes. Isso me mostra muito a força de vistar mostras e exposições que trazem paisagens locais, valorizando realmente o nosso lar e o fazer artístico dele, mesmo. Muito incrível poder ver isso, seja presencial ou virtual, que é o mais acessível nesse momento.

Quadros retratando cenários variados, sendo o primeiro um conjunto de árvores de galhos finos e folhas escuras, o seguno uma planta imponente nascendo em frente a um muro antigo de azulejos e o terceiro uma lagos em um parque, com vegetação ao seu redor e barcos estacionados à beira da água.
Árvores à Luz do Dia (2018), A Velha Parede Esquecida (2018) e Parcos no Parque (2020).
Duas pinturas com cores semelhantes (verde em diversos tons, terrosas e vermelho), a primeira retratando um cenário vegetal urbano onde á uma lagoa com barco, pessoas caminhando ao fundo e um possível coreto de praça; e o segundo em local parecido, com uma menina vestindo vestindo roupa de cor quente em destaque na frente segurando dois balões coloridos.
Árvores e Barcos (2017) e A Menina dos Balões (2017).

Sala 04:

A última sala fica localizada no 2º andar do CCBB, contendo obras da coleção particular da artista que o público não tem acesso. Ali contém desde homenagens a Monet, ao pintar seus jardins na França há mais de trinta anos, à vista da sua janela durante a pandemia, com trabalhos de 2020 e até 2021! Em entrevistas ela já disse que sua rotina em isolamento social não mudou muito, passa basicamente o tempo todo no ateliê produzindo, e aí está o resultado dessa produção, que ocupa 70 anos dos (quase) 90 que tem de vida a serem completados ano que vem. Escondidinho, num dos cantos de obras voltadas pra parede, existe um quarteto que não são pinturas e tenho a impressão que eram desenhos, mas agora não tenho certeza e já peço desculpas por essa gafe. O importante é que é belíssimo, como todo o resto.

Três quadros, dois em destaque em cores claras retratando flores brancas e roxas variadas e um ao fundo, entre eles, que tem como imagem principal uma casa cercada de diversos tipos de plantas, árvores e flores, ao seu redor.
O Jardim Secreto I (2015), A Casa de Monet (1989) e Íris e Spatifilus do Jardim (2020).
Quatro obras da sala da coleção particular de Yara Tupynambá em ângulos onde não é possível ver muitos detalhes, todas com temática principal de flores e folhas, e uma em destaque, retratando a casa (descrita na foto anterior).
Spatifilus no Fim da Tarde (2010), Strelitzia no Jardim (2020), A Casa de Monet (1898) e A Janela do Atelier (2021).
Quadro com moldura em primeiro plano, com um grande vaso onde estão folhas e flores e um menor na frente, que parece conter frutas redondas. Ao fundo, um quadro em cores complementares aparece pela metade, retratando várias folhas coloridas em fundo verde.
Vaso de Flores em Pote Chinês (2000) e Sol Poente e Folhas Vermelhas (2020).

Leia também: Abraham Palatnik – A Reinvenção da Pintura, sobre a mostra que também está aberta no CCBB BH.

Sobre a artista:

Yara Tupynambá nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 2 de abril de 1932. É artista plástica, tendo estudado com o próprio Guignard, e atuou como professora e diretora da Escola de Belas Artes (EBA) da UFMG e professora da Escola Guignard da UEMG. Ao longo de sua vida profissional, participou de diversas Bienais e Salões de Arte Moderna, ganhou prêmios de vários tipos de materiais do seu trabalho multiartístico, uma vez que é não somente pintora mas também muralista, gravadora e desenhista. Em 1987, criou o Instituto Yara Tupynambá, ainda na ativa, promovendo atividades de incentivo cultural, incluindo a conservação-restauração de bens, e de educação artística e em outras áreas, como gastronomia, moda, turismo e meio ambiente. Vocês podem segui-la no Instagram nos perfis @yaratupynambaoficial e @instituto.yaratupynamba.

Dados gerais e vídeo:

Yara Tupynambá – 70 Anos de Carreira está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, supostamente, até 20 de maio de 2021. O CCBB, porém, se encontra fechado como medida de proteção ao COVID-19, sem previsão de reabertura, conforme definido pela Prefeitura de BH. Enquanto estava aberto, a bilheteria da instituição não estava funcionando e os ingressos gratuitos eram retirados pela internet, com obrigatoriedade do uso de máscara de proteção dentro das dependências, medição de temperatura na entrada, distância entre visitantes determinada por sinalização presente no chão e dispensadores de álcool em gel em todos os andares do prédio. É possível fazer o tour virtual pela exposição no site do Instituto Yara Tupynambá em yaratupynamba.org.br/ccbb (e tem uma prévia dele lá nos Reels do meu Instagram!).

Esse post faz parte também do projeto Vênus em Arte, um canal no Youtube e podcast que traz visibilidade feminina na história da arte! Sempre que pertinente, falo sobre as mulheres de exposições que frequento por lá, além do conteúdo principal ensinando sobre movimentos artísticos através das artistas que faziam parte deles. Abaixo, um vídeo falando sobre a experiência com pequenas tomadas dentro das galerias.

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11 Comments

  1. Eu não conhecia essa artista. Mas, confesso que pouco ou nada sei a respeito das artes plásticas brasileiras. Sou uma apaixonada pela literatura mas, as artes plásticas nunca me atraíram, até por eu ter preferência por fotografias, como as telas de Hopper que fotografa o elemento solidão através dos cenários urbanos.
    Ah, e confesso que senti um bocadito de inveja ao saber que foi ao CCBB BH. Não vou ao de SP há tempos. Eu cheguei a pensar em ir ao Masp, mas não me senti confortável. Preferi esperar.

  2. Muito bacana o trabalho dela Luly, já tinha curtido muito quando vi no seu feed do Instagram. E que maravilha saber que, além de talentosa, ela é também uma pessoa generosa e gentil. Por mais mulheres incríveis assim no mundo!

  3. Que maravilha! Como é lindo ver uma mulher brasileira tão talentosa! Confesso que não a conhecia – Sou um pouco desligada do mundo das artes plásticas, preciso melhorar isso em mim.
    Um enorme abraço e obrigada por nos mostrar esse universo incrível

  4. Lindo trabalho, o do Yara Tupynambá e a sua postagem é igualmente encantadora, principalmente porque nos apresenta de forma didática e eloquente o trabalho da artista. Valeu a visita! Voltarei mais vezes!

  5. Que lindo trabalho! Ainda não conhecia a Yara, mas amei as telas! Deu vontade de andar por essas salas pra admirar de pertinho essa lindeza! Muito grata por trazê-las até nós!

    Um grande abraço!

  6. As obras dela são maravilhosas e o melhor é saber que é uma artista acessível, não são muitos que se dispõem a falar com gente não conhecida, principalmente estudantes (passei por isso kkkk).
    Dá vontade de ficar o dia todo olhando para as obras dela mesmo.

  7. Que post incrível! Não conhecia a artista e confesso que, apesar de admirar artes plásticas em geral, tenho pouquíssimo conhecimento do assunto. De qualquer forma é impossível não se encantar com essas obras, são lindíssimas. Não saberia apontar qual das salas me agradou mais, todas tem obras maravilhosas. Mas se tivesse mesmo que escolher, acho que ficaria com a sala 01, mas só porque é onde está a obra que mais me encantou, Lagoa com Nenúfares.

  8. Que legal, eu não conhecia a artista. Eu tenho muita vontade de ir em uma exposição, espero um dia conseguir, e que seja tão bom quanto essa.

  9. Mana que post maravilhoso! Amei as pinturas e a artista. Ce faz um trampo mto importante pra sociedade de trazer essas informações??????

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