Aquela Camiseta Longline

Você provavelmente nem repara em mim ao entrar aqui em casa, mas garanto que o Chefe sim. Sou um dos primeiros objetos que ele pega, antes mesmo de dar comida pro cachorro (e repreendê-lo por ter me escondido mais uma vez), tirar o relógio ou colocar sua camiseta longline masculina e calça jeans para lavar, substituindo por uma bermuda velha. Ele me procura antes de poder usufruir dos meus serviços, muitas vezes deixando tudo ligado enquanto toma banho ou coloca a comida congelada que trouxe em sacolas de supermercado no microondas, prestes a comê-la jogado no sofá enquanto assiste a um filme qualquer que eu o ajudei a encontrar depois de poucos minutos de indecisão…

É, você provavelmente não repara em mim, mas ele sim, pois eu sou o controle remoto da televisão, e pertenço a um homem chamado Dante Homem de Lama, o que não torna minha vida muito emocionante. Dante sempre assiste aos mesmos canais, consome os mesmos alimentos, usa as mesmas cores e estilo de roupas e leva seu cachorro para passear no mesmo horário, antes de sair de casa carregando a mesma pasta que tem há anos. De vez em quando sai para tomar cerveja, mas sempre volta sozinho, sua única companhia humana ocasional é uma jovem chamada Marta, que esteve aqui pela última vez no Dia dos Pais.

Sim, sim, eu sou um objeto inanimado, mas sempre sei que dia é hoje! Meu próprio nome diz, tenho controle de tudo ao meu redor, e sabia que Marta não deixaria de passar esse dia ao lado do pai. Estávamos eu e ele naquele fim de manhã de domingo jogados no sofá quando o interfone tocou pela primeira vez, eu soube que a pessoa que podia trazer um pouco de variedade ao meu trabalho estaria, em breve, entrando por aquela porta. Dante me colocou posicionado de forma que eu conseguia ver a entrada do apartamento, mas fiquei surpreso quando, após atender o chamado, saiu por ela e voltou com um pacote cheirando a comida. Passei os minutos seguintes decepcionado, ela nunca tinha esquecido…

Camiseta Longline
Imagem via: Key Design

… mas enfim veio o segundo chamado, menos de meia hora depois! Marta entrou carregando uma sacola de presente, cheirando a seu habitual perfume e levando a alegria de sua voz melodiosa a cada canto da casa. Perguntou se a comida que havia mandado já tinha chegado e, antes mesmo que ele confirmasse, já estava na cozinha tirando pratos, talheres e toda a felicidade do mundo de dentro dos armários. Nem mesmo a expressão séria do pai faz com que ela se abale. Ao mesmo tempo que arrumava a mesa ela veio até mim e clicou no botão “Mute”, para que as explosões de um filme extremamente repetitivo de ação não atrapalhasse a conversa que teriam, praticamente um monólogo. Então, conseguindo fazer tudo de uma vez com extrema facilidade, entregou enfim a ele seu presente, lhe dando um abraço.

Uma, duas, três cores diferentes de camiseta longline foram tiradas da caixa, todas em tons neutros, e mesmo de dentro do recipiente onde fui colocado consegui vislumbrar um projeto de sorriso no rosto do presenteado, o que ela sabia ser mais do que suficiente para provar uma aprovação. Dante sequer sabia o nome do modelo, mas a filha sim, disse notou que é só isso que ele veste, sempre nas mesmas cores, e sabia que se apostasse ali não tinha como errar. Ele deu de ombros murmurando “Nem reparei que me visto desse jeito” e ela reafirmou o que já havia sido dito, “Pois eu reparo!”.

As tardes com Marta sempre parecem passar rápidas demais, e a programação da televisão nunca é tão envolvente quanto ela, para nenhum de nós. Sua curiosidade transforma as semanas monótonas do pai em eventos arrepiantes, seja querendo saber como vivem seus colegas de trabalho de vida desinteressante ou onde tinha ido parar a pulseira de ouro que ele costumava usar, mas que sequer notara que estava há dias sumida. Sua vinda traz luz, mas a ida também faz parte do processo, levando consigo um abraço de despedida, nos deixando iluminados apenas pelos programas que fielmente forneço a ele que chamo de Chefe, e sequer sabe disso.

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5 Comments

  1. Oi! Que texto lindo e reflexivo. Esse ano eu não consegui passar O Dia dos Pais, com o meu pai porque, ele está morando em outra cidade e envolveria muitas coisas para que eu pudesse vê-lo mas, sei que sempre que estou perto dele me sinto feliz e segura, me lembro de todos os momentos boas que passamos juntos e nossas conversas intermináveis.

  2. Eu nem sei o que dizer, acho que trouxe para mim o texto e fiquei a pensar num passado bem anterior a esse. Senti saudades de certos momentos meus, de certas coisas minhas. Belo texto, cara mia… mexeu comigo. bacio

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