Um ano depois…

Um ano depois…

Um ano atrás, no dia 03 de fevereiro de 2022, entrei pelas portas da Galeria Periscópio pela segunda vez, apenas cinco dias após a primeira delas, quando fiz uma entrevista de emprego lá. Só que agora, ao invés de candidata, eu era a nova funcionária da empresa, ainda em período de experiência, pronta pra esse fase que parecia estar por vir para ficar, e ficou. Entrei, me aconcheguei, fiz dali minha segunda casa e nunca mais saí – veja bem! Entrar pra Periscópio foi um acontecimento “daqueles” na nossa vida, sabe? Que vem de forma inesperada, marca, muda tudo e ainda faz sentido. E aí eu cheguei a mencionar que tinha entrado pro meu primeiro emprego de carteira assinada por aqui, bem superficialmente, mas nunca contei a história em si, o que me soa muito errado, uma vez que é isso que faço nesse blog. Pois bem, então contemos…

No segundo semestre de 2021 vivi a pior das “primeiras vezes” da minha existência: foi a primeira vez que trabalhei com algo que REALMENTE não gostava. Já tive muitos jobs e funções na vida que não eram exatamente a melhor coisa no mundo, mas fazer algo que achava desagradável era novidade pra mim, e isso não é pouca coisa porque eu sou uma mistura perigosa de geração com mapa astral que precisa, muito, ver sentido e sentimento naquilo o que faz. Pois bem, eu não só não via sentido como era contra o que fazia, achava tudo uma grande balela e passei a associar as oito horas que passava naquele ambiente 100% ao dinheiro, comprando coisas que sempre quis de maneira impulsiva assim que terminava de pagar as contas pra ter algo pra olhar e pensar “bom, pelo menos tá valendo a pena”. Ainda assim, foi bem ruim.

Bem no fim do ano, porém, vi uma oportunidade de sair desse trabalho pra me dedicar a um projeto que não me trazia garantia nenhuma de um retorno financeiro significativo, mas que fazia MUITO MAIS sentido na minha cabeça, história e currículo. Me joguei nele de maneira tão forte que recusei uma oferta de trabalho em um centro cultural que AMO, que por muito tempo foi um sonho, determinada a fazer dar certo. Até hoje me questiono como tive coragem de uma loucura dessas, porque até dava pra tocar as duas coisas ao mesmo tempo, mas coloco na conta do destino: menos de um mês após a “recusa suicida”, no fim de janeiro, a coordenadora de um curso que eu fazia entrou em contato querendo me indicar para esse emprego na Periscópio, que aceitei sem conhecer a Galeria e nem pensar sobre. Foi tudo MUITO louco, gente!

Digo isso porque naquele momento trabalhar em um museu ou centro cultural, no educativo (que era o caso) ou acervo, era meu projeto de vida. Até fiz um estágio voluntário no Palácio das Artes com esse objetivo, sabe, e em nenhum momento em toda minha vida profissional, que começou há quinze anos, cogitei trabalhar em uma galeria particular, em nenhuma das áreas que já atuei ou pretendi atuar como profissional de artes. E aí lá estava minha cabeça maluca dizendo “não” pro que queria e “sim” pro que nem sabia ser uma possibilidade! Muito bem, a galeria entrou em contato em seguida e fui lá em um sábado, o último de janeiro, fazer minha entrevista. Cheguei, vi duas obras que já conhecia e achava incríveis em uma das paredes e meu pensamento imediato foi “Eu vou embora daqui”!

Isso de Síndrome da Impostora é foda, né? Na minha cabeça saber que aquela Galeria representava um artista tão bom, tão consolidado na arte contemporânea brasileira, significava que eles nunca, jamais, em tempo algum iriam me contratar. Quem eu estava achando que era, afinal? Alguém com potencial pra algo tão grandioso? “Faça-me me rir, Luly Lage, isso é muita areia pro seu caminhãozinho!” Antes de sair, porém, pensei em como ia pegar mal pras pessoas que tinham me indiciado (porque foi um consenso entre coordenadora e algumas professoras) se fosse embora assim, sem dizer nada. Fiquei apenas por causa delas, fiz a entrevista, achei o lugar maravilhoso e, quando fui embora, tinha uma voz na minha cabeça dizendo que, sabe-se lá o motivo, eles iam me chamar. Minha intuição me disse que eu pertencia àquilo ali. Então, três dias depois, quando fevereiro chegou, recebi a ligação com essa confirmação.

A partir daqui queria dar cada mini detalhe de como os últimos doze meses mudaram minha história de forma positiva. Queria citar o nome de cada pessoa incrível que cruzou meu caminho e trouxe um turbilhão de coisas boas pra ele. Queria rir com vocês das recusas, NO PLURAL, que tive que dar pra outros centros culturais porque, cara, não queria trocar a Periscópio por nada! Mas foi tudo grande demais pra caber em palavras. Nesse um ano eu aprendi muito sobre o mercado arte e mais ainda sobre mim, de um jeito que não sei explicar. O resumo que dou de tudo isso é que, depois de quase vinte anos estudando História da Arte, eu passei a ajudar a construí-la, e isso é gigante pra mim. Estou onde quero, onde amo, onde faz sentido, por um ano inteiro e, espero, muitos outros que ainda virão.

E quando vierem? Nossa, eu nunca mais vou nem cogitar fugir!

Foto de costas para a câmera, em pé, olhando para um quadro abstrato que se encontra ao fundo

Obras de arte presentes nas fotos:
Jess Vieira, O que acontece quando durmo II, 2022, 150 x 150 cm. Acrílica, lápis de cor e pastel sobre tela.
Gisele Camargo, Bruto, 2018, 170 x 170 cm. Acrílica e óleo sobre madeira.
Acervo Galeria Periscópio.

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Maresia

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  • Maria Valéria Camargos d Ávila

    Luly, lendo esse post percebi o quanto valeu a pena. 
    Sua felicidade e realização de pertencer a essa galeria e conferir o brilhantismo de todos, inclusive você, que a ela pertencem!
    Parabéns por essa dádiva recebida e pela gratidão por tudo!
    Abraço daquela que sempre soube do seu valor e torce por você incondicionalmente!

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