A Cabeça do Santo – Socorro Acioli

A Cabeça do Santo – Socorro Acioli

A Cabeça do Santo
Capa do livro A cabeça do santo, de Socorro Acioli. O fundo é inteiramente amarelo vibrante. No centro da imagem há a ilustração de uma cabeça humana de perfil, em tons escuros de verde e preto, com aparência de escultura ou objeto antigo. Acima da cabeça, o título aparece em letras pretas, desenhadas à mão, com traços irregulares. Abaixo da ilustração, o nome da autora também aparece com o mesmo estilo manual. Na parte inferior da capa, em fonte pequena e discreta, está o nome da editora. Autora: Socorro Acioli
Gênero: Realismo fantástico
Ano: 2014
Número de páginas: 176 p.
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-8535923698
Sinopse: “Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará. Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor. Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele ainda irá se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.”

Comentários: Após caminhar 16 dias em baixo de sol forte, Samuel chega à decrépita Candeia, no sertão do Ceará, contra sua vontade. Em seu leito de morte, sua mãe Mariinha pediu que ele realizasse 4 desejos finais, e um deles era se dirigir ao endereço onde viviam sua avó e seu pai nessa cidade que parece ter sido esquecida por Deus. Uma vez lá, sem dinheiro ou ter onde ficar, ele encontra abrigo em uma gruta que descobre ser, na verdade, a enorme cabeça de Santo Antônio pertencente à estátua de um corpo igualmente gigante localizada perto dali. Sendo um homem de pouca ou nenhuma fé, isso não seria problema para ele, até descobrir que consegue ouvir as preces que mulheres fazem para o santo quando está lá dentro, dando a ele acesso à oportunidade que nunca teve antes de lucrar em cima das solteiras desesperadas…

Livro aberto na folha de rosto, com o título impresso em tipografia simples, ao lado do boneco de santo em feltro, ambos sobre a capa amarela.

Socorro Acioli desenvolveu essa fantástica história na oficina de Gabriel García Márquez, realizada em Cuba no ano de 2006, na qual foi a única brasileira selecionada. Talvez ainda mais incrível do que sua ideia é o fato de que ela é, de certa forma, baseada em fatos reais! Durante 39 anos, a cidade cearense de Caridade abrigou um Santo Antônio monumental sem cabeça, que não conseguiram inserir no corpo, se tornando quase uma lenda urbana ao repousar no chão, servindo inclusive de muro na casa onde morou o engenheiro da obra. Ano passado, porém, a cabeça finalmente foi colocada sobre o corpo, com a promessa de ser construído ao seu redor um complexo dedicado ao santo para impulsionar o turismo religioso no local, que sempre foi o objetivo. Cara, eu achei isso tudo muito louco, viu…

“A Voz falava de saudade e ele pensava em Mariinha — mas sem tristeza, porque nem toda saudade é triste. Conseguia imaginar sua mãe junto com a família de mulheres que adivinhavam a morte como quem fala de uma viagem qualquer.” — página 97

Preciso confessar, porém, que esse é um livro que eu dificilmente leria se não fosse o escolhido para inaugurar o clube do livro do projeto EntreBlogs, principalmente por causa do título. Veja bem, sem saber a sinopse só me baseei no fato de que não é muito minha praia conviver com cabeças de santo por aí, sabe? Um pré-conceito, mesmo. Aí, uma vez que fui pesquisar sobre, descobri que o santo em questão era Antônio, um dos que estão na minha tríade de queridinhos depois que fiz aula de Iconografia Religiosa na faculdade e os conheci DE VERDADE, para além da catequese da infância, então aos poucos foi me batendo a curiosidade para, enfim, receber tudo de braços abertos — e ainda bem, a leitura é super gostosa, fluida e rápida, do jeito que gosto!

Detalhe do boneco de santo Antônio em feltro apoiado sobre a capa do livro A Cabeça do Santo, destacando o rosto bordado e a textura dos materiais.

É impressionante como ler um livro nacional tem o famoso “molho”, né? Nossa cultura, nossas expressões, nosso povo,, é tudo rico demais, e isso reflete nos livros brasileiros, em especial naqueles que se passam no Brasil. Para além disso, A Cabeça do Santo discute em suas entrelinhas jogos de poder realizados por políticos através da religião, o que muitas vezes achamos que ficou no passado, mas vemos se repetindo de maneira escancarada no presente. A ideia de que Candeia foi amaldiçoada pelo santo decapitado leva boa parte da população da cidade a abandoná-la, e aqueles que ali permanecem se convertem de católicos a protestantes, o que o prefeito corrupto logo entende como possibilidade de lucro. A presença de Samuel e seu “dom”, que ajudam a restaurar a cidade, deveria ser uma benção, mas acaba virando ameaça dessa politicagem podre que assola tantas cidadezinhas de interior verdadeiras.

“Marcaram a entrevista para o quadro ‘A noiva da semana’, sucesso de público na região e muitas vezes cancelado por falta de noivas. Eram tempos difíceis para os românticos.” — página 59

O mais genial disso tudo é que Samuel está longe de ser herói, e mais ainda de ser vilão. A princípio ele mesmo decide lucrar em cima do santo, usando as preces das mulheres solteiras como salvação para sair da situação crítica de fome e miséria na qual se encontra após a viagem, tudo com a ajuda de Francisco, uma adolescente que inicialmente usa o local para usufruir da companhia de revistas eróticas e acaba fazendo amizade com o rapaz. Os dois têm atitudes vistas como questionáveis enquanto, de certa forma, ajudam de verdade as pessoas. Isso é válido para outras figuras como o pai de Samuel, já tido como morto, o locutor de rádio Aécio e principalmente Fernando, alguém cuja história só é contada, mas aquele tipo de personagem do qual você tenta sentir raiva, mas as complexibilidades da vida não o permitem de modo algum.

Livro aberto em página de texto que traz o diálogo: — História de antigamente é assim que já foram há muito tempo? — Sim, filho. — Então antigamente é um tempo, avó? — Antigamente é um lugar. — Um lugar assim longe? — Um lugar assim dentro., atribuída a Ondjaki.

Por fim, Socorro adicionou um pano de fundo para Samuel também viver seu romance platônico através de uma das vozes que escuta: a moça que, ao invés de rezar, canta em língua desconhecida. Ao mesmo tempo que tenta entender melhor sua história de vida e fugir da perseguição que passa a sofrer, ele não consegue esquecer esse canto, que o faz sentir paz em meio ao caos. Parece muita coisa ao mesmo tempo, e pra ele é, um pouco, mas pra quem lê o é eletrizante saber que as páginas estão acabando e ainda tem tanta coisa pra acontecer. O melhor de tudo? Elas acontecem! Conversei com uma amiga, que leu A Cabeça do Santo em outro clube do livro, e ela disse que várias pessoas no seu grupo acharam o final “muito aberto”, mas nós duas concordamos que é o fechamento ideal para uma narrativa be-lís-si-ma!

“— Assim, eu acho que é um negócio que a gente sabe quando vem, a força estranha chega e, pá!, a gente sente. Quando ela toma conta, a gente faz o que quer fazer por cima de pau e pedra, não tem cão que segure. Acho que vem de Deus.” — página 106

A cearense Socorro Acioli é, além de escritora, jornalista e professora. Doutora em Estudos de Literatura pela UFF, também estudou na oficina de Gabriel García Márquez, em Cuba, experiência que influenciou profundamente sua escrita sensível e marcada por elementos do realismo mágico. É autora de romances, novelas e livros infantojuvenis, entre eles “A Cabeça do Santo”, publicado inclusive no exterior, “Elisa e os Cabelos Mágicos” e “Oração para Desaparecer”. Em 2013, foi vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Infantil. Sua obra é reconhecida pela forte ligação com o imaginário do Nordeste brasileiro. É possível acompanhar seu trabalho no site socorroacioli.com.br e pelo Instagram @socorroacioli.

Banner com layout de interface de computador em tons claros. Na parte superior, aparece um cabeçalho cinza com o título 'blogagem_coletiva_file' e, logo abaixo, o subtítulo 'ENTREBLOGS'. Abaixo do cabeçalho, há três pastas digitais ilustradas, lado a lado: uma pasta rosa com o nome “post_participante”, uma pasta azul com o nome “grupo_ideias” e uma pasta amarela com o nome “regras_ou não”. Um cursor grande, em formato de seta, está posicionado sobre a pasta rosa.

Esse post faz parte do Clube de Leitura da blogagem coletiva EntreBlogs, como Tema Extra do grupo para o mês de Fevereiro.

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  • Aline

    Eu adorei sua resenha Luly! Gostei como você misturou suas expectativas e experiência de leitura ao enredo do livro!
    O Samuel é um personagem complexo, marcado por uma vida difícil que já não lhe dava nada e foi lá e levou a mãe dele. De fato não dá pra chamá-lo de herói e muito menos de vilão. É um sobrevivente.

    Esse livro é um cristalzinho e eu amei que ele inaugurou o clube de leitura! Está sendo uma delícia ler com vocês!

    Um beijo.

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  • Clayci

    amiga, você conseguiu explicar a premissa que é super inusitada sem tirar o encanto da história, pelo contrário, fiquei ainda mais curiosa. Essa mistura de realismo com um toque quase mágico me pegou muito, especialmente sabendo que existe toda essa história real por trás da cabeça do santo.Entrou pra minha lista de desejados 

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  • Paloma

    Também adorei que a autora conseguiu por um mistério e inserir o romance no final hihi, fiquei torcendo por ele.
    Que bom que não deixou o pré-conceito falar mais alto e deu uma oportunidade para o livro, acredito que você conhecer a hitória de Santo Antônio, deixou tudo mais interessante.

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  • Bruna

    Oiii Luly!!!
    Amei tua resenha! É bacana demais quando acontece isso de não darmos nada pro livro e no final ele ser espetacular, né?
    Um dos meus desafios pessoais é buscar mais livros brasileiros que fujam da minha zona de confronto, pra ter mais contato com essas regionalidades de estados que eu não conheço muito. Literatura brasileira é muito especial <3
    Abração!!!
    p.s.: dei uma risadinha gostosa com aquela frase "eram tempos difíceis para os românticos" hahahaha

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  • Vitória Bruscato

    Eu adorei saber que mais uma pessoa também julgou o livro só pelo título, hahaha!
    Adorei o fim da história também, acho que ficamos sabendo o que deveríamos saber dentro do enredo proposto. Inclusive, me emocionei bastante no final.
    E, você comentou que não destacou tantos trechos da história, mas os que estão nesse post são os MESMOS que eu destaquei também, hahaha!

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