Você não leu errado: vamos falar sobre inércia e como ela atrapalha as coisas boas da vida.
Pois muito que bem, eis aqui um fato que não vai surpreender ninguém: eu ia mal pra caramba em física! Essa danada foi minha primeira recuperação final, minha menor nota no vestibular da UFMG, a responsável pelo único exame especial que peguei na faculdade (Climatologia, argh!) e, quando formei, quem me fez ser DESCLASSIFICADA de um novo vestibular que, sem um pingo de juízo que a gente já sabe que não tenho MESMO pra essas coisas, fiz na intenção de emendar duas graduações. Aliás, nesse caso específico preciso agradecê-la por ter me ferrado, mas de modo geral não, só atrapalha. O pior é que era MEU SONHO ir bem em física e estudar justamente isso na faculdade, mas não dá, fico aqui onde tô mesmo que é melhor. É um bom lugar para estar.
Ironicamente os conceitos da física eu entendo bem, o que me atrapalha mesmo é a parte de colocar em prática junto com a matemática, que suspeito ser a real culpada por aqui. Então quando estudei as Leis de Newton elas me pareceram tão ridiculamente óbvias que não entendi o auê que se fazia em torno delas. Mas aí, à medida que fui vivendo, entendi que elas são umas vadias, principalmente a inércia. Cara, a inércia é a maior vadia de todas.
Veja bem, estou trabalhando no primeiríssimo emprego de carteira assinada da minha vida, após 9 anos de formada. Não é um emprego aleatório que aceitei no desespero, não, é numa galeria de arte, mesmo, tendo contato com muito artista bom, um trabalho legal de verdade. E por mais que isso seja importante pra mim, tanto pessoal quanto financeiramente, passo grande parte do meu tempo, mesmo um mês depois, desesperada com esse fato, não pelo motivo óbvio de que o sonho de verdade era me sustentar com produção de conteúdo, já aprendi que não dá pra realizar todos os sonhos do mundo. É por causa da inércia que insiste em querer me manter do meu estado inicial como se não tivesse nenhuma força aplicada sobre mim.
Logo que parei de trabalhar fora, em 2016, a ausência de gente na minha vida me deixava louca. Se você me chamasse pra ir na oficina mecânica da esquina, nossa, eu topava. Qualquer coisinha que faltava aqui em casa era motivo pra catar uma ecobag e ir ao supermercado, só pra falar “Boa tarde, é débito!” pra moça do caixa e me comunicar com alguém. O tempo foi passando, o sentimento continuou, aí veio a pandemia e aumentou cada vez mais… Até que, *plim*, emprego. E, do mais completo nada, a ideia de voltar a viver em sociedade, que tanto me apetecia, passou a me deixar desesperada. Nem é pelo medo de Corona Vírus, não, apesar de ter isso também. É algo que não sei explicar.
Tem gente achando que é fobia social, mas acho um exagero sem tamanho comparar essa crise existencial a algo tão sério quanto um transtorno mental. Até tem todo um reflexo da minha ansiedade, claro, na história, mas no fundo eu acho que é a dificuldade extrema que algumas pessoas têm de sair do lugar, eu entre elas. Um dia desses aí pra trás descobri que um colega que tem carro mora perto, ele ofereceu pra me buscar aqui todo dia e ir de carona, mas eu preferi pegar ônibus porque PRECISO dessa meia horinha ouvindo minha musiquinha com a cidade à minha volta pra conseguir lidar com as 9 horas de pessoas ao meu redor que tão vindo a seguir. Irônico, para quem mês passado tava falando de “solidão a dois”, né, mas real.
Fora que, cara, quanta insegurança! Já me acostumei até bem com o ritmo do trabalho, mas não tem um santo dia em que eu não ache que nunca vou me acostumar 100%, nunca vou apender o nome de todos os artistas, nunca vou desenvolver autonomia, por aí vai. Sendo que isso aconteceu em todos os trabalhos que já tive, sabe? Mas não, DESSA VEZ eu tenho certeza que vou estragar tudo e que eles vão descobrir que foram completamente enganados na minha entrevista, que sou péssima, uma fraude, etc. Anteontem fui pra casa com a certeza de que meu chefe, que nem estava aqui, não gosta de mim, mesmo que sábado ele tenha zoado até comigo. Ai, ai, ai…
Por fim, me sinto uma grande ingrata com meus apoiadores do Vênus em Arte porque, mesmo que FINALMENTE esteja conseguindo me planejar pra chegar na constância que quero por lá, parece que o fato de ter um emprego (que sequer consegue me sustentar sozinho) faz com que eu não tenha direito a esse apoio mais. Qualquer coisinha que compro com o dinheiro do meu trabalho, e nem são coisas grandes nem nada pois infelizmente num tô rica, me soa como uma ofensa a essas pessoas, como se eu tivesse enganando todo mundo fingindo ser algo incrível que não sou. Tô achando que essa cartinha aqui não é sobre Lei de Newton coisa nenhuma, e sim sobre Síndrome do Impostor, no fim das contas.
No mais, tá sendo bem bom ter direitos trabalhistas, conseguir dar uma segurada nas contas aqui de casa e saber que mesmo trabalhando com cultura terei feriados livres, o que não teria num museu, por exemplo. Acima de tudo, tá sendo bem ÓTIMO estar cercada de arte o dia todo, mesmo que de forma tão burocrática, poder olhar pra elas, pegar até, e não ver só pela tela do computador, que vinha sendo minha realidade. Desesperador, mas vale a pena!
Esse post foi originalmente publicado na minha newsletter Hello, Hello, pessoal!, que não está mais ativa. Ele foi republicado aqui anos depois, com a mesma data na qual foi enviado aos assinantes à época, para que fique registrado nos arquivos do blog, com os comentários fechados e estrutura adaptada.

