Eu juro: essa newsletter não virou um veículo de desabafo através de analogias com conceitos científicos!
Mas talvez… Bom, quem sabe eu não faço isso, mesmo, né? Ainda mais eu, que defendo que ciência é muito mais que as exatas e biológicas – e até que as humanas -, por que não cogitar engrenar nesse formato? Vou pensar isso e depois conto pra vocês, porque já que falamos da Primeira Lei de Newton mês retrasado (eu furei abril, né?), a Lei da Inércia, vamos agora falar da segunda, que eu estou apelidando da Lei da Anti-Inércia.
Na verdade MESMO essa Lei é conhecida como Princípio Fundamental da Dinâmica, e não vou ficar aqui te dando aula de física porque, né, sou muito ruim nisso, mas vou explicar o que EU entendo dela: a aceleração de um corpo é diretamente proporcional à força aplicada sobre ele e inversamente proporcional à inércia, ou seja, para que um corpo acelere e SAIA da inércia ele precisa de uma força maior e contrário a ela. Se não for isso, já peço desculpas e que não me corrijam, porque a nossa Lei da Anti-Inércia, que eu mesma criei, é sim, então é só que vocês precisam entender do que Newton um dia descobriu. Se ele pode sair criando leis, por que não posso eu também?
Na minha vida, por exemplo, a Anti-Inércia foi o CEFART!
Pra quem não sabe, aqui em Belo Horizonte existe um Centro Cultural chamado Fundação Clóvis Salgado, o Palácio das Artes, e ele não só é o maior de Minas Gerais, mas também imagino que não exista nada exatamente igual no Brasil… O Palácio é completo, tem galerias de arte e sala de cinema que promovem exposições/sessões TOTALMENTE GRATUITAMENTE, loja de artesanato, performances artísticas, um Grande Teatro onde acontecem os mais diversos tipos de apresentação e um Centro de Formação Artística e Tecnológica, o CEFART, com cursos de curta e maior duração pelos quais você não paga nadinha, nadinha. Isso é só o resumo porque aquilo ali é muito mais do que cabe em um mísero parágrafo, mas como chegamos na escola, é nela que vamos focar.
Entre 2019 e o início de 2020, fiz alguns cursos de extensão no CEFART para dar um grau no meu Lattes como forma de preparação pro Mestrado, no qual eu não passo nem fudendo – mas não vamos abrir essa Caixa de Pandora -, e foi assim que descobri que eles tinham 4 semestres de cursos básicos na Escola de Artes Visuais de lá, focados não na produção artística em si, mas em exposições de um modo geral: mediação, curadoria, expografia e produção cultural. Fiquei com aquilo na cabeça, mas era à noite e eu sou uma grande medrosa de andar sozinha na rua quando fica tarde, coloquei essa ideia de lado e deixei pra lá. No segundo semestre de 2020, todo mundo preso dentro de casa, fiquei sabendo que o ensino estava remoto por motivos óbvios, decidi que era uma boa tentar e me inscrevi pro curso de Arte-Educação, que é para mediação de galerias.
Passei, entrei é achei que ia ficar um semestre só, porque era essa a parte que me interessava, mas emendei a Curadoria, onde conheci um professor 10/10 com quem tive super afinidade e que acreditou no meu trabalho de forma tão forte que usa conteúdos meus como bibliografia de apoio, e depois a Expografia, algo que achei que jamais estudaria mas me vi estudando, onde firmei amizades de verdade dentro daquele ambiente. Meus colegas de sala se tornaram público da minha produção, professores se tornaram contatos incríveis e, agora chegando no final do terceiro semestre, a coordenadora da escola entrou em contato comigo e se tornou a pessoa que me colocou no meu atual emprego.
(É, por lá eu sou uma aluna exemplar, uma nerd da história da arte, quem diria!)
Antes dessa reviravolta, passei muitos anos desempregada, tentando conseguir achar caminhos sempre temporários aqui e ali, e com isso minha vida andava, sim, mas sempre pros lados, nunca em frente. Foram seis anos de inércia que cada hora me mostravam algo que eu tinha certeza que era exatamente o que eu queria fazer, mas nunca conseguia pra valer. Nesse esquema, o que eu produzia pra mim (livros, blogs, canal, tudo) seguia essa mesma regra, parecia que nunca acharia um foco ou razão para que aquilo se tornasse dos outros tanto quanto era meu, mesmo depois de ter decidido criar o Vênus em Arte, que tudo mudou. Um emprego REALZÃO, de carteira assinada, então? Achei que nunca, jamais, em tempo algum teria isso NA MINHA VIDA. E o CEFART provou o contrário trazendo tudo e muito mais.
Pensando bem, aqui sozinha enquanto escrevo esse novo texto pra vocês, percebo que a decisão de entrar pro CEFART, mais do que ele em si, foi minha Anti-Inércia. Porque eu podia, sim, continuar ali, inerte, dentro de casa, vendo os dias de isolamento passarem lavando pacotes de batata palha (que, caso você não saiba, foi um meme que rodou o mundo, mas surgiu no meu Twitter), sempre protelando tudo sem nunca acreditar em nada. Mas eu PRECISAVA de algo, a princípio em nome do tal mestrado e etc, mas também pra me tirar dali, do meu alento de ser quem era, e levar pro desconforto absurdo de me tornar tudo o que posso ser.
Ironicamente esse mesmo emprego que tenho graças ao CEFART fez com que eu precisasse sair de lá sem cursar Produção Cultural e fechar os quatro semestres, já que não tenho condição nenhuma disso mais sendo a trabalhadora que sou. Mas se tem algo que COM CERTEZA faz todo mundo lá muito feliz é saber disso, e a mim também. E, se me permite dar a você aí um conselho, você que tá prese na sua inércia maldita que parece sem fim, esse conselho é: busque sua Anti-Inércia. Ela não é garantia de nada e a tal força necessária para atingir a aceleração é SOBREHUMANA, mas precisa ser feita em algum momento. Hoje, depois de dois meses que escrevi sobre A Primeira Lei nessa newsletter, eu me arrependo até das pequenas inercinhas que defendi por aqui, porque mudaram as estações, TUDO mudou e aconteceu muita, muuuita coisa que deixou tudo assim, tão diferente no meu coração.
Mas isso é papo pra outro momento, quando a Terceira Lei ou outra analogia científica qualquer chegar. Até lá espero estar melhor, porque cês me pegaram agora num período bem ruinzinho, e que VOCÊS fiquem bem.
Esse post foi originalmente publicado na minha newsletter Hello, Hello, pessoal!, que não está mais ativa. Ele foi republicado aqui anos depois, com a mesma data na qual foi enviado aos assinantes à época, para que fique registrado nos arquivos do blog, com os comentários fechados e estrutura adaptada.

