A restauradora que eu sou hoje

A restauradora que eu sou hoje

Hoje, 27 de janeiro, é o Dia Internacional do Conservador-Restaurador (no caso dessa que vos fala, conservadora-restauradora). Há dois dias, completou 18 anos minha aprovação na primeira turma de graduação do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis não só da UFMG, mas também do Brasil, aos 17 anos, e um mês depois atinge a “maioridade” o primeiro dia de aula como universitária. Quase tão antiga quanto é minha decisão de me tornar, especificamente, restauradora de papel, assumindo a cura de livros, documentos, fotografias e obras de arte nesse material que precisam passar pelo processo. Não por “vocação” ou “dom”… Não nasci com nenhum dos dois e tive que aprender tudo na marra. Foi e é uma escolha! Escolho todos os dias permanecer sob esse título meio ingrato, de perto ou de longe, pois é parte de mim.

Nesse vai e vem de seguir ou não a carreira na qual me formei, a mantendo por perto em todas as outras práticas que exerço, ano passado ela voltou para mim com força, me salvando da maior quebra de planejamento profissional que já vivi. Meu diploma me estendeu a mão, me impedindo de quebrar junto, através de laudos de conservação, principalmente, e da restauração em si. O último trabalho que tive em 2025 foi o maior processo de conservação-restauração de bens em papel que já fiz de forma independente no Ateliê Expresso Rosa! Entre 18 de novembro e 30 de dezembro, estive imersa em 154 folhas, que formam 77 documentos, parte do acervo do centro de memória de uma mineradora, a maioria deles referente ao registro de pessoas escravizadas que trabalharam no local no século XIX… É, pois é!

O prazo era apertado e a chuva atrapalhou bastante, fazendo com que diversas folhas tivessem que ser restauradas uma ou mais vezes. Minha vida profissional começou de maneira formal justamente com os documentos, é sempre ótimo trabalhar com eles, focar na parte química e estrutural do trabalho, mas percebi que é um tanto quanto solitário quando feito como frrelancer. Trabalhei de segunda a segunda, às vezes 12 horas por dia para dar conta, e tirando os poucos momentos em que alguém vinha me fazer companhia, dar apoio ou até ajudar no que era possível, as únicas com as quais eu conseguia conversar ou ter ao meu lado eram as gatinhas e a doguinha, mesmo. Tudo isso somado ao fato de que, sendo uma profissão não regulamentada e trabalhando de casa, é difícil até ter acesso aos materiais (CARíSSIMOS) e montar esse tipo de estrutura. Foi barra, viu?

Se até o ápice desse meu lado profissional foi tão custoso, por que insistir? Por que ser restauradora? Teimosia? Orgulho? Não! É simplesmente o fato de que isso não é só o que faço, mas também uma das formas como olho para o mundo! É visitar uma exposição e reparar em sua estrutura antes de conseguir apreciá-la. É chagar na casa de uma amiga e, quando ela mostrar a capa de um lindo livro que amassou, voltar com ela pro lugar só com os dedos. É estar numa função diferente dentro de uma galeria e, ainda assim, fazer questão de priorizar a preservação das obras como se fossem vivas. É acreditar que nossa memória merece amor e cuidado, duas das coisas mais essenciais nesse mundo. A restauradora que sou é consciente das dificuldades, sempre sem grana, em constante negociação entre ideal e possível, e MUITO apaixonada por ser quem é!

Para quem quiser ler mais sobre o curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, em especial o da UFMG, e/ou minha vida como restauradora, seja em posts específicos sobre a profissão, dicas de preservação de livros ou narrando experiências, aqui no blog eu tenho a categoria Conservação-Restauração todinha voltada pra isso!

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  • Paloma

    Meus parabéns pela profissão e por ficar a 18 anos nela, acredito que seja algo que goste muito apesar dos desafios.

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  • Taís

    Luly, que profissão mais incrível que você tem. Eu acho a restauração/conservação muito interessante e também necessária pra nossa história. Uma pena que não é regulamentada 🙁

    https://nyrtais.blogspot.com/

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