O Sorriso de Mona Lisa, Katherine Watson e eu

Julia Roberts como Katherine Watson em ''O Sorriso de Mona Lisa''.

No carnaval de 2018 tive alguns momentos meio brocoxô em meio à alegria e folia, por vários motivos diferentes. O primeiro deles, ouso dizer, ainda era o reflexo dos transtornos mentais que tinha acumulado no ano anterior, alguns com os quais já convivia há um tempo, outros que nem tanto, fora fatores que surgiram no próprio momento. Em resumo, era a antítese em pessoa, hora fazendo maquiagens temáticas empolgadíssima, hora me enroscando deitadinha na minha cama no escuro tão melancólico quanto a minha alma estava. E aí, nesse segundo cenário, zapeando pela Netflix afora, dei de cara com um filme assistido bem por alto quando mais nova, mas não sabia se tinha realmente absorvido: O Sorriso de Mona Lisa. Foi nesse dia que Katherine Watson mudou de vez a minha vida.

Mas antes, pra quem não conhece, trago contexto! O Sorriso de Mona Lisa é um filme de 2003 protagonizado pela maravilhosa Julia Roberts no papel da professora de história da arte Katherine Watson, que sai da Califórnia para dar aulas em uma das principais faculdades para moças do país, conhecida pelo perfil conservador, quase um local onde as alunas ricas frequentam enquanto esperam pelo seu casamento. Em meio à década de 1950, Katherine é considerada subversiva por ter visões progressistas, principalmente em relação ao papel da mulher na sociedade, e ao passar isso para suas alunas, apresentando a elas arte além dos padrões e as incentivando a enxergar a própria vida dessa forma, acaba pisando no calo não só de algumas delas, mas também de outras pessoas ao seu redor.

Julia Roberts como Katherine Watson em ''O Sorriso de Mona Lisa''.
Julia Roberts como Katherine Watson em “O Sorriso de Mona Lisa”, imagem via Microsoft.

Sabe aquela máxima do “O que você quer ser quando crescer?”, tão comum quando a gente é criança? Fazia muito tempo que eu não tinha uma resposta pra isso tão clara na minha mente. A maneira como ela dá a volta por cima em cada humilhação, o domínio da própria disciplina além dos padrões exigidos pela universidade, a enorme fé no que faz e, principalmente, como toca a vida das meninas em aspectos ainda maiores que o acadêmico. Em diversos momentos é acusada de hipocrisia e a primeira vez que assisti, há tanto tempo e muito mais crua que sou hoje, até concordei, mas agora não, agora consigo dar razão em cada atitude. Hipócrita é o meio em que está inserida e, oh, quase 70 anos se passaram aqui na vida real desde aquele contexto, muita coisa mudou, mas muitas outras continuam exatamente iguais. Pena!

Alguns meses antes desse click, estive perto de participar do processo seletivo de uma pós graduação de ensino de artes incrível, mas deixei passar… O arrependimento veio FORTE depois disso! Como não dá pra chorar sobre leite derramado, passei pouco tempo remoendo esse passado e rapidinho foquei em abraçar o futuro. Entre abraçar e viver não foi tão instantâneo, mas foi rolando. O passo mais importante, a decisão pelo caminho, foi dado, era hora de botar o pé na estrada. Agora, relembrando tudo o que rolou, foi muito mais na base dos tropeços e quedas do que de levantes. No meio da madrugada pós aniversário, puff, a decisão de estudar mulheres artistas. Uma ligação de propaganda que atendi sem querer, alá, um mundo de pós EAD que poderia cursar. Em dado momento até o mestrado que tanto reneguei se tornou possibilidade nessa cabecinha. Que loucura…

Katherine e suas alunas Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) e Joan Brandwyn (Julia Stiles).
Katherine e suas alunas Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) e Joan Brandwyn (Julia Stiles), imagem via Empire Online.

Quando criei o Vênus em Arte, um canal para ensinar história da arte através das mulheres artistas, hoje também podcast, era só um jeito de me forçar a produzir sobre o assunto como forma de estímulo, pra não deixar a chama apagar. Com o tempo ele foi me dominando, virou conteúdo aqui, nas redes sociais, brincadeiras que causam interação e engajamento nos Stories e, ai, o céu é o limite. Não cheguei a pisar numa sala de aula, o plano original, mas ensinei e principalmente aprendi tanta arte além do que os livros vinham me mostrando até então que, de vez em quando, já me sinto a Katherine Watson contemporânea. Talvez seja pretensão da minha parte, eu sei. Mas na vida tem espaço até pra isso, pra ser a primeira admiradora da sua jornada pessoal. Ajuda a colecionar outras admirações por aí.

Esse se tornou o maior dos meus “filmes confortos” desde então, busco por ele sempre que preciso lembrar como é estar bem. Agora uma breve ironia é o fato de que minha cena favorita sequer conta com a presença dessa personagem amada, tão fabulosa que precisa ser mencionada, aula de sororidade quando a gente nem sabia o que significava essa palavra. Em dado momento, frustrada com a vida, uma das alunas tenta descontar isso na outra, a ofendendo através das próprias dores. A colega, sabendo do que está acontecendo, tenta fugir sem rebater, e quando é confrontada diretamente retribui com um abraço de consolo. Falar aqui não vai descrever realmente sua força, mas é reflexo indireto do que foi plantado na sala de aula, que as incentivou muito além do ensino de artes. Eu sei, é mais pretensioso ainda sonhar com esse fazer diferença… Mas quem sabe um dia?

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o décimo quinto, referente a 2018.

O Sorriso de Mona Lisa, Katherine Watson e eu | Dia 15 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Soul

Soul: Imagem do personagem Joe Gardner, um homem adulto negro, usando um chapéu sentado em frente a uma piano de causa. O personagem é um desenho de animação.

Soul *****
Soul: poster do filmes onde o título se encontra no alto, ao fundo, sendo a letra O um grande círculo luminoso de onde sai uma escada em forma de teclas de piano. Nos degraus de baixo se encontra Joa, protagonista da história, e seu gato. Sobre a letra L está Joe em sua forma de alma e a aprendiz 22, também na mesma forma. Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Angela Bassett, Phylicia Rashad, Ahmir-Khalib, Alice Braga, Daveed Diggs, Graham Norton, June Squibb, Rachel House, Richard Ayoade,Wes Studi (dublagem original)
Direção: Pete Docter
Gênero: Animação
Duração: 100 min
Ano: 2020
Classificação: Livre
Sinopse: “Joe Gardner é um professor de música de ensino fundamental desanimado por não conseguir alcançar seu sonho de tocar no lendário clube de jazz The Blue Note, em Nova York. Quando um acidente o transporta para fora do seu corpo, fazendo com que ele exista em outra realidade na forma de sua alma, ele se vê forçado a embarcar em uma aventura ao lado da alma de uma criança que ainda está aprendendo sobre si, para aprender o que é necessário para retomar sua vida.” Fonte: Filmow.

Comentários: Vencedor do Oscar de Melhor Filme de Animação e Melhor Trilha Sonora no Oscar 2021, além de ter sido indicado também para Melhor Som, Soul foi o lançamento lançamento da Pixar para o segundo semestre de 2020, com estreia na plataforma Disney+ no Natal. Seu protagonista é Joe Gardner, um professor de música que sempre sonhou ser pianista profissional de jazz. No dia que o músico tem sua grande chance de “chegar lá”, porém, sofre um acidente e morre, sendo encaminhado para uma “existência posterior”. Se recusando a perder o auge de sua vida, Joe tenta encontrar um modo de retornar à Terra, e é através de 22, uma alma ainda não nascida que se recusa a encarnar, que ele enxerga sua chance, tentando ajuda-la a se encontrar enquanto, na verdade, só quer voltar para seu corpo e as maravilhas que o aguardariam nele.

Através do típico “jeitinho Pixar” de encantar crianças e adultos ao mesmo tempo com temática densas apresentadas de forma divertida, o longa fala de vida, morte e do nosso suposto “propósito” no trajeto entre as duas, tudo isso com referências culturais e históricas e uma trilha sonora que é, definitivamente, seu ponto alto. Depois de ter passado um tempo estudando o Renascimento do Harlem ano passado, fiquei feliz em assistir um filme sobre jazz com um protagonista negro em cenário contemporâneo, quase 100 anos depois do auge do movimento, mostrando o quanto esse estilo segue ligado à população afro-americana e valorizando essa ligação. Por outro lado, não consigo deixar de problematizar que mais uma vez, assim como Tiana em “A Princesa e o Sapo”, ele passa a maior parte do tempo fora desse corpo representativo, mesmo que sua imagem esteja presente, reduzindo levemente esse protagonismo, infelizmente.

Soul: Imagem dos personagens 11 e Joe em forma de alma, duas criaturas de cor clara azulada. Atrás deles há um display com vários tipos de comida e Joe oferece uma fatia de pizza a 22, sorridente, que o olha de forma descrente.
Soul: Imagem via What’s After the Credits.

Depois da trilha sonora e dessa relação da mesma com uma minoria que ainda está ganhando espaço na cultura pop, outro destaque é o carisma das personagens. 22 é uma mistura da travessura e inocência infantil com o “peso” da maturidade, de forma difícil de explicar, mas identificável em vários pontos, o que junto com seu visual “fofinho” acaba gerando muita empatia do público em relação à mesma, que já ganhou seu próprio curta metragem no serviço de streaming. O próprio Joe causa esse afeto como personagem, fazendo com que a gente torça MUITO por ele, o tempo todo, querendo voltar pro início e impedir sua morte, pra começo do conversa. O núcleo secundário também é fascinante, principalmente os amigos e familiares dele na Terra, bem mais gostosos de acompanhar do que a parte no “Além”, que achei meio maçante, apesar das mensagens bacanas que passa.

Leia também: Resenha do filme Os 7 de Chicago.

Em resumo, o filme tinha “a faca e o queijo na mão” para ser genial, mas, como ponto negativo, faltou coragem por parte dos roteiristas de fazer um final um pouquinho mais ousado, tirando o estigma da morte como fracasso como fizeram em outras produções do estúdio. Por outro lado, ele não ultrapassa a linha tênue entre a positividade saudável e a tóxica, repensando nosso modo de buscar objetivos sem forçar um “papo de coach” que mais atrapalha do que ajuda. Eu resumiria esse recado não com palavras minhas palavras, mas com as de John Lennon: “vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”¹. Nem sempre temos a chance de aprender isso ainda aqui e, depois, não tem como voltar, então que vivamos o agora não sem planos, mas também além deles.

Trailer:

¹ John Lennon. Beautiful Boy (Darling Boy). Double Fantasy. Nova York: The Hit Factory, 1980. Faixa 7, Lado A.

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Os 7 de Chicago

Os 7 de Chicago

Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7) *****
Os 7 de Chicago: Elenco: Eddie Redmayne, Alex Sharp, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Danny Flaherty, Noah Robbins, Yahya Abdul-Mateen, Mark Rylance, Ben Shenkman, Joseph Gordon-Levitt, Kelvin Harrison Jr., Frank Langella, J.C. MacKenzie, Michael Keaton, Kevin O’Donnell, Tiffany Denise, Alice Kremelberg Bernadine
Direção: Aaron Sorkin
Gênero: Drama histórico
Duração: 129 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Baseado em uma história real, os 7 de Chicago acompanha a manifestação anti-guerra do Vietnã, que interrompeu o congresso do partido Democrata em 1968. Ocorreram diversos confrontos entre a polícia e os participantes. Dezesseis pessoas foram indiciadas pelo ato.” Fonte: Filmow.

Comentários: Indicado às categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Sacha Baron Cohen), Melhor Roteiro Original, Melhor Canção Original, Melhor Fotografia e Melhor Edição do Oscar 2021, que acontece hoje à noite, Os 7 de Chicago é um filme original Netflix baseado no caso jurídico real de mesmo nome, ocorrido nos Estados Unidos durante a década de 1960, e essa temática é a primeira coisa que deve ser destacada pois dita bastante o ritmo do longa. Superficialmente é o que podemos dizer sobre ele, o fato de que é um filme de tribunal, o que para pessoas que não têm nenhum interesse no assunto pode ser massante… Por outro lado, ele tem tantos aspectos positivos dentro e fora do cenário principal, em especial no que diz respeito à mensagem, que antes mesmo de prosseguir a dica é simplesmente que ASSISTAM!

Mas antes… Senta que lá vem história! Os Sete de Chicago eram um grupo de ativistas de diversas organizações de esquerda, sendo eles Tom Hayden, Rennie Davis, Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, John Froines e Lee Weiner, acusados pelo governo dos Estados Unidos de conspiração por estar engajados nos protestos contra a Guerra do Vietnã em Chicago no ano de 1968. Inicialmente eram oito réus, os “Conspiracy Eight”, mas Bobby Seale, líder dos Pantera Negras, teve seu julgamento interrompido durante o processo.

De cara o elenco monstro é um atrativo pesadíssimo para o público de modo geral. Apesar de Sacha Baron Cohen como Abbie Hoffman e Joseph Gordon-Levitt no papel do procurador Richard Schultz serem os reais destaques, cada um representando fortemente um “lado” do processo, eu tenho um “trem” com o Eddie Redmayne (para não dizer “crush, hahaha) que me fez voltar todos os olhares para ele enquanto interpretava Tom Hayden, uma figura bastante conhecida seja pela carreira política ou pelo longo casamento com a atriz Jane Fonda. Está, como sempre, muito maravilhoso, mas não seria certo dizer que se destoa por isso porque é um show atrás do outro, de verdade. A maneira como os personagens são apresentados, mostrando seus métodos e intenções, em como todos foram parar “no mesmo barco” é muito bem montada, os cortes são pertinentes e isso se estende em toda sua duração.

Os 7 de Chicago
Os 7 de Chicago: Imagem via Veja, num artigo que expõe o que é real no filme ou não.

É claro que a maior parte da história se passa dentro do tribunal, mas isso de forma alguma o torna entediante. Os diálogos misturam mensagens relevantes (falaremos disso a seguir), etapas do processo e… HUMOR! As piadas de Abbie Hoffman, que aconteceram de verdade, cortam o clima pesado sem deixar a coisa boba, as sacadas são pertinentes e inteligentes demais. Fora isso existem as cenas externas, colocadas durante o enredo para explicar como as coisas chegaram no ponto da trama central, e possuem essas mesmas características de falar do sério e do divertido, mas jamais do irrelevante. O vai-e-vei não é confuso, muito pelo contrário, esclarece nossa mente, denuncia hipocrisias, conecta quem assiste com quem está na tela. O slogan dos protestos era “O mundo inteiro está assistindo”, e agora eles voltam pra nossa vida como forma de entretenimento, numa plataforma global, para reforçar essa ideia.

Leia também: Resenha do filme A Voz Suprema do Blues, também indicado a diversas categorias no Oscar.

Não por acaso, o lançamento do filme aconteceu logo antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos, justamente para lembrar que o que já aconteceu segue acontecendo e determinando o presente – não só por lá, mas aqui também. A parcialidade escancarada de Julius Hoffman, completamente inadequada no seu papel de juiz, a fragilidade do estado democrático ao não aceitar a oposição, a violência policial transformada em algo cotidiano e até que ponto as pessoas se sentem confortáveis ao lutar contra isso, na teoria e na prática. É incrível ver como o (suposto) radicalismo de alguns se complementa com academicismo de outros, tornando ideais, juntos, bem mais fortes. Como qualquer produção estadunidense, a necessidade de mostrar “heroísmo” naquelas figuras históricas acaba criando um desfecho muito mais dramático e emocionante que a realidade, mas o recado foi dado, e não tem como ser deletado mais agora!

Trailer:

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A Voz Suprema do Blues

A Voz Suprema do Blues: cena do filme em que Viola Davis, interpretando a cantora Ma Rainey, se encontra ao centro, com uma mão levantada e a outra na cintura, usando um vestido típico da década de 20 em tom neutro de aspecto elegante está posicionada em frente a um microfone, cantando. No canto esquerdo da imagem o ator Chadwick Boseman interpreta Leve, tocando um instrumento de sopro enquanto veste terno de risca de giz. Ao fundo estão outros músicos da banda do filme, todos homens negros. O grupo está dentro de uma sala de cores neutras, apagadas, com grandes cortinas cobrindo as janelas.

A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom) *****
A Voz Suprema do Blues: Poster do filme em que o título em inglês (Ma Rainey's Black Bottom) está no topo e os créditos na parte inferior. Como imagens principais estão os astros Chadwick Boseman e Viola Davis, ele tocando um instrumento e ela posando, ambos vestindo trajes da cor azul marinho típicos da década de 1920 e com ar de luxo. Elenco: Chadwick Boseman, Viola Davis, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Taylour Paige, Dusan Brown, Jeremy Shamos
Direção: George C. Wolfe
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 94 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Ma Rainey (Viola Davis) é a ‘Rainha do Blues’. Ela faz um disco em um estúdio em Chicago, em 1927, mas as tensões fervem entre ela, seu agente, o produtor e seus colegas de banda.” Fonte: Filmow.

Comentários: Adaptado na peça de 1984 “Ma Rainey’s Black Bottom”, seu título em inglês, A Voz Suprema do Blues é um drama centrado na gravação de um dos álbuns da cantora de blues norte-americana Ma Rainey, quando o trompetista Levee demonstra grande ambição de entrar na indústria da música de forma mais ativa, através de suas próprias composições, provocando o resto da banda composta por homens negros de diferentes idades. A duração do filme é relativamente curta para um longa metragem e tem cenário bem limitado, se passando quase todo em apenas um dia, mas o primor da produção, atuações excelentes e temáticas relevantes rendeu cinco indicações à premiação do Oscar que acontece nesse domingo, dia 25, sendo elas Melhor Ator (Chadwick Boseman, em indicação póstuma), Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem e Melhor Figurino. (Atualizado: foi VENCEDOR das duas últimas!)

Mas antes… Senta que lá vem história! Gertrude “Ma” Rainey era conhecida como “A Mãe do Blues” por ser uma das principais cantoras de blues afro-americanas na década de 1920, uma das primeira mulheres a gravar álbuns do gênero. Sua carreira começou na Georgia, onde alegava ter nascido e faleceu, mas migrou para o norte, quando gravou diversos álbuns com a Paramount, em Chicago. Foi casada com Will “Pa” Rainey, também artista, o que deu origem ao seu nome de palco, e era conhecida não só pelo pioneirismo na área em relação ao seu gênero e cor e grande dinamismo performático, mas também estilo de vida controverso sexualmente, com seus casos com pessoas de ambos os sexos, e socialmente, ao se vestir com roupas tradicionalmente masculinas, atitudes consideradas radicais à época.

Apesar de falar da gravação de um álbum real por uma artista real, a trama que gira em torno de Levee, último papel de Boseman, é fictícia. Ele por si só é uma figura BEM interessante, um daqueles personagens profundos que te fazem sentir um pouco de incômodo pelas atitudes, mas tendo isso justificado logo em seguida ao conhecer um pouco mais de sua vida dramática carregada de cicatrizes, físicas e psicológicas. Um jovem que acredita no próprio trabalho em uma época onde negros sequer tinham direitos civis nos Estados Unidos, e apesar de ter estilo diferente da chefe na arte que eles compartilham é clara sua admiração por ela, que consegue ditar ordem até para os homens brancos com os quais trabalha. Essa dupla de protagonistas, lado a lado com um pequeno grupo de coadjuvantes tão incríveis quanto, é, de todos os pontos positivos, o mais admirável. Todos im-pe-cá-veis!

A Voz suprema do Blues: cena do filme em que Chadwick Boseman se encontra em primeiro plano, deitado sobre um banco com a cabeça apoiada em uma melta, e os outros membros da banda do filme estão ao fundo, olhando pra ele, ao lado de seus instrumentos. O quarteto se encontra em uma sala de parede de tijolos expostos e piso de paralelepípedos, com apenas uma pequena janela ao fundo de onde vem a iluminação e toda o ambiente tem tons neutros evidentes, dando detaque para o dourado dos instrumentos de sopro e o amarelo do sapato do protagonista.
A Voz Suprema do Blues: Imagem via Poltrona Nerd.

O roteiro é super forte, levanta muitas questões ativistas relevantes até hoje, complementado parte técnica que não deixa a desejar com sonoplastia excelente, fotografia belíssima e um figurinos característico da década de 1920 bem trabalhado. O visual do filme tem tons sóbrios, até mesmo o céu de verão em Chicago é pálido, quase branco, o que torna os ambientes fechados onde a história se desenvolve abafados, meio claustrofóbicos, mostrando o lado não tão glamouroso da indústria da música na prática. Uma vez que se trata de teatro adaptado para filme, as falas são rebuscadas e longas, combinadas ao sotaque sulista das personagens que intensifica essa característica. Para algumas pessoas imagino que isso seja um incômodo, principalmente nos pontos onde beira o musicado, tornando a pouca duração levemente arrastada. Não me atrapalha, achei que os desfechos surpreendentes fizeram valer a pena, mas entendo quem não gosta muito desse aspecto.

Leia também: 5 artistas (negras) do Renascimento do Harlem que você precisa conhecer!

Pessoalmente esse filme tinha grande apelo para mim porque gira em torno de um assunto que estudo desde o ano passado, o Renascimento do Harlem, conhecido como Novo Movimento Negro, que aconteceu bem nesse período. Apesar de a história não se passar nesse bairro Nova York, o “centro” do movimento, toda a discussão da emancipação cultural e intelectual afro-americana que girava em torno dele era a mesma no país inteiro, e a Ma Rainey era um das suas vozes, no sentido literal e figurado. Acho muito importante continuar falando sobre ele sempre para que a história dessas pessoas não se perca. Além disso, assisti depois e recomendo demais os dois documentários da própria Netflix sobre, Chadwick Boseman: Para Sempre, uma homenagem bem bonita ao ator, e A Voz Suprema do Blues: Bastidores, com mais informações a respeito do que aconteceu de verdade e sa produção em si, valem a pena!

Trailer:

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Radioactive

Radioactive: cena do filme em que Marie Curie, interpretada pela atriz Rosamund Pike, aparece no laboratório onde trabalhada usando um vestido longo, característico da virada do século XIX para o XX, e claro, com os cabelos presos no alto da cabeça. Ela se curva olhando para um frasco que contém um líquido de cor viva e quente, provavelmente um dos elementos químicos que estudava e/ou descobriu.

Radioactive *****
Radioactive: poster do filme onde Rosamund Pike, interpretando Marie Curie, olha para a frente segurando um pequeno frasco contendo Rádio, elemento químico descoberto pela cientista, que emite luminosidade radioativa. Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Anya Taylor-Joy, Aneurin Barnard, Indica Watson, Cara Bossom, Simon Russell Beale, Mirjam Novak, Corey Johnson, Demetri Goritsas, Tim Woodward
Direção: Marjane Satrapi
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 103 min
Ano: 2019
Classificação: 14 anos
Sinopse: “A história das paixões científicas e românticas de Marie (Rosamund Pike) e Pierre Curie (Sam Riley), assim como as reverberações de suas descobertas no século 20.” Fonte: Filmow.

Comentários: Imagina só ser uma cientista na virada dos séculos XIX e XX, sempre dependendo da boa vontade dos homens, que dominam a academia, para provar que seu trabalho tem potencial e deve ser levado a sério… Em meio a esse sexismo extremo, um dos instrutores da universidade te estende a mão, se tornando seu companheiro de trabalho e vida, após vocês se casarem, e te dando o nome pelo qual você seria eternamente conhecida como uma das principais físicas e químicas do mundo… Pois esse é só o início da história de Radioactive, que acabou de ser lançado na Netflix Brasil (apesar de ser um filme de 2019) e tem a maravilhosa Rosamund Pike no papel de igualmente maravilhosa Marie Curie, nos apresentando sua trajetória de forma belíssima e, em alguns momentos, até um pouco lúdica, não só como cientista, mas também mãe, esposa, imigrante, gente… Mulher!

Mas antes… Senta que lá vem história! Nascida Maria Salomea SkŁodowska em 1867, na Polônia, Marie Curie se mudou para Paris em 1891, seguindo a irmã, onde conseguiu enfim um diploma de ensino superior. Quatro anos mais tarde casou-se com Pierre Curie, também cientista e seu instrutor na universidade, que permitiu a ela um lugar em seu laboratório para conduzir suas pesquisas. A partir disso, eles publicaram a descoberta de dois elementos químicos, polônio (que leva esse nome em homenagem à sua terra natal) e rádio, da palavra “raio”, uma vez que descobriram também que esse elemento emitia uma espécie de luz e energia batizada por ela de radioatividade. Os dois ganharam o Nobel de Física em 1903 pela descoberta da radiação, sendo a primeira mulher vencedora do prêmio, e ela ganhou o de Química em 1911 pela descoberta dos dois elementos.

Pensando no filme como uma biografia, ele não deixou a desejar. O foco está, é claro, nas principais descobertas científicas da Marie e em como isso impactou sua vida, mas é possível perceber também sua relação com a família e colegas, visão religiosa e demais aspectos humanos por trás da personalidade que acabou se tornando. É claro que ter uma atriz incrível no papel ajuda, e o resto do elenco ao redor idem. Sam Riley, que eu só conhecia do filme “Malévola”, em um personagem bem menor, está esplêndido também, a própria imagem de companheirismo que qualquer pessoa pode querer ao seu lado, dá vontade de dividir o laboratório com um marido da mesma área e descobrir o mundo ao lado dela, também… Outro destaque é Anya Taylor-Joy, que aparece mais no final do filme como Irene, filha mais velha do casal, já adulta, atuando de forma igualmente espetacular.

Radioactive: Rosamund Pike e Sam Riley, interpretando o casal Curie, parados vestindo roupas escuras lado a lado, ela levemente na frente, se olhando.
Radioactive: Imagem via HebergementWeb.

Pesquisando sobre o longa, antes mesmo de assisti-lo, vi muitas reclamações sobre como a história foi conduzida, e discordo bastante. Não achei nem um pouco corrida, na verdade fiquei até surpresa com a quantidade de informações bem passadas em menos de duas horas, com direito a cenas de impacto, momentos levemente arrastados e drama quando pertinente. Adorei que eles intercalam o “presente” da cientista com o “futuro” da humanidade, dando exemplos práticos de como seu trabalho foi aproveitado no futuro de forma positiva, como o uso de radioterapias no tratamento contra o câncer, e negativa, através da aplicação bélica na bomba atômica que explodiu Hiroshima, além do famosíssimo acidente nuclear de Chernobil, em 1986. Momentos da história do nosso planeta, que estudamos ao longo da vida e acabamos citando em tantos outros, e tiveram seu “dedo” lá atrás, mesmo sem ela e nem a gente mesmo saber.

Leia também: Mulheres Incríveis, resenha de um livro onde Marie e Irene Curie são apresentadas graças aos seus feitos científicos, sendo a única dupla de mãe e filha a ganhar o Prêmio Nobel até hoje.

É um filme interessante para quem gosta de física e química, e pra quem não gosta porque fica tudo muito explicadinho em tela. Mais do que isso, é fascinante para conhecer mais sobre a história das mulheres na ciência, ao falar não só de uma pioneira, mas duas, já que Marie e Irene trabalharam lado a lado na criação do raio x portátil durante a I Guerra Mundial, apelidado de “Petite Curie”, salvando milhares de soldados, e esse período também é mostrado. Em alguns momentos, ao ver a luzinha verde do rádio na sua mão, dá desespero pelo contato tão próximo com algo que hoje sabemos que pode nos fazer mal (e, de fato, ocasionou na sua morte), mas é bom perceber que evoluímos tanto enquanto ciência, apesar de infelizmente continuarmos tão arcaicos socialmente, como nas cenas em que ela sofre misoginia e xenofobia e vemos até hoje…

Trailer:

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