A Voz Suprema do Blues

A Voz Suprema do Blues: cena do filme em que Viola Davis, interpretando a cantora Ma Rainey, se encontra ao centro, com uma mão levantada e a outra na cintura, usando um vestido típico da década de 20 em tom neutro de aspecto elegante está posicionada em frente a um microfone, cantando. No canto esquerdo da imagem o ator Chadwick Boseman interpreta Leve, tocando um instrumento de sopro enquanto veste terno de risca de giz. Ao fundo estão outros músicos da banda do filme, todos homens negros. O grupo está dentro de uma sala de cores neutras, apagadas, com grandes cortinas cobrindo as janelas.

A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom) *****
A Voz Suprema do Blues: Poster do filme em que o título em inglês (Ma Rainey's Black Bottom) está no topo e os créditos na parte inferior. Como imagens principais estão os astros Chadwick Boseman e Viola Davis, ele tocando um instrumento e ela posando, ambos vestindo trajes da cor azul marinho típicos da década de 1920 e com ar de luxo. Elenco: Chadwick Boseman, Viola Davis, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Taylour Paige, Dusan Brown, Jeremy Shamos
Direção: George C. Wolfe
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 94 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Ma Rainey (Viola Davis) é a ‘Rainha do Blues’. Ela faz um disco em um estúdio em Chicago, em 1927, mas as tensões fervem entre ela, seu agente, o produtor e seus colegas de banda.” Fonte: Filmow.

Comentários: Adaptado na peça de 1984 “Ma Rainey’s Black Bottom”, seu título em inglês, A Voz Suprema do Blues é um drama centrado na gravação de um dos álbuns da cantora de blues norte-americana Ma Rainey, quando o trompetista Levee demonstra grande ambição de entrar na indústria da música de forma mais ativa, através de suas próprias composições, provocando o resto da banda composta por homens negros de diferentes idades. A duração do filme é relativamente curta para um longa metragem e tem cenário bem limitado, se passando quase todo em apenas um dia, mas o primor da produção, atuações excelentes e temáticas relevantes rendeu cinco indicações à premiação do Oscar que acontece nesse domingo, dia 25, sendo elas Melhor Ator (Chadwick Boseman, em indicação póstuma), Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem e Melhor Figurino. (Atualizado: foi VENCEDOR das duas últimas!)

Mas antes… Senta que lá vem história! Gertrude “Ma” Rainey era conhecida como “A Mãe do Blues” por ser uma das principais cantoras de blues afro-americanas na década de 1920, uma das primeira mulheres a gravar álbuns do gênero. Sua carreira começou na Georgia, onde alegava ter nascido e faleceu, mas migrou para o norte, quando gravou diversos álbuns com a Paramount, em Chicago. Foi casada com Will “Pa” Rainey, também artista, o que deu origem ao seu nome de palco, e era conhecida não só pelo pioneirismo na área em relação ao seu gênero e cor e grande dinamismo performático, mas também estilo de vida controverso sexualmente, com seus casos com pessoas de ambos os sexos, e socialmente, ao se vestir com roupas tradicionalmente masculinas, atitudes consideradas radicais à época.

Apesar de falar da gravação de um álbum real por uma artista real, a trama que gira em torno de Levee, último papel de Boseman, é fictícia. Ele por si só é uma figura BEM interessante, um daqueles personagens profundos que te fazem sentir um pouco de incômodo pelas atitudes, mas tendo isso justificado logo em seguida ao conhecer um pouco mais de sua vida dramática carregada de cicatrizes, físicas e psicológicas. Um jovem que acredita no próprio trabalho em uma época onde negros sequer tinham direitos civis nos Estados Unidos, e apesar de ter estilo diferente da chefe na arte que eles compartilham é clara sua admiração por ela, que consegue ditar ordem até para os homens brancos com os quais trabalha. Essa dupla de protagonistas, lado a lado com um pequeno grupo de coadjuvantes tão incríveis quanto, é, de todos os pontos positivos, o mais admirável. Todos im-pe-cá-veis!

A Voz suprema do Blues: cena do filme em que Chadwick Boseman se encontra em primeiro plano, deitado sobre um banco com a cabeça apoiada em uma melta, e os outros membros da banda do filme estão ao fundo, olhando pra ele, ao lado de seus instrumentos. O quarteto se encontra em uma sala de parede de tijolos expostos e piso de paralelepípedos, com apenas uma pequena janela ao fundo de onde vem a iluminação e toda o ambiente tem tons neutros evidentes, dando detaque para o dourado dos instrumentos de sopro e o amarelo do sapato do protagonista.
A Voz Suprema do Blues: Imagem via Poltrona Nerd.

O roteiro é super forte, levanta muitas questões ativistas relevantes até hoje, complementado parte técnica que não deixa a desejar com sonoplastia excelente, fotografia belíssima e um figurinos característico da década de 1920 bem trabalhado. O visual do filme tem tons sóbrios, até mesmo o céu de verão em Chicago é pálido, quase branco, o que torna os ambientes fechados onde a história se desenvolve abafados, meio claustrofóbicos, mostrando o lado não tão glamouroso da indústria da música na prática. Uma vez que se trata de teatro adaptado para filme, as falas são rebuscadas e longas, combinadas ao sotaque sulista das personagens que intensifica essa característica. Para algumas pessoas imagino que isso seja um incômodo, principalmente nos pontos onde beira o musicado, tornando a pouca duração levemente arrastada. Não me atrapalha, achei que os desfechos surpreendentes fizeram valer a pena, mas entendo quem não gosta muito desse aspecto.

Leia também: 5 artistas (negras) do Renascimento do Harlem que você precisa conhecer!

Pessoalmente esse filme tinha grande apelo para mim porque gira em torno de um assunto que estudo desde o ano passado, o Renascimento do Harlem, conhecido como Novo Movimento Negro, que aconteceu bem nesse período. Apesar de a história não se passar nesse bairro Nova York, o “centro” do movimento, toda a discussão da emancipação cultural e intelectual afro-americana que girava em torno dele era a mesma no país inteiro, e a Ma Rainey era um das suas vozes, no sentido literal e figurado. Acho muito importante continuar falando sobre ele sempre para que a história dessas pessoas não se perca. Além disso, assisti depois e recomendo demais os dois documentários da própria Netflix sobre, Chadwick Boseman: Para Sempre, uma homenagem bem bonita ao ator, e A Voz Suprema do Blues: Bastidores, com mais informações a respeito do que aconteceu de verdade e sa produção em si, valem a pena!

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Radioactive

Radioactive: cena do filme em que Marie Curie, interpretada pela atriz Rosamund Pike, aparece no laboratório onde trabalhada usando um vestido longo, característico da virada do século XIX para o XX, e claro, com os cabelos presos no alto da cabeça. Ela se curva olhando para um frasco que contém um líquido de cor viva e quente, provavelmente um dos elementos químicos que estudava e/ou descobriu.

Radioactive *****
Radioactive: poster do filme onde Rosamund Pike, interpretando Marie Curie, olha para a frente segurando um pequeno frasco contendo Rádio, elemento químico descoberto pela cientista, que emite luminosidade radioativa. Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Anya Taylor-Joy, Aneurin Barnard, Indica Watson, Cara Bossom, Simon Russell Beale, Mirjam Novak, Corey Johnson, Demetri Goritsas, Tim Woodward
Direção: Marjane Satrapi
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 103 min
Ano: 2019
Classificação: 14 anos
Sinopse: “A história das paixões científicas e românticas de Marie (Rosamund Pike) e Pierre Curie (Sam Riley), assim como as reverberações de suas descobertas no século 20.” Fonte: Filmow.

Comentários: Imagina só ser uma cientista na virada dos séculos XIX e XX, sempre dependendo da boa vontade dos homens, que dominam a academia, para provar que seu trabalho tem potencial e deve ser levado a sério… Em meio a esse sexismo extremo, um dos instrutores da universidade te estende a mão, se tornando seu companheiro de trabalho e vida, após vocês se casarem, e te dando o nome pelo qual você seria eternamente conhecida como uma das principais físicas e químicas do mundo… Pois esse é só o início da história de Radioactive, que acabou de ser lançado na Netflix Brasil (apesar de ser um filme de 2019) e tem a maravilhosa Rosamund Pike no papel de igualmente maravilhosa Marie Curie, nos apresentando sua trajetória de forma belíssima e, em alguns momentos, até um pouco lúdica, não só como cientista, mas também mãe, esposa, imigrante, gente… Mulher!

Mas antes… Senta que lá vem história! Nascida Maria Salomea SkŁodowska em 1867, na Polônia, Marie Curie se mudou para Paris em 1891, seguindo a irmã, onde conseguiu enfim um diploma de ensino superior. Quatro anos mais tarde casou-se com Pierre Curie, também cientista e seu instrutor na universidade, que permitiu a ela um lugar em seu laboratório para conduzir suas pesquisas. A partir disso, eles publicaram a descoberta de dois elementos químicos, polônio (que leva esse nome em homenagem à sua terra natal) e rádio, da palavra “raio”, uma vez que descobriram também que esse elemento emitia uma espécie de luz e energia batizada por ela de radioatividade. Os dois ganharam o Nobel de Física em 1903 pela descoberta da radiação, sendo a primeira mulher vencedora do prêmio, e ela ganhou o de Química em 1911 pela descoberta dos dois elementos.

Pensando no filme como uma biografia, ele não deixou a desejar. O foco está, é claro, nas principais descobertas científicas da Marie e em como isso impactou sua vida, mas é possível perceber também sua relação com a família e colegas, visão religiosa e demais aspectos humanos por trás da personalidade que acabou se tornando. É claro que ter uma atriz incrível no papel ajuda, e o resto do elenco ao redor idem. Sam Riley, que eu só conhecia do filme “Malévola”, em um personagem bem menor, está esplêndido também, a própria imagem de companheirismo que qualquer pessoa pode querer ao seu lado, dá vontade de dividir o laboratório com um marido da mesma área e descobrir o mundo ao lado dela, também… Outro destaque é Anya Taylor-Joy, que aparece mais no final do filme como Irene, filha mais velha do casal, já adulta, atuando de forma igualmente espetacular.

Radioactive: Rosamund Pike e Sam Riley, interpretando o casal Curie, parados vestindo roupas escuras lado a lado, ela levemente na frente, se olhando.
Radioactive: Imagem via HebergementWeb.

Pesquisando sobre o longa, antes mesmo de assisti-lo, vi muitas reclamações sobre como a história foi conduzida, e discordo bastante. Não achei nem um pouco corrida, na verdade fiquei até surpresa com a quantidade de informações bem passadas em menos de duas horas, com direito a cenas de impacto, momentos levemente arrastados e drama quando pertinente. Adorei que eles intercalam o “presente” da cientista com o “futuro” da humanidade, dando exemplos práticos de como seu trabalho foi aproveitado no futuro de forma positiva, como o uso de radioterapias no tratamento contra o câncer, e negativa, através da aplicação bélica na bomba atômica que explodiu Hiroshima, além do famosíssimo acidente nuclear de Chernobil, em 1986. Momentos da história do nosso planeta, que estudamos ao longo da vida e acabamos citando em tantos outros, e tiveram seu “dedo” lá atrás, mesmo sem ela e nem a gente mesmo saber.

Leia também: Mulheres Incríveis, resenha de um livro onde Marie e Irene Curie são apresentadas graças aos seus feitos científicos, sendo a única dupla de mãe e filha a ganhar o Prêmio Nobel até hoje.

É um filme interessante para quem gosta de física e química, e pra quem não gosta porque fica tudo muito explicadinho em tela. Mais do que isso, é fascinante para conhecer mais sobre a história das mulheres na ciência, ao falar não só de uma pioneira, mas duas, já que Marie e Irene trabalharam lado a lado na criação do raio x portátil durante a I Guerra Mundial, apelidado de “Petite Curie”, salvando milhares de soldados, e esse período também é mostrado. Em alguns momentos, ao ver a luzinha verde do rádio na sua mão, dá desespero pelo contato tão próximo com algo que hoje sabemos que pode nos fazer mal (e, de fato, ocasionou na sua morte), mas é bom perceber que evoluímos tanto enquanto ciência, apesar de infelizmente continuarmos tão arcaicos socialmente, como nas cenas em que ela sofre misoginia e xenofobia e vemos até hoje…

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Dia do Sim

Dia do Sim: cena do filme onde a família protagonista aparece andando lado a lado em meio a uma multidão, animados, num parque de diversões.

Dia do Sim (Yes Day) *****
Dia do Sim: poster do filme onde se l~e o nome dos atores principais no alto, foto da família celebrando segurando balões d'água nas mãos e título em baixo. Elenco: Jennifer Garner, Edgar Ramirez, Jenna Ortega, Julian Lerner, Everly Carganilla, Hayden Szeto, H.E.R.
Direção: Miguel Arteta
Gênero: Comédia
Duração: 89 min
Ano: 2021
Classificação: Livre
Sinopse: “Acostumados a sempre dizer NÃO em casa, Allison e Carlos decidem dizer SIM aos seus três filhos durante 24 horas – por um dia inteiro, são as crianças quem ditam as regras! Eles nunca imaginaram que terminariam envolvidos em um turbilhão de aventuras por Los Angeles, Estados Unidos, nem que a família estaria mais unida do que nunca.” Fonte: Filmow.

Comentários: Allison costumava ser a mulher mais divertida de todas, sempre disposta a dizer “Sim” para as oportunidades da vida, inclusive Carlos, com quem se casou após perceberem enorme compatibilidade nesse aspecto. Com o passar dos anos, porém, o “Casal Sim” percebe que para criar seus três filhos, Katie, Nando e Ellie, passariam a dizer muito mais “Nãos” do que imaginavam. Após se ver retratada como uma ditadora em trabalhos da escola das crianças, Allison decide resgatar um pouco da pessoa que era antes e, seguindo uma sugestão do treinador da escola, eles instituam dentro de casa o “Dia do Sim”, vinte e quatro horas onde as crianças estão no controle e os país precisam atender a todas suas demandas, com algumas regras básicas para não existir excessos. Caso falhem, ela precisa pagar uma promessa para a primogênita em relação a algo que é completamente contra.

Comédia familiar levinha, despretensiosa e com a maravilhosa Jennifer Garner no papel principal, o que mais a gente poderia querer, né? Dia do Sim estreou na Netflix dia 13 de março e, por causa de uma péssima experiência anterior com comédias originais da plataforma, fiquei me questionando se valia a pena encarar essa em nome da produção de conteúdo. Sendo sincera, foi a atriz, muito mais que o plot, que me fez “apertar o play”, mas a partir do momento que isso aconteceu achei a narrativa tão gostosa, o humor tão inocente e a família tão carismática que foi fácil demais chegar ao fim com algumas risadas no pacote, lagriminhas penduradas nos olhos e, principalmente, sensação de que tinha conseguido desanuviar a cabeça com um entretenimento bobo, sim, mas exatamente o que a gente precisa de vez em quando em meio ao caos.

Dia do Sim: foto da família protagonita do filme, onde a mãe e os filhos mais novos se encontram em pé em cima da cama do casal, olhando para o pai que está ajoelhado no chão, com a filha mais velha em pé ao seu lado observando a cena.
Dia do Sim: Imagem via Hello Magazine

É claro que, como toda, comédia, existe o exagero forçado aqui e ali, mas no fim das contas, à medida que o dia onde se passa a história ia se desenvolvendo, senti que tanto as atitudes dos adultos quanto as das crianças foram extremamente pertinentes em relação à realidade. O filme aborda, em alguns pontos, questões super enraizadas da nossa sociedade, como o pai que tenta inconscientemente compensar suas frustrações no trabalho na criação dos filhos, a mãe que abriu mão da vida profissional para se dedicar à família, se tornando a imagem de autoridade na casa que leva toda a fama de malvada e como isso, na verdade, é tão comum no dia a dia que passa despercebido, mas que pode ser trabalhado para evitar que seja um problema. Apesar de acha-la dura em alguns momentos bem pontuais, entendi o lado da Allison em toda a trama.

Leia também: Na tag Netflix é possível ler todas as resenhas aqui do blog sobre produções originais do serviço de streaming!

Claro, a atriz é bem conhecida e interpreta a personagem central da história, mas o elenco é todo bacana, ela não precisa segurar as pontas sozinha, de forma alguma. O Carlos de Edgar Ramirez é uma pessoa bem real, com falhas e acertos que precisam ser repensados e enaltecidos, respectivamente. As crianças também são ótimas e os cinco, juntos, soam de forma bem gostosa como uma família comum. É um pouquinho mais difícil entender o lado da adolescente, que tem dilemas tão específicos da idade que acabam se tornando “chatos” na nossa cabeça que já esqueceu como as coisas funcionam? Sim. Mas faz parte da realidade dela, mesmo, e medindo todos os pontos de vista da narrativa até aquele com o qual a gente mais se identificou teve algo a aprender no “final feliz” de contos de fada da vida real que esse gênero sempre carrega!

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Inferno Astral – Vitor diCastro

Inferno Astral: foto do livro sobre papéis de cores variadas de estampas diferentes (estrelas, corações e listras). Embaixo dele, ainda sobre o papel, há um conjunto de flags para marcar livros de várias cores e um ímã de geladeira com uma ilustração remetente ao signo de Câncer, onda a menina tem as pontas das tranças em forma de pinças de caranguejo e qualidades do signo escritas ao seu redor.

Inferno Astral – Os signos estão de deboche comigo! *****
Inferno Astral: capa do livro que tem a bandeira do orgulho LGBTQIA+ no topo com o nome do autor, um círculo no centro com o título, o símbolo dos 12 signos e uma ilustração do casal protagonista, e chamas em baixo com os três animais de estimação dos mesmos acima da logo da editora. Autor: Vitor diCastro
Gênero: Romance
Ano: 2020
Número de páginas: 224p.
Editora: Outro Planeta
ISBN: 9786555351576
Sinopse: “Lucas é ariano. Bom, isso já diz muita coisa, né? Mas vamos lá, um pouco mais de informação. Lucas é apresentador de um programa de TV de muito sucesso. Nele, recebe convidados e adora falar de assuntos polêmicos. O público enlouquece quando ele começa a debochar dos entrevistados (que nem sempre ficam muito felizes com isso…). Em um dos programas, Lucas resolve debochar de uma astróloga, Dandara. Acontece que ela não é uma astróloga comum e, como punição, joga uma maldição no apresentador: pelos próximos doze dias, daquele até o dia do aniversário de Lucas, ele despertará com as piores características de cada um dos signos. Se não conseguir se tornar uma pessoa empática até lá, o ciclo da maldição se repetirá para sempre. Como se não bastasse, Lucas é um cara superconsumista e agora tem uma dívida milionária pra pagar a um agiota misterioso. O prazo máximo para o pagamento, adivinhem: dali a doze dias.” (fonte)

Comentários: Lucas é uma pessoa absolutamente intragável. Apresentador do programa de televisão Dazonze, ele trata seus convidados diários de maneira pior ainda que as pessoas próximas com quem convive diariamente, se é que isso é possível, e sequer coloca culpa no seu temido signo, Áries, uma vez que não acredita “nessa coisa” de signos. Durante seu inferno astral, faltando 12 dias para completar 30 anos e com um agiota anônimo na sua cola o ameaçando caso não pague sua dívida milionária após um empréstimo muito mal planejado, ele recebe a astróloga Dandara para uma entrevista, lidando com ela com o deboche e descaso de sempre. Ela, porém, não deixa a situação por isso mesmo e, com um peteleco em seu piercing no nariz, o amaldiçoa a passar os próximos dias sentindo na pele os 12 signos do zodíaco, como uma punição por sua extrema falta de empatia.

Inferno Astral: foto do livro sobre papéis de cores variadas de estampas diferentes (estrelas, corações e listras). Embaixo dele, ainda sobre o papel, há um conjunto de flags para marcar livros de várias cores e um ímã de geladeira com uma ilustração remetente ao signo de Câncer, onda a menina tem as pontas das tranças em forma de pinças de caranguejo e qualidades do signo escritas ao seu redor.

“Só queria te dizer que, se vocês não acreditam em signos, é melhor fechar esse livro agora mesmo. Eu não acreditava também, até que tive que viver na pele cada um dos doze signos, aí vi que eles são bem reais.”

Inferno Astral é o primeiro livro do YouTuber Vitor diCastro, do canal Deboche Astral que conta, hoje, com mais de um 1,5 milhões de inscritos, além de outros trabalhos para veículos na internet e canais de televisão. Eu gosto bastante do conteúdo dele porque sinto que é um jeito divertido de rir de si mesmo, sempre me identifico, mas não considero a maioria dos vídeos como sendo sobre ASTROLOGIA, que é uma forma de crença e autoconhecimento, e sim sobre SIGNOS, lidando os com estereótipos de cada um. São coisas diferentes, e tudo bem! O livro tem essa mesma vibe, você escuta a voz dele o tempo todo enquanto lê como se estivesse assistindo, a história é interessante para quem gosta do assunto ou não, mas teve execução realmente falha…Se fosse uma publicação independente eu poderia relevar, mas tendo uma equipe de edição por trás é impossível desconsiderar.

Inferno Astral: livro aberto na capa do capítulo 6, do Signo de Câncer, onde as páginas são pretas e a impressão branca, com a constelação do signo em baixo do título. Ao fundo, papéis coloridos e estampas variadas e, na frente, um ímã de geladeira do signo com uma ilustração de menina e características positivas do mesmo escritas ao seu redor.

Como pontos positivos temos a história, um jeito criativo de falar dos estereótipos de cada signo, com momentos engraçados e sem essa coisa de “signo bom ou ruim”. Fiquei meio pé atrás porque o autor é muito abertamente averso aos signos de Capricórnio e Aquário (que, coincidentemente, são meu Ascendente e Lua!), mas essa antipatia não está na narrativa, muito pelo contrário, os únicos momentos da história em que consegui gostar do Lucas foi quando estava “encarnado” neles. Ele em si é muito mala, mesmo, mas não considero isso um defeito porque é o objetivo: vê-lo melhorar pelo menos um pouquinho, com uma carga de defeitos que faz com que a gente ame odiá-lo. Além disso, traz muita representatividade em praticamente todas as personagens de maneira super natural, levantando questões pessoais de fazer parte de uma minoria mas sem tornar aquilo a única característica das pessoas em questão.

“Isso de se colocar no lugar do outro me fez pensar que eu passei tempo demais querendo ser o centro de tudo, sabe? Talvez agora eu queira focar em coisas mais importantes que ter roupas de marca e festas de arromba, entende?”

A linguagem é leve, claramente voltada para o público jovem LGBTQIA+, o que é incrível, mas na maior parte do tempo pesa tanto nesse uso de memes que fica cansativo, deixa de ser nossa forma natural de usa-los e se transforma num tsunami, a todo momento, às vezes mais de um na mesma sentença… Perdeu a graça rapidinho, passei vários capítulos sem conseguir rir e só melhorou nos que citei acima, justamente por serem signos mais “sérios” onde ficou mais espaçado. A parte do “suspense” também não se sustenta, o vilão misterioso fica bem claro desde a metade da história e o clímax, onde os “mocinhos” vão enfrenta-lo, é bem sem noção e forçado. Além disso, percebi em alguns erros, como uma personagem que está na cena e some, chega mas não consta na lista de quem “vai embora”. Até reli essa parte pra garantir que não me enganei.

Inferno Astral: capa traseira, com foto do autor usando um casaco da bandeira do orgulho LGBTQIA+ em fundo listrado, com pequena sinopse abaixo. Os outros elementos decorativos e fundo das fotos anteriores se repetem ao redor do livro.

Mas o pior de tudo pra mim, de verdade, foi o fato de que o ANIVERSÁRIO DO PROTAGONISTA NÃO É DENTRO DO SOL EM ÁRIES! O signo dele está errado! Cheguei a fazer uma simulação de mapa astral de dezessete de março levando em consideração alguns anos diferentes ao redor de 1990, trinta anos antes do livro ser publicado, usando o meio dia como horário de referência, mas realmente, em todos o Sol consta em Peixes. Não entendo como isso foi possível em um livro sobre o assunto, sinceramente. O projeto gráfico é todo belíssimo, a é capa alegre e divertida como uma comédia pede, o início de cada capítulo tem pegada mística com as constelações e fundo preto, além dos símbolos de cada signo nos intervalos da narrativa, que adoro, mas não sei se compensa os tropeços…

Vitor diCastro tem 31 anos e mora em São Paulo/SP. Se tornou popular na internet principalmente ao abordar temas relacionados a homofobia nos perfis do Quebrando o Tabu, onde enfim se mostra confortável com sua sexualidade após ter passado até por sessões na psicóloga na infância em uma tentativa de ser “mais menino”. Ele pode ser encontrado não só no canal e perfil do Instagram do Deboche Astral, mas também seus perfis pessoais @vitordicastro no Instagram e Twitter. Como um bom representante do Sol em Câncer fica muito claro o uso de inspiração de sua própria vida no núcleo familiar do protagonista de Inferno Astral, o que ajuda bastante a quem o acompanha a ter empatia pelo mesmo até quando está no seu pior (e fez derreter meu coração igualmente canceriano)!

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Malcolm & Marie

Malcolm & Marie: imagem em preto e branco do casal protagonista do filme em que Marie se deita sobre Malcolm, que está recostado em um sofá, com os rostos próximos e olhos quase fechados, como se estivessem prestes a se beijar.

Malcolm & Marie *****
Malcolm & Marie: poster do filme em preto e branco onde há uma imagem do casal protagonista recortada, com foco em seus rostos que olham um para o outro, e o título na frente. Em baixo se lê a chamada INSANO AMOR, a logo da Netflix e créditos do filme, em cima os nomes dos atores que interpretam as personagens. Elenco: John David Washington, Zendaya
Direção: Sam Levinson
Gênero: Drama
Duração: 106 min
Ano: 2021
Classificação: 16 anos
Sinopse: “O cineasta Malcolm (Washington) e sua namorada Marie (Zendaya) voltam para casa, após a festa de lançamento de um filme, para aguardar o iminente sucesso de crítica e financeiro. A noite de repente toma outro rumo quando revelações sobre o relacionamento começam a surgir, testando a força do amor do casal.” Fonte: Filmow.

Comentários: Após o lançamento do seu mais recente filme, Malcolm e sua namorada Marie voltam para casa com climas completamente diferentes, uma vez que ele está claramente animado celebrando a grande vitória da noite e ela apresenta olhar e comportamento que demonstram estado de espírito oposto ao dele. Enquanto vão conversando, às vezes em diálogos, outras em monólogos, sobre os acontecimentos do evento, uma série de mágoas e ressentimentos vão sendo colocados para fora em meio às pontuais declarações positivas e trocas de carinho madrugada afora, permitindo que quem os assiste entre profundamente na suas frustrações sem tomar partido na discussão, uma vez que ambos parecem fazer igualmente mal um ao outro, apesar dos sentimento genuíno que compartilham.

Lançado hoje pela Netflix com direção de Sam Levinson e elenco que se resume a apenas o casal protagonista, interpretado por John David Washington e Zendaya, Malcolm & Marie é um filme em preto e branco de temática contemporânea que se passa em apenas uma noite dentro da casa do casal, que é toda de vidro, no permitindo observa-los tanto quando a câmera nos coloca do lado de dentre dentro quanto quando permanece ao seu redor. A fotografia é belíssima, mesmo que seja uma casa de gente rica comum, sem muitos detalhes, como se fosse possível estar presente na vida deles intimamente e, ao mesmo tempo, ir descobrindo que existem cicatrizes tão profundas naquela relação que ninguém conseguiria vê-las de fora, uma vez que nem os dois parecem saber que aquilo tudo está ali até, enfim, verbalizar.

Malcolm & Marie: imagem em preto e branco do casal protagonista do filme onde ambos estão em um ambiente aberto, sentados em cadeiras de jardim com uma mesa entre eles. Marie veste apenas calcinha e uma camiseta e está soprando a fumaça do cigarro que está em sua mão, fora do enquadramento da imagem, enquanto Malcolm olho para suas mãos, que está juntas e levantadas em frente ao seu peito.
Malcolm & Marie: Imagem via Geek Tyrant

É impossível negar que os dois se amam, mas isso não torna o relacionamento saudável. Ambos precisam trabalhar questões fortes, tanto de si mesmos quanto a dois, e machucar o outro é uma ferramenta poderosa muito utilizada, mas que sempre sai pela culatra porque faz mal pra todos os lados. Achei a oscilação entre o ataque e o carinho MUITO real, completamente possível de acontecer em qualquer convívio próximo de qualquer família, mas não consegui tomar partidos porque, realmente, o fator tóxico ali, que corrói a convivência apesar do desejo de estar junto, é mútuo. Em alguns momentos em que destila seu machismo você tem vontade de mandar o Malcolm calar a boca, em outros de fazer o mesmo com a Marie, e eles mesmo não conseguem expor isso sempre se rendendo ao mesmo ciclo de escapes pessoais, como música, bebida, cigarro e tentativas de realizar tarefas corriqueiras, cada um ao seu modo.

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O ponto mais alto de todos, depois das atuações absoluta e inquestionavelmente impecáveis, é a trilha sonora, que não serve somente para dar às cenas o tom que o diretor deseja passar, mas também fala pelas personagens tudo aquilo que elas não conseguem dizer. Em cenário de amargura tão profunda, que podia ser corrigida com palavras simples como “obrigado” e “desculpa”, mas que só chegam quando já é tarde demais, a relação é pesada e apesar do filme não ser muito longo, com pouco mais de uma hora e meia de duração, você chega ao final exausto, como se tivesse vivido a noite junto com os dois, mas o cansaço é puramente mental pela dificuldade de ver a insistência em se machucar tão explícita em tela.

Particularmente acho que tem potencial para não ser tão amado por quem não sabe o que esperar, graças aos textos muito compridos e convívio saturado das poucas pessoas que vemos em tela, sempre no mesmo ambiente bicromático, mas me afetou de forma que acho ser exatamente o objetivo do longa, que foi cumprido. Por fim, fica aqui a curiosidade de que não é só o elenco que é pequeno, mas toda a produção foi reduzida para que fosse iniciado e lançado nesse último ano, durante a quarentena, sendo inteiramente gravado em apenas duas semanas no início da pandemia, quando as medidas de proteção estavam no auge. Podia ter dado bem errado, mas felizmente foi o contrário e o resultado é impactante!

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