Livros amarelados: Por que isso acontece? Como evitar? Dá pra reverter?

Livros amarelados: por que isso acontece? O que fazer para evitar? Tem como reverter? Textos sobre um quadrado branco, ao fundo, em preto e branco, uma pilha de livros não identificados um sobre o outro.

Depois de muita revolta com informações equivocadas sobre cuidados com livros que vi rodando pela internet, principalmente entre pessoas que produzem conteúdo literário no Instagram, Youtube e Twitter, resolvi que era hora de falar sobre isso eu mesma, porém com o embasamento científico de quem é realmente conservadora-restauradora com formação focada em bens em papel. Eu sei que as pessoas não têm má intenção ao compartilhar suas experiências no assunto, às vezes até pesquisam sobre e só visam ajudar os outros, mas quando alguém faz isso usando expressões como “conservação” e “restauração” acabam propagando que esses processos se resumem a isso, o que não é verdade porque várias dessas práticas podem, a curto ou longo prazo, até mesmo piorar a situação a acelerar o processo de deterioração deles.

E começando pelo que sinto que mais incomoda as pessoas, principalmente por acontecer com maior frequência com publicações de algumas editoras específicas, vamos falar hoje sobre livros que vão ficando amarelos com o tempo. Vou confessar que eu, pessoalmente, sou uma leitora e restauradora discípula, de forma bem leve, de John Ruskin que vê o processo de deterioração como algo natural que faz parte da história e materialidade das coisas, mas a partir do momento que a função fica comprometida por isso começa a ser realmente um problema pra mim… O amarelado em si impede um livro de exercer seu papel? Não! Mas pra outras pessoas que se importam com o visual sim, então vamos entender por que isso acontece, aprender como evitar ao máximo e conversar sobre o que pode ou não ser feito para reverter.

Por que meus livros ficam amarelados com o tempo?

Não podemos esquecer que o papel é feito de celulose, ou seja, é matéria orgânica! Assim como acontece a gente, a celulose sofre oxidação com o passar do tempo pelo simples fato de estar em contato com o oxigênio. E o componente associado à celulose que faz parte da parede celular dela e causa esse amarelamento com o tempo é uma macromolécula chamada lignina. É ela que dá o tom amarronzado da madeira e também que a torna forte e resistente, mantendo árvores fortes e em pé por anos e anos. À medida que vai oxidando, a lignina do papel vai apresentando esses tons mais escuros que tendem para o amarelo ou mesmo marrom. Sendo assim, quanto mais lignina tem um papel, mais rápido fica amarelo. Ela é o problema, mas muito necessária!

Psiu! Pres’tenção! Apesar da oxidação ser natural e não apresentar realmente danos à nossa saúde, alterações de cor de aspecto mais duvidoso, associadas a manchas de umidade, em relevo ou com tons que tendem para o esverdeado podem ser, na verdade, sinal de fungo ou outros micro-organismos! Tome cuidado ao maneja-los porque aí sim trazer problemas!

Existem outras formas de tonar um papel resistente sem isso, mas são processos que encarecem o produto final, é claro. É por isso que materiais como papel jornal, que precisa ter baixo custo e ainda assim boa resistência, ficam amarelos tão rápido! Não tem nada a ver com a editora, o fato de ser matéria prima nacional ou má qualidade, é só um processo químico natural como qualquer outro! Inclusive, abaixo, fica a prova de que livros importados também ficam amarelos: nela estão minhas duas edições do livro “O Amor é a Cura”, do Elton John, que chegaram aqui mais ou menos da mesma época. A britânica (Love Is The Cure) ganhei da Elton John AIDS Foundation no fim de 2012 está com o corte todo amarelo, enquanto a brasileira da Amarilys, ganhada na mesma época em um amigo oculto, segue branquinha como se estivesse nova.

Foto vista de cima dos livros, onde Love Is The Cure apresenta corte oxidado e O Amor É A Cura ainda está branco.

Como evitar ou reverter essa situação?

A melhor maneira de evitar que seus livros fiquem com as páginas amarelas com o tempo é a prevenção. Claro, não tem como você evitar que ele entre em contato com o oxigênio em si, mas alguns agravantes podem ser destacados, a maioria deles de ação irreversível. A luz e o calor são os piores, por isso mantenha seus livros sempre longe do Sol, em local arejado, onde eles possam “respirar”. Se você não tiver onde armazena-los longe de janelas é interessante colocar pelo menos algum pano cobrindo essa luz nos horários onde é mais forte, o Sol realmente é um grande inimigo da preservação de livros. Até a maneira de organizar a estante é importante, tentando deixar um espaço mínimo entre eles e de distância do fundo, para que o ar circule ali.

Ao contrário do que muita gente pensa, guardar os livros em sacos ou filme plástico não é legal, porque abafa e aumenta o calor e pode causar microclima do jeitinho que fungos e bactérias gostam, principalmente em locais muito úmidos. Também torna mais difícil ver se tem algo de errado acontecendo, ataques de traças e afins. Para manter os livros longe da poeira, que pode contribuir pra oxidação, o ideal é limpa-los com pano seco, pincel e/ou trincha macia, sem produtos molhados ou com cheiro. O mesmo vale pra estante, principalmente se for de madeira! Se tiver alguma sujeira mais resistente é legal ralar um pouquinho de borracha branca e passar no lugar, mas cuidado com as regiões de tinta porque pode acabar apagando junto. Por fim, se possível, é bom não deixa-los onde tem muita umidade, mesmo sendo algo mais difícil de controlar.

Posso lixar ou pintar o corte dos livros?

E agora vamos pra parte mais sensível do post, que é onde surgiu toda minha revolta com o compartilhamento de informações equivocadas sobre o assunto… Virou um costume forte lixar os cortes de livros que ficam amarelados com o objetivo de mantê-los com aparência renovada e limpa, mas chamar isso de conservação ou mesmo restauração é um erro muito grande, porque pode fazer muito mal! Com a lixa acaba acontecendo quebra na fibra do papel, nesse caso em todo o corte, fazendo com que seja mais fácil acontecer acidentes ao folear, deixar cair e afins, aumentando a possibilidade de rasgos. Além disso não impede que a oxidação continue acontecendo, então o problema vira uma reação em cadeia. Alguns restauradores o fazem, sim, mas com muito mais técnica e experiência que um leigo. Eu, particularmente, não gosto e não uso a lixa pra esse fim.

Pintar os cortes também é problemático, uma vez que apenas tampa o lugar e sequer tira a parte oxidada! Dependendo da composição da tinta que você usa pode acontecer reação química e estragar o papel, com o mesmo problema citado anteriormente da quebra da fibra, e ainda atrair mais sujeira, sendo mais difícil de limpar. Melhor não, né? E mesmo se for feito é importante saber dos riscos que você está assumindo e, claro, não chamar das expressões citadas antes, que se referem a processos que devem ser feitos com conhecimento científico prévio. Acima de tudo é importante aceitar que eu, vocês e os livros, todos oxidamos! Faz parte do lindo processo de envelhecer e o conteúdo que existe ali dentro – tanto pra eles quanto pra pessoas – é o que realmente importa, mais que a carcaça!

Conteúdo em vídeo

Para mais conteúdos sobre esse assunto vocês podem acessar a categoria Conservação-Restauração aqui no blog ou a playlist Preservação de Livros no meu canal do YouTube. Em ambos os lugares vocês encontram mais relatos sobre o curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da UFMG!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o quinto, referente a 2008, ano em que entrei na faculdade!

Livros amarelados | Dia 04 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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