Gola careca e nós atados

Foto de duas mãos fechadas, se tocando, usando alianças de noivado no dedo anelar. A mão masculina pertence a um homem negro e feminina a uma mulher branca.

Cecília ouviu Patrick chamando seu nome e tirou os olhos da tela do celular ao mesmo tempo que ia se levantando do banco do shopping no qual estava sentada. Ai, como ele estava lindo! Usava uma camisa de gola careca azul marinho que ela tinha dado de presente no último Dia dos Namorados e calça jeans de lavagem escura, do jeito que sabia que ela gostava. Eles se beijaram rapidamente e já foram andando de mãos dadas rumo ao cinema para imprimir os ingressos comprados anteriormente pela internet. Comentavam alegremente sobre a festa de casamento de Pilar e Jonathan, primo dele, que tinha acontecido naquele fim de semana. A festa foi linda, eles dançaram a madrugada toda e o buquê, que ela conquistou com bravura na hora que foi arremessado pela noiva, estava em cima da mesa da sua casa, murchando lentamente, mas com ar de troféu.

Assistiram a um filme de animação muito emocionante, daqueles que divertem as crianças enquanto causam muito pesar aos adultos que entendem a mensagem por trás das piadas. O dois sussurravam algumas coisas, tomando cuidado pra não incomodar o resto do cinema, que não estava muito cheio. Dividiam um pacote de discos de chocolate, preferiam não comer nada mais pesado porque os planos incluíam um jantar mais tarde, e quando os créditos finais começaram a subir pela tela, se preparando pra levantar e jogar a embalagem fora, uma criança surgiu, de repente, comentando o filme com os pais sem vê-los ali, derrubando o resto do conteúdo do copo de refrigerante em cima do rapaz.

Cecília se preparou pra falar “Tudo bem!” pro pedido de desculpas que viria em seguida, mas a reação de Patrick foi completamente inesperada: ele ficou muito bravo. Não falou nada com a criança em si, que de fato parecia muito envergonhada, mas saiu do cinema bufando, irado, murmurando todos os xingamentos que conhecia. Ela pediu que mantivesse a calma, afinal era só um pouquinho de refri, mas por algum motivo ele ficou transtornado mesmo com a camisa suja. Sugeriu que fosse ao banheiro se limpar antes do jantar, mas a reação foi tão incomum que nem clima para jantar ele sentia mais. Conversaram por alguns minutos no corredor do shopping sobre isso, desanimados, e decidiram ir pra casa dela, pedir algo pra comer lá mesmo, melhor fechar a noite logo de uma vez.

Dentro do táxi Cecília acessou o site onde tinha comprado aquela camisa, Key Design, e pediu logo mais um kit com três. Não fazia sentido algum ele ter reagido daquele jeito! Todo bem que gostava da peça, mas se exaltar tanto por causa de um molhadinho de nada a ponto de nem querer jantar? Ela não conseguia entender, mas mostrou pra ele a tela com o pedido confirmado, esperando que se animasse. Ele sorriu e agradeceu, “Poxa, amor não precisava!” e ficou em silêncio em seguida, sem falar mais nada o caminho todo. Esquisitíssimo. Viu pelo canto de olho que pegou o próprio telefone e começou a pedir algo para eles comerem, mas sem nem a breve troca de “Escolhe você!” que era parte tão frequente do cotidiano deles. Nada ali fazia sentido.

Chegando em casa ele foi correndo trocar de roupa, colocando uma camisa de outra cor, com ela atrás querendo entender o que estava acontecendo. Ele tentou desviar, indo em direção à sala e falando que depois do jantar conversariam, mas Cecília insistiu. Patrick era o cara mais legal do mundo, jamais deixaria uma noite gostosa terminar daquele jeito. Ele então, de repente, tirou uma caixa de alianças no bolso, explicando que queria tudo perfeito, mas já que ela insistia tanto, o pedido seria feito ali, mesmo, sem obedecer ensaio, fora do restaurante amado e usando uma cor que não era sua favorita. Ela ficou olhando sem acreditar, com os olhos cheios d’água, enquanto ele colocava o anel em seu dedo dizendo que já era hora de se casarem. Ela concordou, retribuindo o gesto. Na mesa, o buquê parecia sorrir de alegria, mesmo que não tivesse um rosto para fazê-lo.

Foto de um homem negro, que mostra do nariz ao peito, usando uma camisa de gola careca azul. Sua mão direita está na frente do corpo, tocando o ombro esquerdo, e ele usa pulseiras artesanais.
Camiseta de gola careca sem bolso azul marinho.

Psiu! Prest’enção! Esse post é uma publicidade da Key Design. Você pode conhecer os produtos no site da loja e em redes sociais como Facebook, Instagram, Pinterest e canal no YouTube.

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o sétimo, referente a 2010, inspirado em um sonho que tive na época.

Gola careca e nós atados | Dia 07 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Aquela Camiseta Longline

Camiseta Longline

Você provavelmente nem repara em mim ao entrar aqui em casa, mas garanto que o Chefe sim. Sou um dos primeiros objetos que ele pega, antes mesmo de dar comida pro cachorro (e repreendê-lo por ter me escondido mais uma vez), tirar o relógio ou colocar sua camiseta longline masculina e calça jeans para lavar, substituindo por uma bermuda velha. Ele me procura antes de poder usufruir dos meus serviços, muitas vezes deixando tudo ligado enquanto toma banho ou coloca a comida congelada que trouxe em sacolas de supermercado no microondas, prestes a comê-la jogado no sofá enquanto assiste a um filme qualquer que eu o ajudei a encontrar depois de poucos minutos de indecisão…

É, você provavelmente não repara em mim, mas ele sim, pois eu sou o controle remoto da televisão, e pertenço a um homem chamado Dante Homem de Lama, o que não torna minha vida muito emocionante. Dante sempre assiste aos mesmos canais, consome os mesmos alimentos, usa as mesmas cores e estilo de roupas e leva seu cachorro para passear no mesmo horário, antes de sair de casa carregando a mesma pasta que tem há anos. De vez em quando sai para tomar cerveja, mas sempre volta sozinho, sua única companhia humana ocasional é uma jovem chamada Marta, que esteve aqui pela última vez no Dia dos Pais.

Sim, sim, eu sou um objeto inanimado, mas sempre sei que dia é hoje! Meu próprio nome diz, tenho controle de tudo ao meu redor, e sabia que Marta não deixaria de passar esse dia ao lado do pai. Estávamos eu e ele naquele fim de manhã de domingo jogados no sofá quando o interfone tocou pela primeira vez, eu soube que a pessoa que podia trazer um pouco de variedade ao meu trabalho estaria, em breve, entrando por aquela porta. Dante me colocou posicionado de forma que eu conseguia ver a entrada do apartamento, mas fiquei surpreso quando, após atender o chamado, saiu por ela e voltou com um pacote cheirando a comida. Passei os minutos seguintes decepcionado, ela nunca tinha esquecido…

Camiseta Longline
Imagem via: Key Design

… mas enfim veio o segundo chamado, menos de meia hora depois! Marta entrou carregando uma sacola de presente, cheirando a seu habitual perfume e levando a alegria de sua voz melodiosa a cada canto da casa. Perguntou se a comida que havia mandado já tinha chegado e, antes mesmo que ele confirmasse, já estava na cozinha tirando pratos, talheres e toda a felicidade do mundo de dentro dos armários. Nem mesmo a expressão séria do pai faz com que ela se abale. Ao mesmo tempo que arrumava a mesa ela veio até mim e clicou no botão “Mute”, para que as explosões de um filme extremamente repetitivo de ação não atrapalhasse a conversa que teriam, praticamente um monólogo. Então, conseguindo fazer tudo de uma vez com extrema facilidade, entregou enfim a ele seu presente, lhe dando um abraço.

Uma, duas, três cores diferentes de camiseta longline foram tiradas da caixa, todas em tons neutros, e mesmo de dentro do recipiente onde fui colocado consegui vislumbrar um projeto de sorriso no rosto do presenteado, o que ela sabia ser mais do que suficiente para provar uma aprovação. Dante sequer sabia o nome do modelo, mas a filha sim, disse notou que é só isso que ele veste, sempre nas mesmas cores, e sabia que se apostasse ali não tinha como errar. Ele deu de ombros murmurando “Nem reparei que me visto desse jeito” e ela reafirmou o que já havia sido dito, “Pois eu reparo!”.

As tardes com Marta sempre parecem passar rápidas demais, e a programação da televisão nunca é tão envolvente quanto ela, para nenhum de nós. Sua curiosidade transforma as semanas monótonas do pai em eventos arrepiantes, seja querendo saber como vivem seus colegas de trabalho de vida desinteressante ou onde tinha ido parar a pulseira de ouro que ele costumava usar, mas que sequer notara que estava há dias sumida. Sua vinda traz luz, mas a ida também faz parte do processo, levando consigo um abraço de despedida, nos deixando iluminados apenas pelos programas que fielmente forneço a ele que chamo de Chefe, e sequer sabe disso.

Psiu! Prest’enção! Esse post foi inspirado na proposta #331 do Creative Wrinting Prompts e é uma publicidade da Key Design/. Todas as imagens de produtos aqui presentes foram tiradas do site da loja em agosto de 2020.

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