Bem-Vindo ao Clã Nicolau – Renata Borges

Bem-Vindo ao Clã Nicolau: foto do aparelho Kindle com a tela ligada onde a capa do livro aparece em destaque. Ao fundo, envelopes de papel brancos e cor-de-rosa, e ao redor bolas de natal rosa em tamanhos variados, uma xícara de chocolate quente e um prato contando um papai noel de chocolate.

Bem Ben-Vindo ao Clã Nicolau *****
Bem-Vindo ao Clã Nicolau: capa do livro cuja ilustração personagem principal feminina em destaque, de olhos fechados e cabelos para cima, formando um céu estrelado onde se lê o título. Em suas mãos está um globo de neve que contém uma pequena cidade invernal e um jovem casal tentando segurar as mãos um do outro na frente. Em baixo da ilustra consta o nome da autora. Autora: Renata Borges
Gênero: Romance
Ano: 2020
Número de páginas: 158p.
Editora: Publicação Independente
ISBN: B08PC9S1WY
Sinopse: “Quanto tempo um amor pode esperar? Um ano, dois… ou quem sabe nove?
Claire sabe que conheceu o amor de sua vida. Não interessa que todos falem que ela é jovem demais ou que as longas cartas que ela troca há nove anos com Ben, não são mais que um passatempo.”
(fonte)

Comentários: Claire e Ben se conheceram no natal de 2008 e, como todo romance avassalador adolescente, se apaixonaram à primeira vista. Ela tão nova já ajudando no trabalho da família, a Pousada do Clã Nicolau, ele ainda sem saber NADA sobre como lidar com os sentimentos que estão nascendo ali. Nove anos se passaram e a história sobreviveu através de cartas e mais cartas de amor até que na mesma época em 2017 ela, agora a mais velha de 9 irmãs e formada em Administração, responsável oficialmente pela gerência do local, recebe uma carta um tanto quanto animadora depois de um longo tempo de silêncio. É aí que os dois nos levam por uma jornada entre passado e presente para conhecer essa história de amorzinho digna de filme gostoso e levinho de natal, daqueles que a gente gosta SIM e não esconde!

“Esse é aquele momento que nos beijamos e quase nos esquecemos que nossas irmãs histéricas estão no mesmo ambiente que nós dois. A cada beijo, eu quero permanecer mais tempo colado a ela e não preciso nem mencionar todos os efeitos que ela tem em meu corpo em combustão de hormônio adolescente.”

Bem-Vindo ao Clã Nicolau: foto do aparelho Kindle com a tela ligada onde a capa do livro aparece em destaque. Ao fundo, envelopes de papel brancos e cor-de-rosa, e ao redor bolas de natal rosa em tamanhos variados, uma xícara de chocolate quente e um prato contando um papai noel de chocolate.

Situado em ambientação própria da autora, a ilha de Porto Novo, em clima clássico de Natal característico do frio Distrito Leste, daqueles em que a paisagem é fria, a natureza toma conta de boa parte de seu território e o calor humano reina… “Bem Ben-vindo ao Clã Nicolau” é literalmente um comitê de entrada no universo literário da blogueira, escritora, autora das fotos literárias mais lindas do mundo e amiga Re(nata) Borges, a Retipatia. Como toda oferta de boas vindas ao aconchego, ela te deixa confortável, “em casa”, com a presença das personagens e ambiente que criou. Se você conseguir terminar as páginas da noveleta sem desejar uma boa caneca de chocolate quente, sinceramente, não curtiu da maneira que devia. Dá muita vontade de passar as festas de fim de ano na pousada do clã Nicolau e curtir um dos chalés que eles oferecem por lá.

“(…) há nove anos, quando eu o conheci, existiam poltronas vermelhas com tapetes esverdeados que davam a ideia de que era Natal o ano todo. Bem, na verdade, no clã Nicolau é quase isso mesmo, Natal o ano todo.”

Bem-Vindo ao Clã Nicolau: foto do aparelho Kindle com a tela ligada onde a capa do livro aparece em destaque. Ao fundo, envelopes de papel brancos e cor-de-rosa, e ao redor bolas de natal rosa em tamanhos variados, uma xícara de chocolate quente e um prato contando um papai noel de chocolate.

Talvez seja por toda essa magia do “visual” da história, talvez porque conheço a autora há muitos anos por causa do amor em comum por bonecas, mas foi assim que imaginei todo mundo ali: Pullips animadas em stop motion me apresentando a esse romance que aquece o coração da mesma forma que a bebida favorita da protagonista aquece seu corpo. Ao mesmo tempo vira e mexe rola aquele “solavanco” de realidade em lembrar que tudo se passa num lugar fictício, sim, mas que faz parte do nosso mundo real! Dessa forma podemos ouvir as músicas que eles escutam, conhecer os filmes dos quais eles falam e saber mais ou menos como estava nossa própria vida nos momentos que são ali vividos. É super o tipo de livro para ler com o Spotify do lado para pesquisar e curtir a trilha sonora enquanto ela acontece!

Leia também: O Espírito Natalino, resenha desse breve e emocionante conto de natal de Júlia Cancian.

Bem-Vindo ao Clã Nicolau: foto do aparelho Kindle com a tela ligada onde a capa do livro aparece em destaque. Ao fundo, envelopes de papel brancos e cor-de-rosa, e ao redor bolas de natal rosa em tamanhos variados, uma xícara de chocolate quente e um prato contando um papai noel de chocolate.

“Acho que as músicas são assim, nos afetam conforme nosso estado de espírito.”

Falando de forma bem pessoal, a Rê é a pessoa mais exigente que conheço, com tudo, mas em especial com o próprio trabalho (capricorniana, né mores?). A história do clã Nicolau não é diferente, muito bem escrita e fluída, usa frases bem estruturadas e, ainda assim, sem rodeios desnecessários: você entende as coisas, absorve, visualiza, sente. Consegui me identificar TANTO com a Claire que sorri, tremi e chorei junto com ela sempre que pertinente, dava vontade de pegar na sua mão, seja como adolescente ou adulta, e viver seus altos e baixos lado a lado. É tão gostoso ver uma mulher bacana assim num livro de romance, né? Que sabe oscilar entre a força e a fragilidade nos momentos em que precisa delas, como a gente tem que ser na vida real, mesmo, 50% princesa da neve de conto de fada, 50% heroína com as rédeas da própria vida!

Renata Borges é brasileira, mora em Belo Horizonte, graduada em Direito pela PUC Minas. Hoje ela trabalha como escritora, escrevendo sobre livros nas redes sociais e no blog Retipatia e suas próprias histórias de ficção, como essa que está disponível como ebook Kindle na Amazon por R$1,99 e aluguel de graça para usuários Unlimited. Para conhece-la melhor vocês podem seguir o @retipatia Twitter e Instagram, onde ela cria MUITO conteúdo literário e tem também o projeto @gentilezaliteraria, além de organizar também oficinas para quem quer manter um bookstagram de qualidade e mais gentil. Agora ela tá também caminhando com seu canal do Youtube, cuja qualidade é à altura de todo o resto que produz.

Espero que todos tenham vivido um Feliz Natal nesse 2020 tão estranho, com leituras de aquecer o coração pra quem é dos livros, filmes e séries cheios de “ha-ha-ha” para quem é dos audiovisuais, pessoas queridas por perto ainda que distantes e com a mesa farta daquilo o que gosta. Que o próximo Natal seja mais leve e, literalmente, vacinado!M/p>

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O Espírito Natalino – Júlia Cancian

O Espírito Natalino: foto do aparelho Kindle com a tela ligada em que a capa do livro aparece em destaque. Ao fundo, galhos de uma árvora de natal branca com enfeites rosa choque variados.

O Espírito Natalino *****
O Espírito Natalino: Capa do livro de fundo liso, pequenos enfeites de natal no topo, seguida do título da obra. Ao centro, dois suéters de temática natalina estão lado a lado, como um casal, e na parte inferior consta o nome da autora. Autora: Júlia Cancian
Gênero: Conto, fantasia
Ano: 2020
Número de páginas: 32p.
Editora: Publicação Independente
ISBN: B08P61G158
Sinopse: “Énastros e Berenice se conheceram em uma noite de natal, no vigésimo segundo aniversário dele. No entanto, naquele minúsculo apartamento também vivia um outro alguém. Berenice só não contava que esse amigo fosse um tanto quanto… Incomum. Um conto em que o personagem principal não é humano e tem que lidar com uma grande perda.” (fonte)

Comentários: Você já imaginou como é a vida de um Espírito Natalino? Visualize só a ideia de ser querido por todos, esperado o ano inteiro, trazer sensações maravilhosas a tantos amantes dessa data especial e não poder curtir realmente isso com nenhuma dessas pessoas… Essa é a vida do protagonista desse conto de fim de ano de Júlia Cancian: ele não pode ser visto, ouvido ou mesmo verdadeiramente sentido pelos humanos com quem convive todos os dias. Fica apenas vagando pelo planeta, fazendo parte dele como pode até, enfim, conhecer e começar a estabelecer um certo contato com Énastros, um jovem escritor também nascido no natal de história triste e igualmente solitário. Quando Berenice, uma moça pela qual o rapaz se apaixona quase instantaneamente, aparece na vida dos dois, a história tem tudo para ter o mais feliz dos finais.

O Espírito Natalino: foto do aparelho Kindle com a tela ligada em que a capa do livro aparece em destaque. Ao fundo, galhos de uma árvore de natal branca com enfeites rosa choque variados.

Um conto carregado de sentimento e, ainda assim, com a leveza que esse fim de ano tão tenso que estamos vivendo pede, O Espírito Natalino nos faz desejar muito poder sentir a presença de “Lino”, narrador personagem que, na história, é o responsável por nos fazer amar tanto essa época do ano. Ao longo das páginas, vemos sua ligação com Énastros crescendo, e também a dos dois com Berenice e seu pudim delicioso. Uma história simples, e ainda assim bem trabalhada em detalhes bonitos, como a escolha dos nomes e enaltecimento do estado natal da autora, que aproveita a deixa para falar um pouco da cultura do mesmo ao narrar as viagens desse ser especial. Juro, fiquei imaginando como seria fazer um curta metragem de animação dele, daqueles em que as personagens não falam, mas te fazem chorar (e muito!) tanto ao longo do enredo quanto no final melancólico.

“O amor não é sobre religião, caso você esteja pensando nisso neste momento (…). O amor é sobre pessoas, é sobre o outro, é sobre o que eu posso fazer para diminuir a dor do meu próximo.”

Aliás, falando em final, ele me pegou 100% de surpresa! Eu imaginava que os acontecimentos que estavam sendo narrados se desencadeariam em situações completamente diferentes, rotineiras, até que de repente veio um grande impacto que me deixou paralisada por um segundo antes de continuar. Como alguém que escreve (e adora um bom draminha), fiquei imaginando como foi para a autora chegar ali, se ela pensou em outros caminhos, mas ao mesmo tempo que o coração fica pequenininho, dá pra entender a direção pela qual optou. Meio “a vida é assim”, sabe? Mas sendo em bons ou maus momentos, “Lino” segue como alguém que dá vontade de abraçar e ajudar a seguir com sua vida imortal (já que, como ele mesmo disse várias vezes, ser um Espírito não o torna um fantasma). Livro totalmente recomendado para aquela leiturinha rápida antes do dormir que vai te ajudar a sonhar em paz!

Leia também: O Conto de Natal, uma pequena história natalina publicada aqui no blog!

Júlia Cancian é brasileira nascida e moradora do Espírito Santo, graduanda em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Espírito Santo. Aos 18 anos (quaaase 19), ela já tem dois contos publicados na Amazon Kindle, disponíveis para compra ou de graça para assinantes Kindle Unlimited: O Espírito Natalino e Todas as Luas de Júpter, que conta em primeira pessoa a história de uma mulher transtorno dissociativo de identidade (TDI). Para conhece-la melhor vocês podem seguir no Instagram @juliahcancian ou Twitter @itsazriel.

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O Conto de Carnaval

O Conto de Carnaval

O Conto Carnaval

Lá estava eu, encostada no muro que dava vista pra Praça da Estação logo em baixo, sem me mover um centímetro de lugar, porque isso poderia significar nunca mais ser encontrada pelo grupinho de amigas que me deixou ali pra ir ao banheiro. Copo na mão, já quase vazio, glitter em cada centímetro da grande quantidade pele exposta que havia no meu corpo e uma coroa de flores na cabeça. A multidão passava por mim seguindo a bateria, o trio, a música, o que tivesse som. Todo mundo bebendo e rindo, se divertindo, sempre pronto pra barrar um babaca dizendo “Não é não!” ou pra alertar o colega ao lado que ele devia conferir se o nome no cartão de crédito que ele recebeu de volta é o dele, mesmo. Belo Horizonte tem sua própria rua Sapucaí, e no carnaval ela faz jus ao nome.

Nesse aspecto, mais do que qualquer outro, é difícil acreditar que essa é a mesma cidade para qual me mudei há alguns anos. Quando vim estudar aqui ninguém ficava pro carnaval! Era possível, como dizia minha mãe, “andar pelado na rua”, de tão vazia que ficava… Ao longo dos meus anos de faculdade, porém, fui vendo o movimento crescer cada vez mais, a quantidade de bloquinhos que antes pipocavam aqui e ali se multiplicou violentamente, atendendo todos os tipos de público possível, e não havia mais um ponto onde não tivesse pessoas brilhando ao entoar marchinhas tradicionais e hits do momento. Agora lá estava ela, entre as capitais mais procuradas pra data, perdendo apenas pras grandes tradicionais.

E se BH mudou, eu mais ainda. A Lola adolescente se referia aos dias de folia com o neologismo “Carma-val”, porque odiava tudo e todos relacionados a ele. Não saía ou pulava ou dançava ou me divertia, o que eu amava era odiá-lo. Ficava cinco dias com o computador ligado conectado à internet fazendo ABSOLUTAMENTE NADA, e se alguém sugerisse o contrário recebia em resposta apenas um olhar de mau humorada. Bom, ainda bem que a gente muda. Sair de casa para ver toda a alegria que tinha na rua se tornou quase necessário ao longo do tempo, porque parada não tinha mais como manter a cabeça no lugar. Da antipatia para a tolerância, e dela pro mais completo deleite. Agora essa era eu, vestindo apenas um maiô, tênis e pochete na cintura, gritando letras que às vezes eu sequer sabia de verdade e curtindo cada dia do meu maior pagar língua de todos.

Os minutos de breve solidão me fizeram pensar tudo isso de uma vez só, então baixei os olhos pro copo pra que ninguém me visse rindo sozinha, supostamente sem motivo nenhum, mas antes que terminasse o movimento levantei a cabeça de novo. Um pequeno momento de respiro, um vazio de pessoas na minha frente, o suficiente para ver e ser vista imediatamente. Não sei dizer o tamanho do sorriso que de cara entrou no meu rosto, mas sei que foi tão aberto e impossível de disfarçar quanto o dele.

Fê e eu não nos falamos mais desde as mensagens de “Feliz Ano Novo”. Eu só sabia mais ou menos o que ele vinha fazendo na vida pelas suas poucas fotos nas redes sociais – e vice e versa. Agora lá estava, vindo em minha direção, sem me dar qualquer oportunidade de conferir se eu estava apresentável (ou sóbria) o suficiente para ser vista. Não me importava se já tinha me visto algumas vezes de manhã, acabando de acordar antes mesmo se escovar os dentes… Ele estava tão lindo que meu único pensamento era como eu queria que ele me enxergasse linda também.

No primeiro momento, ninguém disse nada. A gente só se abraçou por um tempo, sem saber como se comportar. No final, como sempre tentando quebrar o gelo, ele deu uma dançadinha ao som da música, me soltou e disse:

– Carma-val, Lola! Como eu posso te achar justamente aqui?

– Uai, é destino, sei lá!

Em minha defesa, era difícil falar qualquer coisa estando ainda sorridente. Ele encostou no muro também, ficando do meu lado tão próximo que eu só conseguia lembrar o quanto gostava daquela proximidade. Então veio gritar no meu ouvido para que eu conseguisse escutar.

– Cê tá sozinha? Sei lá, não é perigoso?

– Não, é tô com umas amigas, foram ali usar o banheiro. Aqui ficou o ponto de encontro, não posso nem me mover.

– Eu vim com uns amigos também! – ele apontou pra um grupo nem na nossa frente – Ia te chamar pra ficar com a gente! Mas sem problema, eu te faço companhia até elas voltarem…

Tomei um gole porque não fazia ideia do que dizer. Continuar com papo de alfândega, fingindo que não tinha mais nada ali? Porque eu não estava bêbada o suficiente para falar o que realmente queria, pelo menos não ainda. Enquanto meu cérebro processava tudo isso, ele se aproximou um pouco mais de mim.

– Você sumiu…

– Você também! – Engasguei ao responder.

Ele abriu a boca pra retrucar, mas uma nova marchinha começou, o fazendo rir. Eu estava muito fora de mim para entender o motivo, mas antes que pudesse questionar minha visão periférica percebeu as meninas reduzindo o passo ao vir em minha direção, percebendo com quem eu estava falando. Ele também viu e desencostou o corpo, me abraçando para se despedir.

– A gente vai conversando, Lola… Eu te chamo!

Ele começou a se afastar, mas antes disso o puxei pra dizer:

– Chama mesmo.

O que era pra ser um “beijo de bochechas” que veio em seguida acabou virando um beijo de verdade. O vi indo embora, se juntando ao seu grupo que permanecia completamente alheio à minha presença, e eu me juntei ao meu, que parecia ter feito um acordo silencioso para não comentar o que tinha acabado de presenciar. Eu já estava com um sorriso estampado no rosto, um pouco amarelo mas prestes a se tornar brilhante de novo, com o copo abastecido pelas novas cervejas que foram trazidas, me afastando acompanhada do muro e de quem mais estava ali. Minha cabeça voltou a funcionar o suficiente para entender a risada anterior, quando a música finalmente ficou clara, e também fui forçada a rir enquanto cantavam juntas ao meu redor…

“Se você fosse sincera
Ô ô ô ô Aurora
Veja só que bom que era
Ô ô ô ô Aurora

Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô ô ô ô Aurora

Esse é o terceiro conto da série “Contos de Aurora”, que vai mostrar dez datas comemorativas do ano de uma mulher como outra qualquer, que eu vou conhecer junto com vocês, enquanto traço a vida dela devagarzinho… Espero que tenham tido um bom carnaval!

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O Conto de Ano Novo

O Conto de Ano Novo

O Conto de Ano Novo

Eu observava o resto do vinho na minha taça rodando e rodando enquanto brincava com ela, o vento sacudindo meus cabelos pra todos os lados. Eu raramente abria a janela do que quarto, mesmo que estivesse muito calor. Besteira de uma menina criada no interior, mesmo que um “interior grande”, sabe? Morava em BH há tantos anos e ainda rolava um medinho de alguém escalar o muro e entrar se não tivesse fechada, como se não houvesse uma cerca elétrica no meio do caminho. Mas no ano novo é impossível deixar passar, já eram mais de duas da manhã alguns fogos remanescentes continuavam brilhando lá fora de vez em quando.

Bebi o resto do conteúdo da taça de uma vez e saí rumo à cozinha para lavá-la. Ouvi vovó abrindo a porta do quarto dela e barulho de tosse la dentro, até que ela também me viu e veio em minha direção:

– Achei que você tinha ido dormir…

– É… – respondi – Eu ia mesmo, mas estou sem sono. O vovô tá bem?

Ela deu de ombros.

– Ah, tá, né… Tossindo e tudo mais, impossível dormir com ele do lado. Vou lá em baixo pegar água e um xarope pra ver se melhora…

– Pode deixar que eu vou! Tô indo lá deixar isso… – eu levantei a mão para mostrar a taça – Quer mais alguma coisa?

– Quero não… Vou te esperar aqui, então!

Ela sentou no sofá que ficava na pequena sala do andar superior, logo na frente do meu quarto. Acho que devia estar muito irritada mesmo com o barulho da tosse dele, porque normalmente ficaria do lado “tomando conta”. Seus olhos estavam cansados, o que não era tão comum, vovó e eu sempre fomos meio “corujas”, acostumadas à dormir de madrugada mesmo quando tinha que levantar cedo.

Lavei minha taça, resistindo á tentação de enchê-la novamente com o resto do vinho que eu sabia que ainda estava na geladeira, peguei a água e o remédio e subi as escadas devagar, como se pudesse acordar alguém, mesmo que nenhum deles estivesse dormindo. Vovó estava lixando as unhas enquanto me esperava. Na nossa casa sempre tem alguma lixa em qualquer lugar, nós duas compramos pacotes e mais pacotes e saímos largando pra todo lado. Assim, sempre temos uma à mão, quando é preciso.

Ela sorriu para mim, destacando sem querer todas as ruguinhas lindas do seu rosto, pegou o copo e o frasco, me deu um beijo no rosto e disse “Boa noite”! Quando estava quase chegando na porta, já levantando a mão em direção à maçaneta, eu perguntei:

– Você quer ajuda? Quer que eu durma com ele?

Ela bateu a mão no ar como se dissesse “Não precisa, boba”, e entrou, me deixando sozinha na sala escura. Fui para meu quarto e fechei a porta também.

Aquela não tinha sido uma virada de ano feliz para nenhuma das duas. Era a primeira vez que meu tio Jojo não tinha passado com a gente, já que ter se assumido gay fez com que tivesse sido praticamente expulso da família. Ele nos ligou à meia noite, direto de Salvador ao lado do seu namorado, mas só eu e vovó falamos com os dois. Vovô continuava fingindo que não tinha aquele filho. Depois disso nossa noite foi uma bela merda, não importa quantos telefonemas felizes ou fogos bonitos no céu aparecessem. Os dois foram cedo pro quarto, sem conversar um com o outro, e eu fiquei arrumando a cozinha e bebendo, enquanto remoía minha raiva. Quando terminei subi para o quarto com a intensão de ler minhas mensagens, mas nem tive saco de tocar no celular. Continuei lá, mal humorada, ouvindo a música que vinha de alguma casa vizinha cuja festa de Réveillon estava bem mais animada que a nossa.

Quando finalmente o sono começou a me pegar, resolvi fechar a janela e trocar de roupas. Peguei o celular com o objetivo de cancelar o despertador da manhã seguinte, bloqueei a tela novamente e então decidi que, quem sabe, poderia ter alguma mensagem ali pra me animar um pouquinho. Liguei a WiFi, que estava desativada desde antes do jantar, e vi o balãozinho de notificações subir freneticamente, o número crescendo a cada milésimo de segundo. Deixei ele lá, se atualizando, e fui ao banheiro fazer meu xixizinho da madrugada.

Havia 78 mensagens não lidas me esperando – sem contar os grupos silenciados da faculdade e do trabalho. A mais recente era do grupo da nossa família e continha uma foto de Laurinha dormindo no colo do meu tio, completamente apagada, enquanto ele sorria na beirada do mar. Eu ri. Ela tinha nos ligado pouco depois da virada para desejar que 2018 fosse tão lindo quanto a praia e disse que ia me trazer um presente. Respondi com um emoji de coração e continuei zapeando pelos nomes ainda não abertos quando o vi.

A foto séria ainda era mesma da última vez que nos falamos, há algumas semanas atrás. Isso não era, de forma alguma, incomum, mas reparei mesmo assim. Acho que era porque, por mais que tivesse evitando pensar nisso a noite toda, eu esperava vê-la ali quando resolvesse finalmente abrir o Whatsapp. Cliquei sobre o nome dele.

“Feliz ano novo, Lola! Sdds *coraçãozinho*”

Ninguém fora da minha família me chamava de “Lola”, e ele fora informado disso. Na verdade só sabia que esse apelido existia porque a gente contou sobre praticamente toda nossa vida ao longo do momentos que tivemos juntos. Mas nunca tinha usado. Eu quase conseguia enxergar o risinho de ironia que com certeza estava em seus lábios quando digitou aquilo, como se quisesse não só puxar papo mas dar uma debochadinha junto. E aí, ao pensar nisso, percebi que eu mesma estava sorrindo desde que vi que havia uma mensagem dele no meio de todas as outras.

Ignorando completamente o fato de que, lá no celular dele, o ícone de leitura tinha ficado azul, confirmando que eu recebi o recado, fui respondendo todas as outras pessoas que haviam se dado as trabalho de pensar em mim naquela noite – e ignorei algumas, quando elas vinham de grupos chatos dos quais minha boa educação vinha me impedindo de sair. Por fim, quando não tinha sobrado mais nenhuma e não dava mais pra evitar, finalmente escrevi:

“Feliz ano novo, Fê!”

Enviei e me arrependi na mesma hora da maneira seca como ela soou. Não era meu feitio fingir desinteresse quando, na verdade, eu ainda estava interessadíssima. Então completei:

“Muitas sdds! *carinha com olhos de coração*”

Desliguei a WiFi novamente, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa ou mais alguém resolvesse prolongar algum assunto. Eu estava me segurando um pouco para não rir mais, porque se pensar bem, sabe, a noite não tinha sido de todo mal…

Esse é o segundo conto da série “Contos de Aurora”, que vai mostrar dez datas comemorativas do ano de uma mulher como outra qualquer, que eu vou conhecer junto com vocês, enquanto traço a vida dela devagarzinho… Feliz ano novo!

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O Conto de Natal

O Conto de Natal

O Conto de Natal

A campainha tocou pela terceira vez em menos de meia hora lá em baixo. Eu estava com o rosto quase grudado no espelho, segurando meus cílios postiços emplastados de cola, esperando ela secar, então só dei uma olhada pro lado, como se pudesse enxergar através das paredes, e voltei a atenção para meu reflexo quase imediatamente. Enquanto posicionava tudo no lugar ouvi risadas, seguidas de um grito que não soube identificar se era de raiva ou alegria. Só sabia que a voz que o produziu era de uma criança. Laurinha, com certeza. Fiquei feliz em saber que ela tinha chegado… Por ser a neta mais nova não importava se era natal ou outra data qualquer: vovó só sentia que a festa tinha começado quando aquele rostinho sorridente cruzava a porta de entrada.

Enquanto retocava o delineador do olho esquerdo, a porta do meu quarto abriu abruptamente e ela entrou, com a voz muito chorosa. Logo depois vinha Diego, com um sorriso de vitória no rosto que só podia significar que havia tirado a menina do sério. Ele tinha seis anos quando ela nasceu, “tirando” seu posto de caçula e gerando muitos ciúmes. Desde então um de seus objetivos de vida era causar nela o maior número de lágrimas possível.

– Lola… – ela dizia as palavras entre soluços forçados – Lola, diz pra ele que é o Papai Noel de verdade!

Guardei minha bolsa de maquiagem virando os olhos pra situação. Não era POSSÍVEL que um garoto que se gabava diariamente de ter entrado na adolescência e até já “perdido o BV” estava implicando com uma criança por causa de PAPAI NOEL! Olhei para ele colocando as mãos na cintura, o que o fez começar a pronunciar as desculpas esfarrapadas ensaiadas:

– Eu não falei que ele NÃO EXISTE, só disse que aquele lá não é o de verdade…

– É SIM! – Ela gritou se colocando de pé em cima da minha cama, então corri não só pra amenizar a briga como também para tirar aqueles pés calçados de cima do meu lençol recém trocado.

Nem era preciso explicações sobre a qual Papai Noel eles se referiam. Algum dos prédios vizinhos tinham pendurado um em tamanho natural na manhã anterior. Vovó e eu ficamos observando muito agoniadas com medo de o moço que estava fazendo isso cair de lá de cima, e ao mesmo tempo adoramos a notícia justamente porque sabíamos que nossa pequenina ia vibrar vê-lo ali. Dei uma última olhada no espelho e saí do quarto arrastando os dois junto, segurando o pulso de Diego com uma força que indicava “Pára com isso!” e tranquilizando nossa priminha, dizendo que ele estava apenas tentando irritá-la e que o “bom velhinho” já estava ali sim senhorita, esperando para presenteá-la com a Barbie Sereia que havia pedido.

Eu mudei para a casa dos meus avós cinco anos atrás, pra fazer faculdade. Meus pais moram em Ipatinga, a uns 200 km de Belo Horizonte, vim pra cá quando passei no vestibular. Minha ideia inicial (e muito iludida) era procurar um lugar só meu assim que me formasse, o que aconteceu no meio do ano, mas os três meses de desemprego e o salário baixo que recebia ao finalmente conseguir um trabalho não me permitiam sequer pensar nisso. Sem contar que meus avós estavam começando a ficar bem velhinhos, sempre precisando de alguém para levá-los ao médico, pegar algo no alto do armário e correr para comprar qualquer coisa no supermercado, então minha presença acabou sendo útil… Agora a intenção de ir embora é quase zero!

Por esse motivo eu acabo convivendo muito mais com o resto da família do que qualquer um deles entre si. Ao longo da semana meus tios e primos vêm aqui algumas vezes, para buscar correspondências, ver como estão as coisas ou mesmo “bater ponto” e não se arrepender de estar ausente daqui um tempo, quando os dois já não estiverem vivos. É bem fácil perceber quais se encaixam no último grupo. Enfim… Essa noite eu pretendia estar pronta antes de todo mundo chegar, mas fiquei no quintal com vovó batendo papo sobre nada, então já tinha muita gente quando desci as escadas, cada um colocando o que tinha levado na mesa. Meus pais e meu irmão tinham chegado na casa do meu padrinho bem cedo, mas eles esperaram para ir todos juntos. Estavam lá mais dois casais de tios, pais de Laurinha e Diego, além do irmão mais velho dela, Gabriel, que nasceu exatamente um mês antes de mim. Nós dois passamos a infância inteira esperando por férias e feriados para encontrar quando eu vinha pra cá, para poder brincar juntos. Somos meio que melhores amigos.

– Olha quem tá aqui! Feliz natal, Coisinha! – Meu irmão me tirou do chão ao me abraçar. Depois dele ouvir outras sete vozes repetindo “Feliz Natal, Lola” em menos de um minuto.

Quando Diego era bebê e não conseguia pronunciar “Aurora” direito, me chamava apenas de “Lóla”. Assim que me via cruzando a porta balançava seus bracinhos gorduchos gritando “Lóla! Lóla! Lóla!” com muita empolgação. Logo depois tia Clarinha, mãe dele, me presenteou com uma jaqueta onde havia a personagem Lola Bunny, dos Looney Tunes, estampada nas costas. Desde então a família inteira só me chama assim. Eu me irritava no início, sempre gostei de ter um nome que não dava muita brecha para apelidos, mas quando Laurinha nasceu foi uma das primeiras palavras que aprendeu a falar, logo depois de “mamã” e “cacágu” (que significava “água”), e passei a gostar, apesar de nunca deixar essa mania sair da família e passar para os meus amigos.

O resto do pessoal chegou na hora seguinte. Nos últimos dois natais tinha um sentimento de “Será que é o último?” no ar, todos temiam que um dos nossos avós fosse morrer a qualquer momento, então ninguém abria mão daquela noite. Bom, na verdade uma pessoa abriu dessa vez: tio Jojo. Ele tinha “saído do armário” (finalmente!) nove meses atrás ao apresentar o namorado pra todo mundo. Bastou uma única e longa conversa comigo para vovó aceitar, mas meu avô e dois dos tios ainda se recusavam a olhar na cara dele. Agora ele só vinha quando não tinha mais ninguém por lá (vovô se fechava na sala de televisão até ele ir embora) e sabe-se lá onde estava fazendo sua ceia… Eu sentia saudades e ódio de todo o resto só de pensar nisso!

Olhando ao redor da mesa, todo mundo sentado espremidinho em cadeiras e bancos improvisados, me vinha nos peito uma mistura de alegria e hipocrisia. Eu estava feliz em ter papai, mamãe e Augusto, meu irmão, ali comigo. Vovó também, já que ela é minha pessoa favorita no mundo, e eu até amava o vovô, mas o culpava de não ter meu tio mais querido ali. Gosto dos meus primos, uns mais que outros, e algumas tias. Mas todos os meus outros tios (e uma prima mais distante) eram nada além de parentes pra mim. Me dava raiva ouvir de longe os comentários machistas e preconceituosos que eram camuflados na conversa aqui e ali. Minha vontade era bater boca contra aquela babaquice toda, mas foquei na presença de Laura em meu colo, com seu prato encostadinho no meu me contando várias novidades infantis enquanto nossos braços lutavam para conseguir comer ao mesmo tempo.

Nós temos algumas tradiçõezinhas pra data, seguidas todos os anos. Todo mundo senta pra comer às 22h, em ponto, e quando faltam 15 minutos para meia noite rola uma oração e um “Parabéns pra você” para o “Menino Jesus”. Já faz anos que não sigo religiões, mas não me importo em continuar fazendo isso. Vovô então faz um discurso e assim que o relógio bate a meia noite corremos para a árvore para trocar presentes, independente se tiver terminado ou não… Na verdade o combinado é esse, mas ele sempre consegue dizer tudo a tempo, provavelmente de propósito. Dessa vez, porém, assim que a oração terminou, ele saiu alegando que precisava ir ao banheiro e pediu que a gente continuasse na sua ausência por causa das crianças. Na hora do discurso passamos a palavra para vovó, mas ela não sabia o que dizer e pediu ao meu pai que fizesse isso. Ele, por sua vez, jogou a bola pra minha mãe, que conseguiu até se emocionar com o que disse – e alfinetar cada um dos responsáveis por não sermos mais uma família completa. Alguns, eu entre eles, fizeram questão de aplaudir quando ela terminou exatamente quando devia terminar

Foi quando começamos a ouvir fogos de artifício sendo jogados ao céu do lado de fora. Laurinha largou minha mão, correndo desesperada, e abriu a cortina, com a boca aberta de excitação. Fomos assistir também e, quando parei ao seu lado, ela disse para mim, sorrindo:

– É o Papai Noel!

Passamos cinco minutos admirando o show pirotécnico que acontecia ali, até ouvir a porta dos fundos bater. Quando olhamos para trás a árvore de natal estava bem mais cheia do que antes. Fomos correndo conferir o que tinha sido deixado , gritando uns aos outros para que cada presente chegasse ao seu dono o mais rápido possível. Acho que ninguém além de mim reparou quando vovô entrou de mansinho com as chaves na mão e parou apoiado em meu ombro, para receber um pacote com seu nome que estava na minha mão. De fato, e apesar de tudo, um bom velhinho tinha trazido para cada um de nós um pouquinho mais da magia do natal.

E assim termina o Blogmas 2017: com um começo! Na série “Contos de Aurora” vou mostrar pra vocês a trajetória dessa nova personagem ao longo de algumas datas importante do ano. Em alguns momentos irei improvisar, em outros já sei exatamente o que fazer. O destino dela? Só o tempo dirá! Feliz natal!

Blogmas 2017

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