De Volta aos Quinze – Bruna Vieira

Livro De Volta aos Quinze, da autora Bruna Vieira, com a capa voltada para cima, com um desenho de uma mulher sentada num banco escuro, de costas para o espectador com os cabelos ruivos esvoaçantes. Ela parece estar em uma praça arborizada, e a ilustração tem tons leves. Acima, o nome da autora seguido do título. O livro está sobre uma coberta de cor escura, próxima à cor usada no título, e ao seu lado há um balde de pipocas doces coloridas, derramadas levemente sobre a capa.

De Volta aos Quinze (Meu Primeiro Blog # 1) *****
Capa do livro De Volta aos Quinze, da autora Bruna Vieira, com um desenho de uma mulher sentada num banco escuro, de costas para o espectador, os cabelos ruivos esvoaçantes. Ela parece estar em uma praça arborizada, e a ilustração tem tons leves. Acima, o nome da autora seguido do título. Autor: Bruna Vieira
Gênero: Juvenil, Romance
Ano: 2013
Número de páginas: 224p.
Editora: Editora Gutenberg
ISBN: 9788582350799
Sinopse: “O que você faria se pudesse voltar no tempo? Será que, ao fazer escolhas diferentes, você conseguiria mudar sua vida para melhor?
Anita tem 30 anos, e sua vida é muito diferente do que ela sonhou para si. Um dia, ao reencontrar seu primeiro blog, escrito quando tinha 15 anos, algo inusitado acontece, e tudo ao seu redor se transforma de repente. Com cabeça de adulto e corpo de adolescente, ela se vê novamente vivendo as aventuras de uma das épocas mais intensas da vida de qualquer pessoa: o ensino médio. Ao procurar modificar acontecimentos, ela começa a perceber que as consequências de suas atitudes nem sempre são como ela imagina, o que pode ser bem complicado. Em meio a amores impossíveis, amizades desfeitas e atritos familiares, Anita tentará escrever seu próprio final feliz em uma página misteriosa na internet.”
(fonte)

Comentários: Em outubro de 2013, fui ao lançamento de De Volta aos Quinze, primeiro romance da blogueira Bruna Vieira, para conhecer a autora, participar de um bate papo com ela e, claro, pegar o autógrafo. Esse livro foi o presente de natal que uma amiga me deu naquele ano, e assim que me entregou oficialmente dois meses depois do evento tentei ler pela primeira vez, mas não consegui. Achei que as coisas que estavam me incomodando eram implicância da minha parte, então deixei de lado pra terminar depois. Agora, muitos anos depois, resolvi recomeçar como parte do Desafio Zera Estante que eu e outra amiga, a Nana, criamos juntas ano passado, já que uma das propostas era ler algo escrito por uma mulher. A conclusão final é que a Luly de 23 anos, mesmo tão mais nova que a de hoje, já tinha razão.

“Quando você escolhe seu futuro, o presente inevitavelmente vira o passado. Boa escolha.”

De Volta aos Quinze conta a história da Anita, uma mulher de 30 anos que tem a vida muito distante do que imaginou pra si mesma: seu emprego a deixa cada dia mais desmotivada, a vida amorosa é inexistente, não tem uma relação lá muito boa com a família e nem se sente satisfeita com a própria aparência. A única coisa que realmente deu certo pra ela foi o fato de que mora na cidade dos seus sonhos, São Paulo, depois de sair do interior de Minas, onde nasceu e cresceu. Em meio a uma grande confusão no casamento da sua irmã, onde todos acham que ela enlouqueceu de vez e só seu melhor amigo, Henrique, fica do seu lado, ela recebe por e-mail o link do primeiro blog que teve quando adolescente e se vê magicamente transportada para aquela época, uma enorme surpresa.

Balde de pipocas doces doloridas à esquerda, ao lado do livro De Volta aos Quinze fechado com a capa frontal virada para cima. Em baixo, parcialmente sobre o livro, há um fona de ouvido no modelo headphone rosa, e todos os elementos estão sobre uma coberta propositalmente levemente bagunçada rosa também.

Numa vibe meio “De Repente 30” ao contrário, esse livro tem uma premissa interessante juntando o mundo dos blogs, no qual a Bruna está inserida desde nova, com a viagem no tempo, tendo como diferencial o fato de que a protagonista vai e volta mais de uma vez, então sua jornada pelo passado é dividida em partes, cada uma com sua consequência no futuro/presente. A execução, porém, não deu certo. Sei que a ideia era fazer dessa história um reflexo da dela, com a ida do interior para a capital, gatinha preta de companhia, itens favoritos da personagem e outros detalhes que não posso falar, mas não foi escrita na época mais adequada da sua vida. Ela tinha 19 anos quando o livro foi lançado e tentou criar uma mulher muito mais velha, que acabou tendo essa mentalidade quase adolescente e, com isso, se tornou uma completa idiota!

“Acho que quando duas pessoas se relacionam por tanto tempo, uma acaba deixando muito de si na outra, principalmente quando elas estão apaixonadas. O amor é a único coisa que consegue atingir nossa alma plenamente.”

Sério, em vários momentos me incomodei com defeitos da Anita, como egoísmo, falta de personalidade definida, ideal de “vida boa” fora da realidade, obsessão repentina por algo que ela nem percebia até então e total inconsequência em relação aos seus atos, mas percebi que tudo isso pode ser resumido na imaturidade. Ela não é uma mulher de 30 fracassada por não ter conquistado o que queria, cá entre nós isso é extremamente comum e estou nesse contexto de vida, mas porque tem mentalidade 20, e olhe lá! Eu ficaria até pé atrás em resenhar esse livro, acho meio chato falar mal assim, mas como ouvi a própria autora se criticando num podcast meses atrás, acho que posso me dar ao direito de concordar. Fica difícil engolir e até persistir na história, senti isso na primeira tentativa e dez vezes mais nessa segunda.

Livro De Volta Aos Quinze aberto na folha de rosto, onde está impresso seu título. Abaixo, à mão, há uma dedicatória com autógrafo da autora que diz 'Para Luly com amor e carinho de Bruna Vieira'. Existem alguma pipocas coloridas jgadas sobre essa página, com o balde cheio delas ao lado aparecendo parcialmente no topo da foto, e os headphones cor de rosa também estão ali, sobre a folha e a capa aberta do livro.

Foi engraçado, em dado momento ela diz que Personagem X é maduro “até demais”, sendo que ela que é o contrário, sabe? Até ri nessa parte. Além disso achei algumas contradições pontuais, como uma caixa que era considerada leve e na página seguinte é descrita como pesada, coisas que numa publicação independente sempre deixo passar, mas em livros como esse, publicados por editora grande, não acho aceitável. A leitura, porém, é bem fluída, ótima para o público adolescente para o qual é destinada, e o final em aberto causa uma vontade ENORME de ler a continuação, apesar dos pontos negativos. Estou doida pra sair a série adaptada nele na Netflix, além de ser uma produção nacional com elenco de peso sinto que tem potencial para “corrigir” essas questões, muito justificadas pelo contexto em que foi publicado, e dar a essa história o potencial que tem de entretenimento gostoso.

“Quando você descobre que alguém te ama, tudo o que essa pessoa faz parece ser para chamar sua atenção. Quando você descobre que alguém te amou, tudo o que você faz é para chamar a atenção dessa pessoa.”

Tirando esse romance em específico, que considero ter sido lançado numa fase ainda crua da autora, costumo gostar bastante da escrita da Bruna Vieira. Hoje ela tem 27 anos e 10 livros publicados, entre coletâneas, quadrinhos e mais um romance, o segundo da série Meu Primeiro Blog (o terceiro, que fecha a trilogia, ainda não saiu). Ela explodiu na internet com o blog Depois dos Quinze, que criou para desabafar sobre uma desilusão amorosa, e ainda faz bastante sucesso não parando por aí, postando seu conteúdo não só no blog e nas plataformas de mídias sociais dele, como Instagram, Twitter, podcast e canal no YouTube, mas também no Instagram e Twitter pessoais. Além disso, participa do podcast Perdidas no Recreio, em parceria com Nath Araújo e Giovanna Grigio, já foi colunista da Revista Capricho e segue pela internet, contando histórias enquanto escreve a dela, nas palavras da própria!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o décimo, referente a 2013. O livro foi a minha escolha para o mês de Outubro no Desafio Zera Estante 2020.

De Volta aos Quinze | Dia 10 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Remember Universitário: 4 ou 5 anos que passam voando

Foto de Luly Lage de blusa preta, calça jeans e um capelo na cabeça, segurando uma rosa vermelha e um canudo de formatura. Seu rosto está sorridente, a pele é clara e os longos cabelos escuros. Atrás há uma parede cinza escura onde estão encostadas três bandeiras de pé, a do estado de Minas Gerais, do Brasil e, oculta pela figura principal, uma branca com o brasão da Universidade Federal de Minas Gerais.

Quando criei a tag “Remember Universitário” aqui no blog 9 anos atrás, com o objetivo de relembrar meu processo como universitária em contagem regressiva para a formatura, eu tinha em mente publicar, no dia da defesa do meu TCC, um post intitulado 4 ou 5 anos que passam voando para expressar como estava me sentindo naquele dia. Nem era pra ser o último, não necessariamente, mas o mais marcante entre vários que seriam escritos, o momento em que a gente “bate o martelo” oficializando o fim da jornada. Ironicamente eu estava 100% errada porque nada disso que eu descrevi agora aconteceu de fato.

Ou talvez devo dizer que nada do que eu planejei para minha jornada acadêmica aconteceu de fato! Fiz vestibular para Design Gráfico, acabei entrando no curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis. Ingressei na faculdade com o intuito de passar apenas dois anos e enfim mudar pro design, acabei amando e decidindo ficar. Uma vez que ficaria, pensei que as áreas que mais me interessariam seriam a restauração de pintura e escultura, acabei só trabalhando com papel, apaixonada por ele e seguindo todo mundo caminho nisso, quase do início e até o fim. Jurei que não atrasaria nada e formaria em 4 anos contadinhos no calendário, na metade já sabia que pra fazer estágio e todas as disciplinas que queria teria que estender pra 5 sem nem exitar. Aceitei que formaria no fim de 2012, e não de 2011, mas uma greve veio e adiou ainda mais.

Até aqui, porém, tudo bem, os males vieram pra tornar a coisa melhor. Teve matéria trancada que saiu bem feita com uma dose extra de maturidade nas costas, volta pro segundo estágio no lugar favorito de se trabalhar bem naquele momento que não poderia fazer se já estivesse formada, amizades com a turma que veio depois da minha que contribuíram loucamente pro crescimento mútuo, por aí vai. O TCC também entrou no pacote dos caminhos em que a gente entra sem querer e sai melhor que entrou… Todo um plano de me aprofundar na parte química da restauração de documentos indo por água abaixo pra dar lugar a uma gravura duplamente histórica que me dava a chance de ter como orientadora a professora com a qual tinha mais memória afetiva no curso, pô! Que último ano dos sonhos é esse, Luly? Não pode ser real!

Mesmo com a greve, o trabalho foi finalizado, véspera de natal e a gente lá, restaurando sem parar. Tive uma alergia BIZARRA no meio do caminho, fiz minha viagem de campo com a orientadora toda vermelha, mas foi gostoso e nem um engarrafamento de horas na volta estragou nosso clima. Preciso confessar que a defesa foi meio bosta, ainda bem que não escrevi o post da época porque ia extravasar uma boa dose de revolta aqui, mas agora, visto de longe, nem isso importa mais. A colação foi pura emoção, aplaudida de pé por todo mundo, até os primeiros meses de formada seguiram no sucesso total com clientes e algumas oportunidades em vista. Passei num concurso no ano seguinte pra dar aula na minha área, mais um sonho sendo realizado, e foi nesse ponto que a coisa começou a desandar.

Nem vou me aprofundar no que rolou, não, porque o foco aqui é a faculdade em si e tô passando super o carro nas frentes dos bois. A questão é que, por muito tempo, achei que tinha jogado fora aqueles 4 ou 5 anos de vida fora estudando algo que eu amava, mas não teria participação nos bons frutos que surgissem na minha vida. Meu grande mantra “conhecimento não ocupa lugar no espaço”, onde afirmo que todo aprendizado vale a pena, parecia uma grande balela sem sentido até pra mim mesma. Mas, cara, como eu estava enganada! Acho que exercer o que a gente já sabe fazer fica tão natural que acaba se tornando banal, né? E eu estava ali, aplicando o que minha formação me ensinou, tanto no trabalho em uma área nada a ver quanto no pessoal, até em presentes que produzia pras pessoas.

Com o tempo isso ficou ainda mais forte, retomando minha jornada acadêmica nas artes mesmo fora da restauração (ó o Vênus em Arte aí que não me deixa mentir), mas pensando bem sinto que foi forte o tempo todo. Foram 5 anos que sim, passaram VOANDO, mas ainda estão 100% vivos na minha mente mesmo que já tenham acabado há quase uma década – e só fui perceber isso agora. Cinco anos transformaram uma adolescente com carinha de criança em adulta, por dentro e por fora. É até risível pensar que um marco de início de vida pra mim significava fechamento, mas quem sou eu me julgar alguém que era há tanto tempo atrás, né? O que importa é que agora eu sei que, na verdade, conhecimento ocupa espaço sim, muito espaço: ele PREENCHE a gente de um jeito nada mais consegue.

Que bom que permiti que a conservação-restauração me preenchesse também, em definitivo, sem ter como tira-la de mim não importa pra onde eu vá. E melhor ainda que criei esse Remember Universitário, que não saiu como planejado, mas não vai me deixar esquecer disso justamente podendo sempre relembrar!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o nono, referente a 2012.

Remember Universitário: 4 ou 5 anos que passam voando | Dia 09 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

Esse é o quinto (e último) post de uma série nostálgica sobre meus 5 anos como universitária, que acabaram em março de 2013. De lá pra cá muita coisa aconteceu fora da área de conservação-restauração por aqui, mas outras dentro dela também, então vale a pena relembrar o quão foi bom o trajeto. Todos os posts podem ser lidos na tag Remember Universitário.

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Harry Potter e a Visão Negativa do Feminino

Foto da personagem Dolores Umbridge, da série Harry Potter, em uma cena do quinto filme da saga em que está sentada mexendo o chá presente em uma xícara colocada à mesa na sua frente. A personagem olha para longe, em direção a alguém, e mantém um sorriso supostamente gentil no rosto. Tudo ao seu redor, como paredes e suas roupas, é na cor rosa e existem delicados pratinhos dedorativos de gatinho fixados atrás de si.

Antes de começar esse texto eu queria deixar muito claro que ele me dói. Sério mesmo. Sou fã de Harry Potter há 20 anos e algumas coisas que vou dizer aqui me incomodam desde então, mas não é fácil dize-las. Não por ser uma problematização daquelas 100% “classe média sofre”, até gosto de problematizar o banal, mas por ser mais uma exposição do quanto meu pensamento é muito divergente da pessoa que, até algum tempo atrás, era minha maior ídola. Claro, isso que será listado aqui não é NADA perto da transfobia escancarada (e digo até ORGULHOSA) de J.K. Rowling, mas mais uma questão de gênero nela que me seguro pra não falar sobre há tempos e decidi que não vou segurar mais… Não consigo deixar de achar uma visão meio bosta também, sabe? Como tantas outras, ainda piores, que doem ainda mais.

Lembro quando li “Harry Potter e a Pedra Filosofal” pela primeira vez, aos 10/11 anos, e adorei a Hermione de cara. Não era tão estudiosa quanto, mas sabe aquela amiga chatinha do grupo que interrompia a brincadeira pra lembrar que tinha um trabalho ainda a ser feito e repreendia quando todo mundo estava prestes a pisar um pezinho fora da linha? Essa amiga era eu! E aí li um livro com uma menina FODA com a qual me identificava, que apesar de ir se mostrando bem mente fechada (o que nunca achei legal) também era SUPER sensível e se deixava emocionar. Não é à toa que ela é minha personagem favorita até hoje, né? Lembro inclusive que naquele primeiro livro ela usa um robe rosa em uma cena específica e meus olhos até brilharam, porque é minha cor favorita e parecia mais uma coisa em comum…

Mas não era. À medida que os livros iam avançando minha cor favorita foi cada vez mais associada ao negativo na história que tanto amava. Alunos que correm pra não pegar tampões de ouvido naquele tom, um vestido de Baile de Inverno usado pela menina mais insuportável da escola até chegar, é claro, na professora com cara de sapa que tem tudo rosa, peludinho e fofo pra esconder ser o mais puro suco de tudo o que há de PODRE na sociedade. Umbridge é um estereótipo ambulante do conservadorismo preconceituoso e esdrúxulo do qual o mundo não consegue se livrar, mas também do que se espera visualmente de uma mulher na sociedade que ainda está presa aos padrões de gênero. E por mais que seja uma crítica pertinente (olha nossa ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos provando isso), começa a ficar chata quando vira constância.

Veja bem, eu vou ser a primeira pessoa a se levantar pra reivindicar contra estereótipos de gênero e a favor de uma pessoa não precisar aderir e se identificar com nenhum deles, mas estarei com a outra mão levantada também pra dar apoio em que GOSTA e QUER ser assim (desde que, claro e sempre, não exija isso do outro). Inclusive, já disse, minha cor favorita é rosa e já tive muita gente me olhando torto por isso, e pela coleção de bonecas e laços nos cabelos e tudo mais. E sendo bem sincera me parece que a J.K. Rowling seria super uma dessas pessoas, sim. Sempre que uma mulher aparece performando o que hoje vemos como feminilidade na série Harry Potter isso é um sinal de que ela é fraca, fútil, boba ou pior: má. E não é só a Umbridge, não.

Parvati Patil e Lilá Brown, tão cruéis com Hermione em diversos momentos, têm costume de destilar essa crueldade enquanto estão se arrumando, admirando sua beleza na colher. Fleur Delacour, única campeã menina do Torneio Tribruxo e tão linda que as pessoas param pra olhar, não conseguiu terminar duas de suas três tarefas e foi quem teve a pior performance na competição enquanto se preocupava com o próprio peso nessa época e em como a cunhada ficaria “horrível” em uma cor específica em seu casamento por ser ruiva depois. Tia Petúnia, que virou as costas pra irmã por não ser como ela, veste vestidos salmão nos jantares do marido e tem flores estampadas em diversos lugares de sua casa. Até Queenie, que poderia ser uma super personagem em “Animais Fantásticos” destaca-se pela sensualidade e delicadeza, mas se mostra rasa, inconsequente e manipulável mesmo sendo capaz de ler mentes.

É claro que a “masculinização” (entre aspas) exagerada dessas mulheres também é retratada como ruim, tendo a terrível tia Guida barba assim como o irmão e a pavorosa Rita Skeeter sendo uma combinação dos dois, com biotipo que soa masculino mas caracterização que é o ápice do feminino, sempre com cabelos cacheados, unhas pintadas e cores exuberantes. Nem vou entrar nessa agora porque passaria muita raiva citando a dissertação MONSTRUOSA que a J.K. publicou defendendo a própria transfobia usando pautas seríssimas ao faze-lo. Não é dia de me aprofundar em tal desserviço. É dia de pensar em como é maravilhoso ver pessoas marginalizadas sendo representadas como heroínas, claro, mas outras acabaram sendo jogadas do outro lado, e eu pessoalmente não consigo deixar de ver isso como reflexo do machismo, que associa tudo o que tem minimamente a ver com a mulher, mesmo que puramente socialmente, como inferior, sempre!

E a própria autora sofreu esse machismo, ela mesma já contou que a decepção dos pais por ter uma primeira filha fez com que fosse tratada como o “menino” da família, vestindo azul enquanto sua irmã usava rosa, e aí muita coisa já parece começar a ser explicada aqui nesse ponto. Também não vou ignorar as mulheres incríveis que temos nas histórias de Harry Potter e seu “universo expandido” assumindo fortes papéis de mãe, amiga, professora, ativista, presidenta, atleta, gênia, até mesmo a maior das vilãs… Mas chega de só conseguir enaltecê-las se tiver outras ao seu redor pra rebaixar, né? Chega de ver o que é associado a nós como negativo, quero que possa ser bem visto quando usado por pessoas de QUALQUER gênero, sexualidade, visual e, sim, caráter. Dá pra ser “feminina” (oh as aspas aí de novo), até sem ser menina, e ser incrível demais.

Pra cada Dolores Umbridge que nos faz virar os olhos temos muitas e muitas Elle Woods do outro lado, lutando pra tirar essas ideias retrógradas do foco e fazer disso aqui um planeta melhor!

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o oitavo, referente a 2011, ano em que o último filme da série Harry Potter foi lançado e eu comecei a fazer parte do Potter Club BH.

Harry Potter e a Visão Negativa de Tudo Que é Feminino | Dia 08 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Gola careca e nós atados

Foto de duas mãos fechadas, se tocando, usando alianças de noivado no dedo anelar. A mão masculina pertence a um homem negro e feminina a uma mulher branca.

Cecília ouviu Patrick chamando seu nome e tirou os olhos da tela do celular ao mesmo tempo que ia se levantando do banco do shopping no qual estava sentada. Ai, como ele estava lindo! Usava uma camisa de gola careca azul marinho que ela tinha dado de presente no último Dia dos Namorados e calça jeans de lavagem escura, do jeito que sabia que ela gostava. Eles se beijaram rapidamente e já foram andando de mãos dadas rumo ao cinema para imprimir os ingressos comprados anteriormente pela internet. Comentavam alegremente sobre a festa de casamento de Pilar e Jonathan, primo dele, que tinha acontecido naquele fim de semana. A festa foi linda, eles dançaram a madrugada toda e o buquê, que ela conquistou com bravura na hora que foi arremessado pela noiva, estava em cima da mesa da sua casa, murchando lentamente, mas com ar de troféu.

Assistiram a um filme de animação muito emocionante, daqueles que divertem as crianças enquanto causam muito pesar aos adultos que entendem a mensagem por trás das piadas. O dois sussurravam algumas coisas, tomando cuidado pra não incomodar o resto do cinema, que não estava muito cheio. Dividiam um pacote de discos de chocolate, preferiam não comer nada mais pesado porque os planos incluíam um jantar mais tarde, e quando os créditos finais começaram a subir pela tela, se preparando pra levantar e jogar a embalagem fora, uma criança surgiu, de repente, comentando o filme com os pais sem vê-los ali, derrubando o resto do conteúdo do copo de refrigerante em cima do rapaz.

Cecília se preparou pra falar “Tudo bem!” pro pedido de desculpas que viria em seguida, mas a reação de Patrick foi completamente inesperada: ele ficou muito bravo. Não falou nada com a criança em si, que de fato parecia muito envergonhada, mas saiu do cinema bufando, irado, murmurando todos os xingamentos que conhecia. Ela pediu que mantivesse a calma, afinal era só um pouquinho de refri, mas por algum motivo ele ficou transtornado mesmo com a camisa suja. Sugeriu que fosse ao banheiro se limpar antes do jantar, mas a reação foi tão incomum que nem clima para jantar ele sentia mais. Conversaram por alguns minutos no corredor do shopping sobre isso, desanimados, e decidiram ir pra casa dela, pedir algo pra comer lá mesmo, melhor fechar a noite logo de uma vez.

Dentro do táxi Cecília acessou o site onde tinha comprado aquela camisa, Key Design, e pediu logo mais um kit com três. Não fazia sentido algum ele ter reagido daquele jeito! Todo bem que gostava da peça, mas se exaltar tanto por causa de um molhadinho de nada a ponto de nem querer jantar? Ela não conseguia entender, mas mostrou pra ele a tela com o pedido confirmado, esperando que se animasse. Ele sorriu e agradeceu, “Poxa, amor não precisava!” e ficou em silêncio em seguida, sem falar mais nada o caminho todo. Esquisitíssimo. Viu pelo canto de olho que pegou o próprio telefone e começou a pedir algo para eles comerem, mas sem nem a breve troca de “Escolhe você!” que era parte tão frequente do cotidiano deles. Nada ali fazia sentido.

Chegando em casa ele foi correndo trocar de roupa, colocando uma camisa de outra cor, com ela atrás querendo entender o que estava acontecendo. Ele tentou desviar, indo em direção à sala e falando que depois do jantar conversariam, mas Cecília insistiu. Patrick era o cara mais legal do mundo, jamais deixaria uma noite gostosa terminar daquele jeito. Ele então, de repente, tirou uma caixa de alianças no bolso, explicando que queria tudo perfeito, mas já que ela insistia tanto, o pedido seria feito ali, mesmo, sem obedecer ensaio, fora do restaurante amado e usando uma cor que não era sua favorita. Ela ficou olhando sem acreditar, com os olhos cheios d’água, enquanto ele colocava o anel em seu dedo dizendo que já era hora de se casarem. Ela concordou, retribuindo o gesto. Na mesa, o buquê parecia sorrir de alegria, mesmo que não tivesse um rosto para fazê-lo.

Foto de um homem negro, que mostra do nariz ao peito, usando uma camisa de gola careca azul. Sua mão direita está na frente do corpo, tocando o ombro esquerdo, e ele usa pulseiras artesanais.
Camiseta de gola careca sem bolso azul marinho.

Psiu! Prest’enção! Esse post é uma publicidade da Key Design. Você pode conhecer os produtos no site da loja e em redes sociais como Facebook, Instagram, Pinterest e canal no YouTube.

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o sétimo, referente a 2010, inspirado em um sonho que tive na época.

Gola careca e nós atados | Dia 07 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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Minha relação com a maquiagem

Foto de Luly Lage aos 3 anos, vestindo um macacão curto e marias-chiquinhas nos cabelos, segurando um estojo de maquiagem infantil na mão direita. Ao redor da foto, que é analógica, foram colocados itens de maquiagem já de adulta, todos em tons de rosa e vermelho, formando uma moldura.

Não sei precisar exatamente quando comecei a gostar de maquiagem, mas existe uma foto minha já aos 3 anos (acima) segurando um daqueles estojinhos de maquiagem infantil, sobre os quais hoje não sei se tenho opinião formada, e mais do que isso, tenho memórias dessa época, quando minha tia trabalhava com estética e tinha estojos gigantes com todas as cores possíveis na sala onde atendia. Ela me ensinou, bem superficialmente e só pra eu achar que sabia como fazer, que devia passar o tom de sombra mais escuro em baixo e mais claro em cima, é claro que provavelmente ficava pavoroso, mas eu me achava. Um pouco depois, lá pros 6, 7 anos, descobri que minha mãe tinha um batom vermelho em cima da pia do banheiro e às vezes, quando ela não estava em casa, subia ali pra passar, achava que ficava bonito demais – e ainda acho.

Minha primeira maquiagem não infantil foi justamente um batom vermelho da Avon, sabor morango de uma linha da Angélica que a marca tinha no início dos anos 2000. Eu era muito tímida e jamais usava na escola ou na frente dos meus amigos, mas dentro de casa era o tempo inteiro. Tinha também um potinho de glitter, que nem sei se era adequado para tal, pra passar nos olhos nas apresentações do coral e festinhas, logo quando rolou o boom dos gloss em roll on e NOSSA, era indispensável! Meus sabores eram menta e limão, tive vários desses dois, retocava horrores enquanto jogava Maquiagem Virtual da Barbie, meu jogo favorito da época por motivos óbvios de temática e personagem. A Barbie era um ícone pra mim e nunca fui desses crianças que rabiscavam as bonecas porque já as achava impecáveis, não conseguia estraga-las, fazia só no digital, mesmo…

Passei a maior parte da adolescência querendo aprender a usar maquiagem, com alguns itens na caixa destinada a isso e sem muita coragem de me aventurar. No último ano do colégio, com o vestibular batendo na porta, eu queria muito alguma cosa pra me distrair no momentos de descontração durante a semana, tendo ainda internet discada que reduzia meu tempo de blog e MSN aos fins de semana e feriado. Foi quando encontrei um MUNDO de produtos da minha mãe que ela nunca usava, porque não liga tanto pra isso, guardado no armário do banheiro. Sério, a maioria estava nova, esperando por mim. Descobri que maquiagem era algo muito maior que sombra-blush-batom, aprendi o que gostava e o que ainda não sabia, acordava mais cedo pra ir pra escola parecendo uma versão baixinha da Barbie (olha ela aqui de novo). Nesse ponto, pronto, estava APAIXONADA!

Em 2019, já na faculdade, eu sabia muita coisa de forma amadora, mas queria mais, então fiz meu primeiro curso de auto maquiagem da vida. Ele era bem curtinho, mas virou posts aqui no blog (um sobre rosto, outro sobre olhos) e muitas informações na minha cabeça. Redescobri o que me agradava e acima de tudo que continuaria assim, mudando de gosto quando preciso. Em seguida ganhei no Top Comentaristas do Mês do Just Lia uma sombra solta roxa, incrível, e como não sabia usar recorri ao YouTube, que já estava se tornando um amigo na hora dos penteados. As YouTubers de maquiagem foram um mundo que se abriu diante dos meus olhos e mais uma vez fiquei encantada por uma nova coisa dentro do velho encanto. Dois anos depois comprei meu primeiro batom caro, o M.A.C. Red, e aí batons vermelhos se tornaram, pra sempre, minha marca registrada!

Desde então ensaiei aqui e ali trazer esse amor pra produção de conteúdo, algumas deram certo e renderam bons frutos, mas algo em mim relutava em levar adiante. Várias vezes nos últimos anos, ao aparecer maquiada em algum lugar ou mesmo maquiar alguma amiga, ouvi “Por que você não vira maquiadora?” e nem eu mesma sabia a resposta, até que me peguei admirando um paleta que ganhei de presente um dia e finalmente entendi. Todas as coisas que gosto na vida viraram trabalho pra mim em algum momento, de forma ampla ou pontual, e por mais que eu seja 100% aquele tipo de pessoa que visa trabalhar com o que gosta, parecia que ia me “tirar” o último dos prazeres, sabe? Claro, posso pagar língua em relação a isso semana que vem, e se for o caso, faço, mas por hora prefiro manter o encantamento não só ao usar, mas mesmo quando tiro um tempinho pra OLHAR pra elas, tamanho é meu carinho por cada produto, querendo um o outro a mais, mas sempre satisfeita com todos!

Mesa de maquiagem composta por uma caixa azul marinho maior, onde há vários itens variados colocados desorganizadamente em cestas de plástico, uma caixa menor com paletas de sombra, uma cestinha maior com uma caneca de pincéis e itens variados e uma necessaire pequena, onde se vê mais maquiagens.
Meu cantinho de maquiagem, esperando pelo dia em que teremos uma penteadeira nesse quarto para ficar oficialmente completo.

Esse post faz parte do Especial 17 Anos de Sweet Luly, que serão completos em 26 de junho de 2021, onde estou escrevendo um texto para cada ano de vida do blog. Esse é o sexto, referente a 2009.

Minha relação com a maquiagem | Dia 06 do Sweet Luly Especial 17 anos: posts dedicados a cada ano de vida do blog ao longo de junho de 2021!

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