5 artistas (negras) do Renascimento do Harlem que você precisa conhecer!

Na primeira terça feira de junho as redes sociais foram tomadas pela #blackouttuesday, que tinha como objetivo principal mostrar solidariedade à causa anti racista deixando de publicar trabalhos por um dia, dando espaço às produções de pessoas negras. Muita gente apenas postou quadrados pretos como forma de manifestar apoio, mas eu, pessoalmente, não consegui enxergar bem como aquilo poderia mostrar realmente contribuir pras discussões. Não renegando quem o fez, claro, acho o posicionamento importante, mas vi a opinião de quem realmente importava sobre o que estava acontecendo e muitos de fato afirmavam o que apenas assumi. Decidi, então, contribuir do meu jeito, como educadora de artes no Vênus em Arte, produzindo vídeos sobre artistas plásticas pretas, já que até então não tinha falado sobre nenhuma por lá. E foi pesquisando sobre elas, tentando achar um foco para essa produção ficar bem bacana, que descobri o Renascimento do Harlem!

O Renascimento do Harlem, também conhecido como “Novo Movimento Negro” entre as décadas de 1920 e 30, aconteceu no bairro de mesmo nome, em Nova York, onde ao migrar para o Norte dos EUA a população afro-americana se instalou e começou a manifestar de forma artística e intelectual. O movimento era progressista, socialista e visava a integração dos negros no país, primordial para sua luta por direitos civis que só foram conquistados em 1966. É muito característico dele a valorização dos traços e cultura dessa sociedade tão marginalizada à época (e, cá entre nós, ainda hoje), usando suas características físicas como ideal de belo, cores vibrantes para integrar obras e ativismo político nas temáticas das produções, que passavam também por música, teatro, dança, sociologia, filosofia e outros tipos de manifestações culturais e acadêmicas.

Eu me vi ali completamente apaixonada por algo que NUNCA tinha estudado antes. O Harlem era para mim, até então, o bairro do Luke Cage, herói da Marvel, e nada mais. Em quatro anos de estudo formal de história da arte, dois na escola e os outros já na faculdade, uma pós graduação em Ensino de Artes e mais de um ano produzindo conteúdo sobre eu nunca tinha sequer ouvido falar ou lido por alto sobre! Uma coisa incrível sobre o movimento é que, por já se tratar de uma minoria política, as pessoas ali envolvidas eram menos sexistas que o tradicional, então uma característica forte dele é a valorização da mulher preta, mesmo. Conheci e estudei cinco delas (mais um patrona de artes, A’Lelia Walker), e espero que vocês gostem de descobri-las agora tanto quanto amei à época, e sigo amando!

01) Laura Wheeler Waring:

Mulheres do Renascimento do Harlem: Laura Wheeler Waring

Laura Wheeler Waring, nascida no estado de Connecticut, dava aula de artes e música desde os 19 anos, enquanto estudava na Academia de Belas Artes da Pensilvânia. Após se formar passou um período pré I Guerra Mundial estudando no Louvre, conheceu e se inspirou nos principais pintores Impressionistas lá expostos. De volta ao seu país natal se tornou a cabeça das cadeiras que já lecionava, tornando-se responsável por elas por 30 anos. Casou-se com Walter E. Waring em 1927 e, no mesmo ano, participou da 1° Exibição de Arte Afro-Americana, onde recebeu uma encomenda da fundação responsável de retratos de pessoas negras, escolhendo representar seu colegas integrantes do Renascimento do Harlem, mesmo que não vivesse perto deles em Nova York. Morreu aos 60 anos após uma longa doença. Em 1997, 110 anos após seu nascimento, entrou para o Hall da Fama de Mulheres de Connecticut.

Obras em destaque: Mulher Com Buquê (1940), Retrato de Jessie Redmon Fauset (1945) e Anna Washington Derry (1927). Aprenda mais sobre a Laura!

Leia também: 10 mulheres do Impressionismo que você precisa conhecer!

02) Augusta Savage:

Mulheres do Renascimento do Harlem: Augusta Savage

Nasceu em 1892, na Flórida e desde criança brincava de modelar com argila, para horror do pai que considerava a atividade pecaminosa. Começou a dar aula na escola em que estudava na adolescência, indo estudar arte em Nova York aos 29 anos, após casar-se duas vezes (ficou viúva do primeiro) e ter sua filha, Irene. Despertava comoção nas pessoas por não conseguir arcar com seus estudos mesmo com tanta habilidade, o que resultou em movimentações para ajuda-la a custear sua estadia na cidade, principalmente após fazer bustos de membros do Renascimento do Harlem. Passou 2 anos estudando em Paris, sendo a primeira negra a entrar para a Associação Nacional de Mulheres Pintoras e Escultoras após voltar. Sua obra “A Harpa” foi o grande destaque na Feira Mundial de Nova York em 1939. Por não conseguir se manter como artista, mudou-se para fazenda e morreu aos 70 anos, em NY.

Obras em destaque: Cabeça de John Henry (1940), A Harpa (1939) e Garoto Com Coelho (1928). Aprenda mais sobre a Augusta!

03) Meta Vaux Warrick Fuller:

Mulheres do Renascimento do Harlem: Meta Vaux Warrick Fuller

Natural da Filadélfia em junho de 1877, filha de um casal de posição social relativamente privilegiada para afro-americanos da época. Começou a esculpir no Museu e Escola de Arte Industrial da Pensilvânia, produzindo fora do estereótipo esperado de uma mulher com temáticas de horror e mais dramáticas. Foi estudar em Paris, se tornando protegida de Auguste Rodin e conseguiu um patrocínio que a permitiu participar do Salão de Paris, até voltar para os Estados Unidos. Casou-se com um dos primeiros psiquiatras pretos do país, dando aulas nos fundos da casa dos dois. Na década de 1920 participou da America’s Making Exibition, representando imigrantes da Etiópia. Morreu em 1968 aos 90 anos, produzindo até a mesma década.

Obras em destaque: Mary Turner (1919), Os Miseráveis (1902) e O Despertar da Etiópia (1910). Aprenda mais sobre a Meta!

04) Elizabeth Catlett:

Mulheres do Renascimento do Harlem: Elizabeth Catlett

Neta de escravos libertos dos dois lados, Elizabeth Catlett estudou arte na escola, graduou-se com louvor na Howard University, onde foi aluna de Lois Mailou Jones. Foi a 1ª mulher afro-americana a fazer mestrado na Universidade de Iowa, ensinando em vários lugares dos Estados Unidos. Sua primeira ida ao México em 1946, lugar com o qual teve forte identificação por casar com o teor ativista de seu trabalho. Fazia impressões para causas de esquerda em prol da educação para o Partido Comunista, do qual seu 2º marido, Francisco Mora, fazia parte, renunciando à cidadania americana para passar a viver lá em tempo integral. Deu aula na Escuela Nacional de Belas Artes até se aposentar, recebeu inúmeros prêmios nos dois países e foi considerada a principal artista negra de sua geração. Morreu em 2012, 10 anos depois de Mora, com quem teve três filhos.

Obras em destaque: Mãe e Criança (1939), Estudantes Aspiram (1977) e Meeiro (1952/1970). Aprenda mais sobre a Elizabeth!

05) Lois Mailou Jones:

Mulheres do Renascimento do Harlem: Lois Mailou Jones

Lois Mailou Jones, filha do 1º afro-americano advogado da Suffolk Law School, que junto com sua mãe a incentivava bastante. Após alguns anos de estudo formal em nível superior sua carreira começou oficialmente em 1930 e seu estilo mudou bastante ao longo dos anos, muito por causa do fato de que nunca parou de estudar e mesmo ensinar em múltiplas áreas: foi responsável pelo departamento de arte de uma escola preparatória tradicional para negros na Carolina do Norte e sua mentoria apoiou a arte afro-americana do Harlem, onde também recebeu muita influência, inclusive para sua obra prima “A Ascensão da Etiópia”. Estudou também em Paris, onde foi muito aceita, casou com o haitiano Louis Pierre Noel e seguiu incentivando a arte feita por negros não só nesses três países, mas também outros pontos da África, tendo obras na Casa Branca, compradas pelos Clinton. Morreu aos 92 anos, em 1998.

Obras em destaque: Juventude Negra (1929), Ascensão da Etiópia (1932) e Jennie (1943). Aprenda mais sobre a Lois!

Quer conhecer mais sobre as mulheres do Renascimento do Harlem?

Esse post faz parte do projeto Vênus em Arte, um canal no Youtube e podcast que traz visibilidade feminina pra história da arte! A série sobre as mulheres do Renascimento do Harlem foi um especial em homenagem ao #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam), cumprindo o objetivo de abrir nosso espaço para expor o trabalho de pessoas pretas que merecem mais visibilidade e nem sempre a conquistam por causa do racismo estrutural da nossa sociedade. Para conhecer mais sobre o movimento e seu contexto vocês podem acessar a playlist sobre o assunto por lá!

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4 Comments

  1. Que conteúdo incrível! Eu não conhecia o “Renascimento do Harlem”, apesar de saber que esse é um bairro de muita história e importância dentro do movimento negro. Adorei o trabalho dessas artistas, quantas produções interessantes! Vou ver seu vídeo e me informar mais sobre o assunto <3

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